Nero colocou fogo em Roma?

O imperador romano Nero governou entre 54 e 68 d.C. e ficou associado ao grande incêndio de Roma de 64 d.C., episódio cuja autoria os próprios historiadores antigos tratavam com incerteza

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Nero foi imperador de Roma entre 54 e 68 d.C. e é frequentemente apontado como o responsável direto pelo grande incêndio que destruiu boa parte da cidade na noite de 18 de julho de 64 d.C. Essa acusação, porém, não tem base sólida nas fontes históricas mais próximas do evento: o próprio historiador romano Tácito (c. 56-120 d.C.), que viveu poucas décadas depois do incêndio, escreveu nos “Anais” que não havia certeza se o fogo fora acidental ou provocado deliberadamente. A imagem mais famosa associada ao episódio, a de Nero tocando lira enquanto observava as chamas, surgiu em relatos escritos cerca de 150 anos após o ocorrido e carece de sustentação documental contemporânea ao evento.

A confusão em torno da culpa de Nero nasce da forma como três historiadores romanos posteriores relataram o episódio: Tácito, Suetônio (c. 69-122 d.C.) e Dião Cássio (c. 155-235 d.C.). Nenhum deles testemunhou o incêndio pessoalmente, e todos escreveram décadas ou séculos depois, em um contexto político que já tratava Nero como símbolo de tirania após sua morte, em 68 d.C. Suetônio, autor de “Vida dos Doze Césares”, foi o mais categórico ao afirmar que Nero teria ordenado o incêndio para reconstruir a cidade a seu gosto, enquanto Dião Cássio acrescentou décadas depois a cena do imperador cantando durante a tragédia.

Entender essa distinção entre relato histórico e construção posterior de reputação é essencial para responder à pergunta sobre Nero: o incêndio de Roma existiu, foi real e destruiu parte significativa da capital do império, mas a autoria do imperador nunca foi comprovada pelas fontes mais próximas dos fatos. Compreender quem foi Nero, como governou e como sua imagem se tornou sinônimo de crueldade exige revisar sua trajetória completa, da ascensão ao trono até sua morte.

Quem foi Nero e como ele se tornou imperador de Roma

Nero nasceu em 15 de dezembro de 37 d.C. na cidade de Ântio, atual Anzio, na costa da Itália, filho de Agripina, a Jovem, e bisneto do imperador Augusto por linha materna. Após o casamento de Agripina com o imperador Cláudio, seu tio-avô, Nero foi adotado por ele em 50 d.C. e preterido em relação a Britânico, filho biológico de Cláudio, na linha sucessória do trono. Com a morte de Cláudio em 54 d.C., em circunstâncias que Tácito e Suetônio atribuem a um possível envenenamento orquestrado por Agripina, Nero assumiu o poder aos dezesseis anos, tornando-se um dos imperadores mais jovens da história romana.

Os primeiros anos de seu governo, entre 54 e 59 d.C., foram marcados pela influência de conselheiros experientes, como o filósofo Sêneca, o Jovem, seu tutor desde a infância, e o prefeito da guarda pretoriana Sexto Afrânio Burro. Esse período, descrito por historiadores modernos como relativamente estável e administrativamente competente, contrasta com a fase posterior do reinado, quando Nero afastou seus conselheiros e passou a concentrar decisões de forma mais pessoal e imprevisível, incluindo o assassinato da própria mãe, Agripina, em 59 d.C.

O grande incêndio de Roma e a origem do mito sobre Nero

O grande incêndio começou na madrugada de 18 para 19 de julho de 64 d.C. nas lojas próximas ao Circo Máximo, no centro de Roma, e se espalhou rapidamente pelas ruas estreitas e pelos prédios de madeira típicos da cidade antiga. As chamas duraram cerca de seis a nove dias, conforme diferentes fontes antigas, destruindo total ou parcialmente dez das quatorze regiões administrativas em que Roma estava dividida, incluindo o Templo de Júpiter Estator e a residência das Vestais. Segundo Tácito, Nero encontrava-se em Antium no início do incêndio e retornou à capital para coordenar o combate ao fogo e organizar abrigo temporário para a população desalojada, incluindo a abertura de seus próprios jardins.

O que gerou suspeita popular contra Nero, segundo o relato de Tácito, foi sua decisão de reconstruir parte da área destruída com um novo complexo palaciano, a Domus Aurea, ou Casa Dourada, erguida sobre terrenos adquiridos após o incêndio. Essa coincidência entre a destruição de bairros centrais e a expansão do palácio imperial alimentou rumores de que Nero teria provocado o fogo deliberadamente para obter espaço, embora nenhuma fonte próxima ao evento tenha apresentado prova direta dessa autoria. Para conter as acusações que recaíam sobre si, Nero atribuiu publicamente a responsabilidade pelo incêndio à comunidade cristã de Roma, iniciando a primeira perseguição documentada do império contra seguidores do cristianismo, segundo o relato de Tácito nos “Anais”.

O que disseram Tácito, Suetônio e Dião Cássio

Tácito, escrevendo por volta de 116 d.C., cerca de cinquenta anos após o incêndio, reconheceu explicitamente a incerteza sobre a origem das chamas, mencionando tanto a hipótese de acidente quanto rumores de ação deliberada, sem atribuir culpa definitiva a Nero. Suetônio, escrevendo poucos anos depois, adotou tom mais sensacionalista, afirmando que Nero teria enviado homens disfarçados para atear fogo em diferentes pontos da cidade, insatisfeito com a arquitetura antiga de Roma. Dião Cássio, historiador que escreveu no século III d.C., mais de 150 anos após o evento, foi quem introduziu a imagem de Nero cantando e tocando lira durante o incêndio, cena posteriormente popularizada pelo romance “Quo Vadis”, de Henryk Sienkiewicz, publicado em 1896, e por adaptações cinematográficas do século XX. Historiadores contemporâneos, como Massimo Fini, autor de “Nero, o Imperador Maldito”, defendem que boa parte da reputação de tirano incendiário atribuída a Nero resulta de relatos escritos por autores hostis à dinastia júlio-claudiana e por cristãos que buscavam reforçar a narrativa de perseguição sofrida por sua comunidade.

Como Nero viveu e morreu: excessos, perseguições e o fim de um império

Depois do incêndio de 64 d.C., o governo de Nero tornou-se cada vez mais marcado por execuções de opositores reais ou supostos, incluindo a conspiração de Pisão, descoberta em 65 d.C., que resultou na morte forçada de Sêneca e de outras figuras próximas ao imperador. Nero também se dedicava a apresentações públicas como cantor e ator, comportamento considerado impróprio para um imperador segundo os costumes da elite romana, e promoveu jogos e competições artísticas na Grécia durante uma viagem realizada em 66 e 67 d.C. Esses excessos, somados ao esvaziamento dos cofres públicos e a revoltas provinciais crescentes, corroeram o apoio militar e senatorial que sustentava seu governo.

Em março de 68 d.C., o governador da Gália Lugdunense, Caio Júlio Víndex, iniciou uma revolta contra Nero, seguida pela adesão do governador da Hispânia, Sérvio Sulpício Galba, que viria a ser proclamado imperador pelo Senado romano. Diante da perda de apoio da guarda pretoriana e da declaração do Senado que o considerou inimigo público, Nero fugiu de Roma para uma propriedade rural pertencente ao liberto Faonte, nos arredores da cidade. Segundo o relato de Suetônio, Nero tirou a própria vida em 9 de junho de 68 d.C., com a ajuda do secretário Epafrodito, pronunciando a frase “Qualis artifex pereo”, que pode ser traduzida como “que artista morre em mim”.

A morte de Nero encerrou a dinastia júlio-claudiana, iniciada por Augusto em 27 a.C., e deu início a um período de instabilidade conhecido como o Ano dos Quatro Imperadores, em 69 d.C., quando Galba, Oto, Vitélio e Vespasiano disputaram sucessivamente o trono romano. Uma curiosidade histórica pouco conhecida sobre Nero é que, mesmo após sua morte, surgiram ao menos três impostores no Oriente do império que alegavam ser o antigo imperador ainda vivo, fenômeno registrado por Tácito e por Suetônio e conhecido pelos historiadores como os “falsos Nerons”, reflexo de como sua figura permaneceu politicamente relevante mesmo depois de seu suicídio em 68 d.C.

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