Basílica de São Pedro: quantos anos durou a construção?

A basílica de São Pedro, no Vaticano, levou 120 anos para ficar pronta, reunindo sete grandes arquitetos entre 1506 e 1626; entenda o processo

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A basílica de São Pedro, no Vaticano, levou 120 anos para ficar pronta: as obras começaram em 18 de abril de 1506, sob o papa Júlio II, e terminaram em 18 de novembro de 1626, data da consagração pelo papa Urbano VIII. Ao longo desse período, sete arquitetos principais assumiram o projeto em sequência, cada um deixando marcas próprias no edifício final. O prédio atual substituiu a antiga basílica constantiniana, erguida no século IV sobre o local onde a tradição cristã situa o túmulo do apóstolo Pedro. Nenhum outro templo católico reuniu, em sua construção, um conjunto tão extenso de mestres do Renascimento e do Barroco italiano.

Júlio II decidiu demolir a igreja original porque ela apresentava sinais estruturais de deterioração após mais de mil anos de uso e porque o papa desejava um monumento à altura do poder renovado da Igreja Católica no início do século XVI. A escolha do arquiteto Donato Bramante, vencedor do concurso de projetos, definiu o formato inicial da nova basílica: uma planta em cruz grega, com quatro braços iguais, coroada por uma cúpula inspirada no Panteão de Roma, templo pagão do século II erguido na própria cidade. Esse desenho ambicioso exigiu a demolição quase total da construção anterior, o que gerou críticas de contemporâneos e valeu a Bramante o apelido irônico de “Maestro Ruinante”, ou mestre da ruína.

A obra da basílica atravessou o reinado de vinte papas diferentes, o que ajuda a explicar por que o projeto sofreu tantas alterações de estilo e de planta ao longo de mais de um século. Cada novo pontífice trazia arquitetos de sua confiança e prioridades distintas, alternando entre a cruz grega original de Bramante e a cruz latina tradicional, mais alongada, usada em outras grandes igrejas ocidentais. Essa sucessão de decisões tornou a basílica um documento vivo da evolução da arquitetura italiana entre o final do século XV e a metade do século XVII.

A sequência de arquitetos-chefe que definiu o projeto da basílica

Bramante dirigiu as obras de 1506 até sua morte, em 1514, período em que os alicerces e os quatro pilares centrais que sustentariam a futura cúpula foram erguidos. Após seu falecimento, o papa Leão X nomeou uma comissão de arquitetos para dar continuidade ao projeto, formada por Rafael Sanzio, o veneziano Fra Giocondo e Giuliano da Sangallo; Rafael propôs a conversão da planta para cruz latina, alteração que ampliaria o espaço interno destinado aos fiéis. Nas décadas seguintes, Baldassare Peruzzi e, depois, Antonio da Sangallo, o Jovem, assumiram a direção das obras, retomando em parte a ideia original de Bramante e reforçando estruturalmente os pilares que sustentariam o peso da cúpula.

Em 1546, aos 71 anos, Michelangelo Buonarroti assumiu o cargo de arquiteto-chefe por indicação do papa Paulo III, revertendo a planta para a cruz grega centralizada e simplificando os ornamentos propostos pelos antecessores. Sua contribuição mais conhecida foi o projeto da cúpula, com cerca de 42 metros de diâmetro interno, concebido a partir de um modelo de madeira construído sob sua própria supervisão, hoje conservado nos Museus Vaticanos. Michelangelo morreu em 1564, antes de ver a cúpula concluída, e o trabalho foi finalizado entre 1588 e 1590 pelos arquitetos Giacomo della Porta e Domenico Fontana, que ajustaram a curvatura da estrutura para torná-la mais alta e esbelta do que o modelo original previa.

No início do século XVII, o papa Paulo V encarregou Carlo Maderno de estender a planta centralizada de Michelangelo em direção à praça, transformando a basílica em cruz latina definitiva e adicionando a fachada que hoje recebe os visitantes. Essa alteração, concluída em 1614, resolveu uma exigência litúrgica da Igreja pós-Concílio de Trento, que recomendava naves alongadas para acomodar procissões, mas teve como efeito colateral ocultar parcialmente a visão da cúpula de Michelangelo a partir da praça em frente ao templo.

Por que a construção da basílica de São Pedro consumiu mais de um século?

O custo elevado da obra foi um dos principais fatores que prolongaram o cronograma da basílica, já que o Vaticano precisou recorrer a fontes extraordinárias de financiamento para sustentar décadas seguidas de canteiro de obras ativo. Guerras na Península Itálica, trocas frequentes de papas e interrupções orçamentárias em períodos de crise financeira da Santa Sé também impuseram pausas ao projeto, especialmente entre o fim do papado de Leão X, em 1521, e a retomada mais consistente das obras sob Paulo III, na década de 1540.

A relação entre o financiamento da basílica e a Reforma Protestante

Para custear a construção, o papa Leão X ampliou a venda de indulgências, documentos que prometiam a redução de penas espirituais em troca de doações à Igreja, prática que já existia mas que se intensificou nesse período. Segundo historiadores da Reforma, como Diarmaid MacCulloch, essa campanha de arrecadação, conduzida na Alemanha pelo frade dominicano Johann Tetzel, tornou-se um dos estopins da crítica de Martinho Lutero, que publicou as 95 teses em 1517 questionando a legitimidade das indulgências. Embora a basílica não tenha sido a única motivação de Lutero, os historiadores reconhecem a coincidência histórica: o financiamento de um dos maiores templos da cristandade acabou associado ao evento que dividiu o cristianismo ocidental entre católicos e protestantes.

Somadas as interrupções financeiras e políticas às mudanças recorrentes de projeto arquitetônico, a basílica levou mais tempo para ficar pronta do que qualquer outro grande templo católico da Europa construído no mesmo período. A consagração final, realizada por Urbano VIII em 18 de novembro de 1626, ocorreu exatamente 1.300 anos depois da data tradicionalmente atribuída à dedicação da primeira basílica constantiniana no mesmo local, segundo o calendário litúrgico da Igreja.

O papel de Bernini e o número de grandes arquitetos envolvidos na obra

Depois da consagração de 1626, a basílica de São Pedro continuou recebendo intervenções arquitetônicas relevantes, das quais a mais importante coube a Gian Lorenzo Bernini. Entre 1656 e 1667, sob encomenda do papa Alexandre VII, Bernini projetou a praça elíptica em frente ao templo, cercada por colunatas que ele próprio descreveu como os “braços da Igreja” acolhendo os peregrinos, além do baldaquino de bronze que marca o altar principal sobre o túmulo de Pedro, concluído já em 1633.

Contando os nomes de maior relevância histórica e artística, sete grandes arquitetos moldaram a basílica de São Pedro entre 1506 e 1667: Donato Bramante, Rafael Sanzio, Antonio da Sangallo, o Jovem, Michelangelo Buonarroti, Giacomo della Porta, Carlo Maderno e Gian Lorenzo Bernini. A esses nomes principais somam-se colaboradores de peso menor no resultado final, como Fra Giocondo, Giuliano da Sangallo, Baldassare Peruzzi e Domenico Fontana, cujas contribuições foram importantes, mas não redefiniram o projeto da forma como fizeram os sete arquitetos citados.

Uma curiosidade histórica pouco conhecida sobre a basílica envolve o modelo de madeira que Michelangelo construiu para representar sua proposta de cúpula: em vez de recorrer a desenhos técnicos detalhados, como era comum entre arquitetos renascentistas, ele preferiu esculpir pessoalmente uma maquete em escala reduzida, hoje exposta no Museu Histórico Artístico do Tesouro de São Pedro, no Vaticano. Esse objeto permitiu que os arquitetos que o sucederam, Giacomo della Porta e Domenico Fontana, seguissem sua intenção estrutural mesmo depois de sua morte, garantindo que a cúpula da basílica preservasse a assinatura de Michelangelo até os dias atuais.

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