Aracy Balabanian: a trajetória da eterna Cassandra

Atriz brasileira de origem armênia marcou a televisão como Dona Armênia, Filomena Ferreto e a inesquecível Cassandra, de Sai de Baixo

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Aracy Balabanian morreu no Rio de Janeiro em 7 de agosto de 2023, aos 83 anos, vítima de um câncer no pulmão diagnosticado no fim de 2022. A atriz brasileira, filha de imigrantes armênios, construiu uma carreira de mais de cinco décadas na televisão, no teatro e no cinema. Ficou conhecida por papéis marcantes como Dona Armênia, em “Rainha da Sucata”, Filomena Ferreto, em “A Próxima Vítima”, e Cassandra, no humorístico “Sai de Baixo”. Nesta data, o Brasil relembra o aniversário de morte de Aracy Balabanian e a extensão de sua contribuição à teledramaturgia nacional.

Aracy Estér Balabanian nasceu em 22 de fevereiro de 1940, em Campo Grande, então parte do estado de Mato Grosso, atual Mato Grosso do Sul. Seus pais, Raphael e Esther Balabanian, eram armênios que emigraram do Império Otomano para o Brasil no início do século XX, fugindo da perseguição promovida pelo governo turco-otomano contra a população armênia. A atriz teve sete irmãos e cresceu em uma família marcada pela experiência do deslocamento forçado. Essa origem armênia acompanhou sua trajetória pessoal e, décadas depois, inspirou um de seus papéis mais populares na televisão.

Aos quinze anos, Aracy Balabanian mudou-se com a família para São Paulo, onde ajudou a criar os irmãos mais novos. Foi aprovada nos vestibulares de Ciências Sociais e da Escola de Arte Dramática da Universidade de São Paulo, mas optou por abandonar os estudos de Sociologia para se dedicar ao teatro. A decisão contrariou o pai, que via a profissão de atriz com desconfiança em uma época em que o teatro era considerado inadequado para mulheres. Essa resistência familiar só seria superada anos depois, com a repercussão de seu trabalho na televisão.

Origem armênia e o início de Aracy Balabanian na televisão

A estreia de Aracy Balabanian na televisão ocorreu em 1965, na peça “Antígona”, de Sófocles, montada pela TV Tupi. Formada pela Escola de Arte Dramática da USP, ela já havia se destacado nos palcos paulistanos ligados ao Teatro Brasileiro de Comédia (TBC), no fim dos anos 1950. A passagem pela televisão ampliou sua visibilidade e abriu caminho para papéis em novelas ao longo da década seguinte. O trabalho na Tupi funcionou como ponte entre a formação teatral e a carreira consolidada na TV.

O reconhecimento definitivo do pai à carreira da atriz veio em 1968, quando ela contracenou com Sérgio Cardoso na novela “Antônio Maria”. A partir desse trabalho, Aracy Balabanian passou a integrar produções de maior visibilidade na televisão brasileira. Em 1972, estreou na TV Globo, emissora na qual construiu a maior parte de sua carreira, participando de atrações como “Vila Sésamo” e “O Primeiro Amor”. Nas décadas seguintes, alternou papéis de destaque em diferentes gêneros, do drama à comédia.

A consagração como Dona Armênia

Em 1980, Aracy Balabanian viveu a personagem Maria Faz-Favor na novela “Coração Alado”, um dos papéis que consolidaram sua presença regular nas novelas da TV Globo durante os anos 1980. Na década seguinte, participou de tramas como “Elas por Elas” (1982), “Guerra dos Sexos” (1983) e “Ti Ti Ti” (1985). Esses trabalhos prepararam terreno para o papel que a tornaria uma das atrizes mais populares do país no início dos anos 1990. A trajetória consolidada nas novelas antecedeu diretamente sua fase de maior visibilidade na comédia.

Em 1990, Aracy Balabanian interpretou Dona Armênia na novela “Rainha da Sucata”, escrita por Silvio de Abreu, personagem que retomou em “Deus Nos Acuda”, em 1992. A escolha do nome da personagem fazia referência direta à origem armênia da própria atriz, que emprestou traços de sua história pessoal à composição do papel. Dona Armênia tornou-se uma das figuras mais lembradas da teledramaturgia brasileira daquele período. O papel reforçou a associação entre a biografia de Aracy Balabanian e sua ascendência armênia no imaginário do público.

O prêmio por Filomena Ferreto, em “A Próxima Vítima”

Em 1995, Aracy Balabanian viveu Filomena Ferreto na novela “A Próxima Vítima”, também escrita por Silvio de Abreu, uma matriarca italiana rígida à frente de uma família marcada por segredos e assassinatos. Em entrevista ao programa “Persona em Foco”, em 2016, a atriz afirmou que a personagem não falava propriamente italiano, mas reproduzia uma entonação inspirada em imigrantes que conhecera em São Paulo. O papel rendeu a Aracy Balabanian o prêmio Globo de Melhores do Ano, o Troféu Imprensa e o prêmio da Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA) como melhor atriz. Filomena Ferreto é considerada, por críticos de televisão, um dos pontos altos de sua carreira no drama.

Cassandra, o sucesso de “Sai de Baixo” e a parceria com Miguel Falabella

Em 1996, Aracy Balabanian assumiu o papel de Cassandra no humorístico “Sai de Baixo”, criado por Luis Gustavo e Daniel Filho para a TV Globo. O programa era gravado com plateia ao vivo no Teatro Procópio Ferreira, em São Paulo, e reunia, no elenco principal, Miguel Falabella, Marisa Orth, Luis Gustavo e Tom Cavalcante. A trama girava em torno da falência financeira e das confusões domésticas de um clã quatrocentão que perdeu seu poder financeiro.

As primeiras gravações de “Sai de Baixo” apresentaram uma dificuldade prática para Aracy Balabanian, segundo relato da própria atriz em entrevistas posteriores. As improvisações constantes de Miguel Falabella e Tom Cavalcante faziam com que ela perdesse o controle do riso durante as cenas, o que comprometia a continuidade das gravações diante da plateia. Em determinado momento, ela chegou a pedir ao diretor Daniel Filho para deixar o elenco, alegando que não conseguia corresponder ao ritmo cômico dos colegas. A situação exigiu um ajuste na forma como a personagem reagia dentro das cenas.

A solução veio do próprio Daniel Filho, que orientou Aracy Balabanian a rir livremente das piadas dos colegas, em vez de tentar conter a reação. Essa mudança transformou o riso de Cassandra em um elemento cômico do programa, e a atriz passou a “fechar a piada”, na expressão usada por Miguel Falabella para descrever o efeito de sua reação nas cenas. A parceria entre Cassandra e Caco Antibes tornou-se um dos eixos centrais do humor de “Sai de Baixo” ao longo de suas temporadas na Globo. O ajuste inicial, motivado por uma dificuldade real de gravação, acabou por definir uma das marcas mais reconhecíveis da personagem.

“Sai de Baixo” permaneceu no ar entre 1996 e 2002, retornando em quatro episódios especiais produzidos pelo canal Viva em 2013. Em 2019, Aracy Balabanian reprisou Cassandra no longa-metragem “Sai de Baixo: O Filme”, ao lado de grande parte do elenco original, em uma trama ambientada anos após o fim da série original. A personagem acompanhou a atriz por mais de duas décadas e se tornou um dos papéis mais associados a seu nome, ao lado de Dona Armênia e Filomena Ferreto. O ciclo de “Sai de Baixo” se manteve como referência de comédia na televisão brasileira, mesmo após o fim das gravações regulares.

Morte e legado de Aracy Balabanian

Aracy Balabanian morreu em 7 de agosto de 2023, no Rio de Janeiro, aos 83 anos, na Clínica São Vicente, no bairro da Gávea. A causa foi um câncer no pulmão diagnosticado no fim de 2022, cerca de dez meses antes de sua morte. A atriz nunca se casou nem teve filhos, dedicando a maior parte da vida ao trabalho nos palcos e nas telas. A notícia de sua morte gerou manifestações de colegas de profissão e emissoras, que destacaram sua contribuição de mais de seis décadas à teledramaturgia brasileira.

Um dado pouco citado sobre a carreira de Aracy Balabanian diz respeito à construção de Filomena Ferreto, seu papel mais premiado: a atriz afirmou que a personagem não falava italiano de fato, mas reproduzia uma cadência de fala observada em imigrantes italianos que conheceu durante a juventude em São Paulo. Essa escolha, baseada em observação direta e não em pesquisa linguística formal, ilustra o método pelo qual Aracy Balabanian construía composições marcantes a partir de memórias pessoais. O mesmo processo de apropriação da própria biografia aparece na criação de Dona Armênia, inspirada em sua origem armênia. Passados anos da estreia dessas personagens, o método de trabalho de Aracy Balabanian segue como referência para atores que buscam ancorar composições cômicas e dramáticas em experiências vividas.

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