As quatro grandes basílicas papais de Roma são a Arquibasílica de São João de Latrão, a Basílica de São Pedro no Vaticano, a Basílica de Santa Maria Maior e a Basílica de São Paulo Fora dos Muros, também chamadas de “basílicas maiores” por estarem sob autoridade direta do papa. Cada uma dessas basílicas possui um altar papal, reservado exclusivamente à celebração do pontífice ou de seus delegados, e uma Porta Santa, aberta apenas durante os Anos Jubilares para conceder a indulgência plenária aos fiéis que a atravessam. Três delas ficam dentro do território da cidade de Roma, enquanto a Basílica de São Pedro está localizada no Estado da Cidade do Vaticano, criado em 1929.
A distinção entre “basílica maior” e “basílica menor” não se refere ao tamanho do edifício, mas ao vínculo direto com o papa: existem centenas de basílicas menores espalhadas pelo mundo, título honorífico concedido por razões históricas, artísticas ou devocionais, mas apenas quatro basílicas romanas recebem oficialmente o título de “papais” ou “maiores”. Até a renúncia do papa Bento XVI ao título de “Patriarca do Ocidente”, em 2006, essas quatro igrejas eram chamadas de “basílicas patriarcais”, nomenclatura hoje em desuso nos documentos oficiais da Santa Sé.
Três das quatro basílicas maiores — São João de Latrão, Santa Maria Maior e São Paulo Fora dos Muros — receberam status de extraterritorialidade em favor da Santa Sé por meio do Tratado de Latrão, assinado em 11 de fevereiro de 1929 entre o cardeal Pietro Gasparri, representando o papa Pio XI, e o então chefe de governo italiano Benito Mussolini. Isso significa que, embora fisicamente localizadas em solo italiano, essas três igrejas permanecem sob soberania jurídica do Vaticano, condição que a Basílica de São Pedro não precisa compartilhar por já estar dentro do território vaticano.
São João de Latrão: a mais antiga das basílicas papais de Roma
A Arquibasílica de São João de Latrão é a mais antiga das quatro basílicas maiores e ocupa posição de destaque entre elas, pois é a catedral oficial do bispo de Roma, cargo exercido pelo próprio papa, e por isso está hierarquicamente acima até mesmo da Basílica de São Pedro. Construída inicialmente pelo imperador romano Constantino no início do século IV sobre terreno que pertencera à família nobre dos Laterano, a igreja foi consagrada em 324 pelo papa Silvestre I e recebeu, ao longo dos séculos, sucessivas reconstruções, sendo a fachada atual datada de 1735, obra do arquiteto Alessandro Galilei sob encomenda do papa Clemente XII.
O nome completo da basílica, “Arquibasílica do Santíssimo Salvador e dos Santos João Batista e João Evangelista”, revela que ela foi originalmente dedicada a Cristo Salvador, e só posteriormente passou a homenagear também os dois santos João, o que explica a denominação popular de “São João de Latrão” usada até hoje. Dentro do complexo arquitetônico da basílica está preservado o primeiro batistério cristão de que se tem registro monumental em Roma, o Batistério Lateranense, também mandado construir por Constantino no século IV para os batismos realizados na então nova sé episcopal da cidade.
Foi justamente no Palácio de Latrão, anexo à basílica, que representantes do Reino da Itália e da Santa Sé assinaram o Tratado de Latrão em 1929, escolha simbólica que reforçava o papel histórico da igreja como sede original do poder papal em Roma, antes mesmo de o Vaticano se tornar a residência permanente dos pontífices a partir do século XIV.
Santa Maria Maior e a mais antiga devoção mariana do Ocidente
A Basílica de Santa Maria Maior é a mais antiga igreja do Ocidente dedicada à Virgem Maria, construída entre 432 e 440 por ordem do papa Sisto III sobre uma igreja anterior, decisão tomada logo depois de o Concílio de Éfeso, em 431, proclamar oficialmente Maria como “Theotokos”, termo grego que significa “Mãe de Deus”. A basílica preserva até hoje um dos conjuntos de mosaicos paleocristãos mais importantes do mundo, datados do próprio século V, que narram episódios do Antigo Testamento e da vida de Cristo na nave central e no arco triunfal, testemunho direto da arte cristã do período imediatamente posterior às perseguições romanas.
A tradição do Milagre da Neve na fundação da basílica
A tradição cristã posterior, sem comprovação documental contemporânea aos fatos, atribui a origem do templo a um suposto milagre ocorrido em agosto do ano 358, quando teria nevado sobre a colina do Esquilino em pleno verão romano, evento que os fiéis interpretaram como sinal divino indicando o local exato onde a igreja deveria ser erguida; por esse motivo, a basílica também é conhecida como “Santa Maria das Neves” ou “Basílica Liberiana”, em referência ao papa Libério, que teria testemunhado o fenômeno segundo essa tradição.
Historiadores da Igreja que analisam as fontes sobre o período de Sisto III apontam que essa narrativa do milagre da neve surgiu apenas em relatos posteriores ao século XIII, o que a coloca no campo da tradição devocional e não no dos fatos historicamente documentados sobre a fundação do templo no século V. Essa distinção é relevante porque a data de construção da basílica, entre 432 e 440, é sustentada por registros arquitetônicos e epigráficos da própria época, enquanto a história do milagre aparece apenas em textos muito posteriores, sem qualquer menção nas fontes do século V.
São Paulo Fora dos Muros e o túmulo tradicional do apóstolo
A Basílica de São Paulo Fora dos Muros recebe esse nome por estar localizada além da Muralha Aureliana, o perímetro fortificado erguido no século III para proteger Roma de invasões, à margem da via Ostiense, estrada que ligava a cidade ao porto de Óstia. Uma primeira igreja no local foi mandada construir por Constantino no século IV sobre o túmulo que a tradição cristã atribui ao apóstolo Paulo, decapitado em Roma durante a perseguição do imperador Nero; o templo foi posteriormente ampliado e reconstruído entre 386 e 395, sob os imperadores Valentiniano II, Teodósio I e Honório, tornando-se a segunda maior basílica de Roma em dimensões, atrás apenas de São Pedro.
Um incêndio de grandes proporções destruiu quase completamente a Basílica de São Paulo Fora dos Muros na madrugada de 15 de julho de 1823, episódio que obrigou a Igreja Católica a reconstruir praticamente todo o templo ao longo do século XIX, com contribuições financeiras de governantes de diferentes países, incluindo o imperador brasileiro Pedro II, que doou colunas de pedras ornamentais para a nova construção. A reconstrução seguiu rigorosamente as proporções e o estilo do templo original, e a basílica foi reconsagrada pelo papa Pio IX em 1854, mantendo sob seu altar principal o túmulo tradicionalmente identificado como o de São Paulo, cuja autenticidade foi reforçada por escavações arqueológicas conduzidas pelo Vaticano em 2006.
Uma curiosidade histórica pouco conhecida sobre as basílicas papais de Roma envolve justamente a sequência em que os quatro templos receberam esse título máximo: São Pedro e São Paulo Fora dos Muros foram as primeiras a ser reconhecidas como basílicas maiores, por abrigarem os túmulos dos apóstolos Pedro e Paulo, enquanto São João de Latrão recebeu a distinção depois, por sua condição de catedral de Roma, e Santa Maria Maior foi a última das quatro a ser incluída nesse grupo seleto, justamente por ser a mais antiga igreja ocidental dedicada à Virgem Maria, o que demonstra que a hierarquia entre as basílicas seguiu critérios teológicos e históricos distintos, e não apenas a ordem cronológica de construção dos edifícios.