Druidas: os sacerdotes dos povos celtas

Os druidas formavam a elite sacerdotal e intelectual dos povos celtas na Gália, na Britânia e na Irlanda, entre a Idade do Ferro e a conquista romana

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Os druidas eram os membros de uma elite sacerdotal e intelectual entre os povos celtas da Gália, da Britânia e da Irlanda, ativa aproximadamente entre o século III a.C. e o século I d.C., quando a expansão romana suprimiu suas estruturas religiosas. Acumulavam funções religiosas, jurídicas e educacionais, e ocupavam posição de prestígio equivalente à da nobreza guerreira nessas sociedades celtas, organizadas em tribos sem escrita própria para registro histórico. A principal fonte sobre os druidas é o livro sexto de “De Bello Gallico” (Comentários sobre a Guerra Gálica), escrito por Júlio César por volta de 50 a.C., durante sua campanha militar de conquista da Gália. Por não terem deixado registros escritos próprios, o conhecimento atual sobre os druidas depende quase inteiramente de autores romanos e gregos, muitos deles com interesse político direto na conquista dos territórios célticos.

Essa dependência de fontes externas cria uma limitação historiográfica relevante: praticamente tudo o que se sabe sobre os druidas vem de observadores estrangeiros, frequentemente hostis, e não de testemunhos internos dessas comunidades. Além de Júlio César, as principais referências antigas incluem Plínio, o Velho, autor da enciclopédia “Naturalis Historia”, concluída por volta de 77 d.C., e o geógrafo grego Posidônio de Apameia, do século II a.C., cuja obra original se perdeu, mas sobrevive em citações de autores posteriores como Diodoro Sículo e Estrabão. Textos irlandeses e galeses sobre druidas foram registrados séculos depois, já no período cristão medieval, transcritos por monges que reinterpretaram a tradição pagã sob nova perspectiva religiosa. Historiadores modernos, portanto, tratam grande parte dos detalhes sobre rituais druídicos como reconstrução baseada em fontes indiretas, e não como fato estabelecido com certeza absoluta.

A palavra “druidas” e as práticas a ela associadas se espalharam por regiões que hoje correspondem à França, ao Reino Unido e à Irlanda, territórios então habitados por diferentes tribos celtas com línguas e costumes próprios, mas ligadas por elementos culturais e religiosos comuns. Os druidas circulavam entre essas tribos com relativa liberdade, o que lhes permitia atuar como mediadores em conflitos entre grupos rivais. Essa posição de neutralidade política, somada ao prestígio religioso, tornava os druidas figuras centrais na organização social céltica antes da chegada dos exércitos romanos.

Sacerdócio, justiça e ensino segundo Júlio César

Segundo o relato de Júlio César em “De Bello Gallico”, os druidas formavam, ao lado da cavalaria guerreira, uma das duas classes privilegiadas da sociedade gaulesa, isentas do serviço militar e do pagamento de tributos. Presidiam sacrifícios públicos e privados, interpretavam questões religiosas e atuavam como juízes em disputas civis e criminais, com poder de aplicar a excomunhão religiosa, considerada a punição mais grave dentro dessas comunidades. A formação de um druida podia durar até vinte anos, período em que os aprendizes memorizavam extenso conjunto de versos orais, já que César registrou que os druidas evitavam colocar seus ensinamentos religiosos por escrito, embora usassem o alfabeto grego para assuntos administrativos comuns. Uma vez por ano, druidas de toda a Gália se reuniam em assembleia no território dos carnutos, povo cuja região corresponde à área da atual cidade de Chartres, na França.

César também registrou que os druidas ensinavam a doutrina da transmigração das almas, ou seja, a crença de que a alma passava para outro corpo após a morte, o que, segundo o próprio general romano, contribuía para reduzir o medo da morte entre os guerreiros célticos. Fontes romanas posteriores, como a “História Augusta”, coletânea biográfica de imperadores compilada entre os séculos III e IV d.C., de autoria e confiabilidade contestadas pelos historiadores modernos, mencionam também mulheres druidesas que teriam feito profecias a imperadores romanos como Aureliano e Diocleciano, no século III d.C. Como essa obra é considerada uma fonte historicamente problemática, a existência de druidesas com funções equivalentes às dos druidas homens permanece uma hipótese discutida, e não um consenso estabelecido entre especialistas.

Rituais e sacrifícios atribuídos aos druidas

Plínio, o Velho, descreveu, em “Naturalis Historia”, um ritual druídico ligado à colheita do visco, planta parasita que cresce sobre carvalhos, considerada sagrada quando encontrada nessas árvores. Segundo o relato, um druida vestido de branco subia ao carvalho e cortava o visco com uma foice de ouro no sexto dia após a lua nova, enquanto dois touros brancos eram sacrificados abaixo da árvore. Esse ritual é frequentemente citado como evidência da relação simbólica entre os druidas e os carvalhos, árvore associada à força e à sacralidade nas tradições célticas descritas por autores clássicos.

A controvérsia sobre os sacrifícios humanos

Júlio César também descreveu, em “De Bello Gallico”, a prática de sacrifícios humanos pelos druidas, incluindo a construção de grandes figuras de vime preenchidas com pessoas vivas e incendiadas em rituais religiosos. Historiadores modernos, no entanto, questionam a precisão desse relato específico, já que nenhuma outra fonte antiga independente confirma detalhadamente a existência desse tipo de figura de vime, e o texto de César tinha valor útil para justificar moralmente a conquista romana da Gália. Escavações arqueológicas na Europa, incluindo corpos preservados em turfeiras no norte da Europa, indicam que rituais envolvendo violência contra seres humanos ocorreram entre povos célticos e germânicos, mas os arqueólogos evitam atribuir essas descobertas especificamente aos druidas sem evidência direta adicional. A prática de sacrifícios humanos pelos druidas permanece, portanto, uma questão em que fontes antigas e evidências arqueológicas não se confirmam de forma completa.

A perseguição romana e o mito moderno sobre os druidas

O historiador romano Suetônio registrou, em sua obra “Vida dos Doze Césares”, que o imperador Cláudio, que governou Roma entre 41 e 54 d.C., aboliu formalmente a religião druídica no território da Gália durante seu reinado. Antes dele, o imperador Tibério, que governou entre 14 e 37 d.C., já havia adotado medidas restritivas contra os druidas gauleses, dentro de uma política mais ampla de romanização religiosa das províncias conquistadas. Essas ações romanas reduziram progressivamente a influência pública dos druidas nos territórios sob controle direto do Império Romano durante o primeiro século da era cristã.

O historiador romano Tácito descreveu, em sua obra “Anais”, o ataque conduzido pelo general Suetônio Paulino contra a ilha de Mona, atual Anglesey, no País de Gales, no ano 60 ou 61 d.C., identificada como um dos principais centros religiosos druídicos da Britânia. Segundo o relato de Tácito, as legiões romanas destruíram bosques sagrados dedicados a rituais druídicos e mataram parte significativa da população presente na ilha durante o ataque. Esse episódio é frequentemente citado por historiadores como um marco simbólico do fim da influência pública dos druidas nas ilhas britânicas sob domínio romano direto.

Muito do imaginário popular associado aos druidas modernamente, incluindo sua ligação com o monumento pré-histórico de Stonehenge, no sul da Inglaterra, tem origem no movimento anticuário britânico do século XVIII, especialmente nos escritos do estudioso inglês William Stukeley. Pesquisas arqueológicas indicam que Stonehenge foi construído entre aproximadamente 3000 e 2000 a.C., cerca de dois mil anos antes do período em que os druidas são historicamente atestados pelas fontes romanas e gregas. Historiadores e arqueólogos contemporâneos consideram essa associação entre druidas e Stonehenge um equívoco histórico consolidado pela tradição popular, sem correspondência com o período de construção do monumento.

Estudiosos modernos de línguas célticas relacionam a palavra “druida” a raízes que significam algo como “conhecedor do carvalho”, combinação que remete diretamente à associação entre esses sacerdotes e os carvalhos sagrados já registrada por Plínio, o Velho, no primeiro século da era cristã. Essa origem linguística reforça, quase dois mil anos depois dos relatos romanos originais, a centralidade simbólica dessa árvore na identidade religiosa atribuída aos druidas pelas fontes antigas que ainda hoje sustentam boa parte do conhecimento histórico sobre eles.

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