Eduardo VI, único filho homem sobrevivente de Henrique VIII, morreu em 6 de julho de 1553, aos quinze anos, no Palácio de Greenwich, em Londres, provavelmente de uma infecção pulmonar grave associada à tuberculose. Antes de morrer, ele redigiu um documento conhecido como “Devise for the Succession” (Plano para a Sucessão), no qual excluiu formalmente as duas meias-irmãs, Maria e Isabel, do direito ao trono, entregando a coroa à prima Jane Grey. A notícia da morte do rei foi mantida em segredo por três dias, período usado pelo conselho, liderado pelo duque de Northumberland, para tentar consolidar o poder antes que a informação chegasse ao público e à própria Maria, herdeira legítima segundo a lei então vigente.
Nascido em 12 de outubro de 1537, em Hampton Court, Eduardo era filho de Henrique VIII com sua terceira esposa, Jane Seymour, que morreu doze dias após o parto por complicações do puerpério. Tornou-se rei aos nove anos, em janeiro de 1547, após a morte do pai, governando sob regência, primeiro do tio Edward Seymour, duque de Somerset, e depois de John Dudley, duque de Northumberland, que assumiu o controle do conselho em 1549. A causa exata da morte de Eduardo VI ainda gera discussão entre historiadores: a historiadora Jennifer Loach defende que os sintomas indicam uma pneumonia bacteriana aguda com abscesso pulmonar, enquanto o historiador Chris Skidmore sustenta a hipótese de tuberculose contraída após um episódio de sarampo e varíola em 1552, doenças que podem ter enfraquecido sua imunidade.
O reinado de Eduardo VI, embora curto, consolidou a Reforma Protestante na Inglaterra, incluindo a adoção do primeiro “Book of Common Prayer” (Livro de Oração Comum) em 1549 e de uma versão revisada em 1552, documentos que reorganizaram a liturgia da Igreja da Inglaterra em língua inglesa. Essa identidade protestante do jovem rei explica diretamente sua decisão posterior de afastar a meia-irmã Maria da sucessão, já que ela era católica praticante e desejava restaurar os vínculos da Inglaterra com Roma.
A doença e a morte de Eduardo VI
Em fevereiro de 1553, Eduardo VI adoeceu com febre e tosse persistente, sintomas que, segundo o embaixador imperial Jehan Scheyfve, principal fonte contemporânea sobre a doença do rei, pioraram progressivamente ao longo dos meses seguintes. Sua meia-irmã, Maria, visitou-o nesse período em uma tentativa de reconciliação, encontrando-o acamado e debilitado por uma tosse violenta. Por volta de maio, seu estado já era considerado grave: ele apresentava inchaço no corpo, sobretudo na cabeça e nos pés, e dependia de opiáceos para conseguir descansar.
Em 1º de julho de 1553, Eduardo apareceu publicamente pela última vez, em uma janela do Palácio de Greenwich, visivelmente emagrecido diante da multidão reunida para vê-lo; dois dias depois, os cortesãos informaram ao povo que o rei não apareceria mais por causa do frio, uma desculpa que escondia a gravidade real de seu estado. Ele morreu na noite de 6 de julho, por volta das 20h, cercado por poucos criados de confiança, entre eles Sir Henry Sidney e o jovem estudante de medicina John Banister, que acompanhava seus últimos cuidados.
A autópsia realizada após a morte revelou dois grandes abscessos purulentos nos pulmões, achado que reforça a hipótese de infecção pulmonar avançada como causa direta do óbito, embora rumores de envenenamento tenham circulado imediatamente entre a população londrina, sem qualquer comprovação documental que sustente essa tese. Um mercador de tecidos de Londres chegou a escrever ao reformador suíço Heinrich Bullinger alegando que Northumberland havia envenenado o rei, acusação que os historiadores modernos consideram infundada diante das evidências médicas registradas na época.
Por que Eduardo VI excluiu as irmãs da linha de sucessão?
A ideia de afastar Maria da sucessão já ocupava o pensamento de Eduardo VI desde dezembro de 1552, mas ganhou forma escrita apenas quando ficou evidente, em maio de 1553, que a doença do rei era terminal. No documento “Devise for the Succession”, escrito de próprio punho e revisado em várias versões, Eduardo declarou Maria e Isabel ilegítimas para fins de sucessão, retomando o argumento usado anteriormente por Henrique VIII para anular os casamentos com Catarina de Aragão e Ana Bolena, mães das duas princesas. Em lugar delas, o rei nomeou como herdeira sua prima Jane Grey, bisneta de Henrique VII e neta da irmã mais nova de Henrique VIII, Maria Tudor, duquesa de Suffolk.
A influência do duque de Northumberland na escolha da sucessora
John Dudley, duque de Northumberland, principal conselheiro do jovem rei desde 1549, teve papel decisivo nesse processo: poucas semanas antes da assinatura final do documento, ele havia organizado o casamento entre Jane Grey e seu próprio filho, lorde Guildford Dudley, união que colocaria a família Dudley no centro do poder caso o plano de sucessão se concretizasse. Historiadores como Diarmaid MacCulloch debatem até hoje se a exclusão das irmãs partiu de convicção religiosa genuína do próprio Eduardo ou se resultou principalmente da manipulação política de Northumberland sobre um adolescente gravemente doente, questão que a documentação disponível não permite resolver com certeza absoluta.
O documento final foi assinado em 21 de junho de 1553 por dezenas de conselheiros, nobres, juízes e bispos, mas sua validade legal era questionável, já que Eduardo tentava revogar por decreto pessoal o “Third Succession Act” de 1543, lei aprovada pelo Parlamento que havia restabelecido Maria e Isabel na linha sucessória. Muitos juristas da época já reconheciam, antes mesmo da morte do rei, que um documento sem aprovação parlamentar formal dificilmente teria força suficiente para sustentar a coroação de Jane Grey diante de uma contestação séria por parte de Maria.
O segredo em torno da morte e a rápida ascensão de Jane Grey
Depois que Eduardo VI morreu, na noite de 6 de julho, o conselho liderado por Northumberland manteve a notícia em sigilo por três dias, tempo usado para reunir apoio entre nobres e cortesãos antes de tornar pública a mudança na sucessão. Esse atraso deliberado não impediu, porém, que Maria recebesse avisos sobre a gravidade do estado do irmão ainda antes da morte dele; por precaução, ela já havia deixado Londres e se refugiado em Norfolk, no leste da Inglaterra, região onde contava com apoio popular significativo.
Em 9 de julho, Jane Grey foi informada, na residência de seu sogro em Syon House, de que se tornaria rainha por determinação de Eduardo VI, reagindo com choro e resistência antes de aceitar o título no dia seguinte. Seu reinado, porém, durou apenas nove dias: o conselho privado, percebendo a força crescente do apoio popular a Maria, mudou de lado e a proclamou rainha em 19 de julho de 1553, encerrando de forma abrupta a tentativa de Northumberland de manter o poder por meio de Jane, que seria presa na Torre de Londres e executada em 12 de fevereiro de 1554.
Uma curiosidade histórica pouco conhecida sobre a morte de Eduardo VI envolve seu próprio funeral, realizado somente em 8 de agosto de 1553, mais de um mês depois do falecimento, devido às negociações entre Maria e seus ministros sobre o rito a ser seguido. O corpo do jovem rei foi sepultado em Westminster Abbey conforme o rito protestante do “Book of Common Prayer”, celebrado pelo arcebispo Thomas Cranmer, enquanto a já então rainha Maria, católica, recusou-se a comparecer e mandou celebrar, em paralelo, uma missa de réquiem em latim na capela da Torre de Londres, episódio que resume, no próprio enterro de Eduardo VI, o conflito religioso que marcara toda a disputa pela sucessão do trono inglês.