José Ronald Golias, conhecido artisticamente como Ronald Golias, foi um ator e humorista brasileiro nascido em São Carlos, interior de São Paulo, em 4 de maio de 1929. Ele morreu em São Paulo (capital) em 27 de setembro de 2005, aos 76 anos, vítima de uma infecção generalizada, decorrente de um quadro de infecção pulmonar que evoluiu para falência múltipla de órgãos. Considerado um dos pioneiros da televisão brasileira, Golias atuou por mais de quatro décadas em emissoras como TV Paulista, TV Record, Globo, Bandeirantes e SBT. Criou personagens marcantes como Pacífico, Bronco e o Professor Bartolomeu, tornando-se uma das figuras centrais da história do humor televisivo no Brasil.
Filho de Arlindo Golias, marceneiro, e de Conceição D’Aparecida Rayol Golias, Ronald nasceu em uma família de baixa renda, descendente de imigrantes portugueses e italianos. A infância em São Carlos foi marcada pelo contato precoce com a interpretação: aos oito anos de idade, ele fez sua estreia como artista amador na Escola Dante Alighieri, instituição de ensino da cidade. Esse primeiro contato com o palco antecedeu em quase duas décadas o início de sua carreira profissional. Golias definia-se como “carlopolitano”, gentílico que preferia ao termo “são-carlense” para se referir a quem nasce em São Carlos.
Em 1940, a família se mudou para a cidade de São Paulo, onde Ronald Golias passou a trabalhar como ajudante de alfaiate e como funileiro para ajudar no sustento doméstico. Nesse período, ele começou a praticar natação no Clube de Regatas Tietê, clube esportivo paulistano, e posteriormente ingressou no grupo Aqualoucos, um dos precursores dos espetáculos de acrobacias aquáticas no Brasil. A experiência com o grupo aproximou Golias do universo da performance diante de público, ainda antes de sua entrada no rádio e na televisão. Esses empregos de juventude moldaram a disciplina que os colegas de profissão viriam a reconhecer nele décadas depois.
Da Rádio Nacional à consagração em A Praça da Alegria
Nos anos 1950, Ronald Golias passou a integrar a equipe de artistas da Rádio Nacional, emissora de rádio sediada no Rio de Janeiro e referência da radiofonia brasileira daquela década. Foi na Rádio Nacional que ele conheceu Manoel de Nóbrega, apresentador e produtor que ficou impressionado com seu talento cômico. Nóbrega o convidou para integrar o elenco de A Praça da Alegria, programa humorístico exibido pela TV Paulista; fontes historiográficas divergem quanto ao ano exato de sua estreia no programa, indicando 1956 ou 1957. Foi nesse humorístico que Golias criou o personagem Pacífico, cuja frase “Ô Cride, fala pra mãe…” se popularizou nacionalmente e ficou associada à sua imagem pública.
O sucesso de Pacífico na televisão chamou a atenção do produtor Herbert Richers, que convenceu Golias a ingressar também no cinema. Seu primeiro filme foi “Um Marido Barra-Limpa”, dirigido originalmente por Luís Sérgio Person em 1957, mas finalizado por outro diretor e lançado somente em 1967. Golias também participou de “Os Três Cangaceiros”, de Victor Lima, contracenando com os comediantes Ankito e Grande Otelo; a data de lançamento desse filme aparece registrada de forma divergente entre 1959 e 1961 conforme a fonte consultada. Conciliar as gravações na televisão com as filmagens no cinema se mostrou uma tarefa difícil para o humorista, que manteve a carreira televisiva como prioridade ao longo dos anos seguintes.
Família Trapo e as oscilações da carreira televisiva
Entre 1967 e 1971, Ronald Golias interpretou o personagem Carlos “Bronco” Dinossauro no humorístico Família Trapo, exibido pela TV Record. O elenco reunia nomes como Jô Soares, que vivia o mordomo Gordon, além de Ricardo Corte-Real, Cidinha Campos, Renata Fronzi e Otello Zeloni. Família Trapo consolidou Golias como um dos comediantes mais populares da televisão brasileira daquele período. O personagem Bronco acompanharia sua carreira em diferentes emissoras nas décadas seguintes.
Em 1979, Golias protagonizou na TV Globo o seriado Superbronco, idealizado pelo executivo José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni; a atração foi cancelada após apenas 29 episódios, sendo considerada um fracasso de audiência. Na década de 1980, ele migrou para a TV Bandeirantes, onde estrelou o humorístico “Bronco”. No fim dessa década, Golias se afastou da televisão por sete anos, período em que se dedicou a cuidar de uma fazenda e a realizar shows avulsos pelo país. O retorno às telas ocorreu em 1987, com um programa semanal na Band que celebrava seus 30 anos de carreira na televisão.
A Praça é Nossa e a consagração definitiva no SBT
Em junho de 1990, Ronald Golias passou a integrar o elenco fixo de A Praça É Nossa, humorístico do SBT apresentado por Carlos Alberto de Nóbrega, permanecendo no programa até o ano de sua morte, em 2005. Na atração, ele reviveu Pacífico e interpretou outros personagens de sucesso, como o Profeta, o já conhecido Bronco e o Professor Bartolomeu Guimarães. A longevidade da participação de Golias em A Praça É Nossa reforçou sua identificação com o público do SBT, formado por diferentes gerações de telespectadores. Carlos Alberto de Nóbrega, parceiro de longa data, relatou publicamente a dedicação de Golias na decoração dos textos e sua conduta profissional discreta nos bastidores.
A Escolinha do Golias e outros programas do SBT
Paralelamente a A Praça É Nossa, Golias estrelou A Escolinha do Golias, humorístico do SBT ambientado em uma sala de aula fictícia, exibido originalmente entre 1990 e 1997. No programa, ele interpretava o aluno Pacífico ao lado de Nair Bello, na personagem Pazza, e de Carlos Alberto de Nóbrega, no papel do professor Cagliostro. Em fevereiro de 1995, o SBT reprisou episódios antigos da atração no horário das 17 horas, concorrendo diretamente com a Escolinha do Professor Raimundo, da TV Globo, e obtendo audiência superior à de outros programas do mesmo horário. Golias também comandou os humorísticos “Meu Cunhado”, ao lado de Moacyr Franco, e “SBT Palace Hotel”, além de ter gravado músicas em discos de 78 rotações e em vinil ao longo da carreira.
A vida pessoal de Ronald Golias permaneceu discreta em comparação à exposição de sua carreira artística. Ele foi casado com Lúcia Golias, com quem teve uma filha, Paula. Em 2003, o humorista voltou a contracenar com a apresentadora Hebe Camargo em um especial do SBT que revivia o quadro “Romeu e Julieta”, esquete que os dois já haviam encenado em 1968, na TV Record, e em 1990. Segundo relatos de colegas de profissão, Golias era um homem tímido fora das câmeras, contrastando com a desenvoltura que demonstrava diante do público.
Em 2004, Ronald Golias foi submetido a uma cirurgia para colocação de um marcapasso cardíaco. O procedimento resultou em complicações de saúde, e o comediante precisou ser internado após apresentar um coágulo no cérebro. O quadro clínico se agravou nos meses seguintes, exigindo cuidados médicos contínuos até o fim de sua vida.
Ronald Golias morreu em 27 de setembro de 2005, em São Paulo, vítima de uma infecção generalizada, aos 76 anos de idade. Sua trajetória de mais de quatro décadas na televisão brasileira, iniciada na Rádio Nacional e consolidada em emissoras como TV Record, TV Globo, Bandeirantes e SBT, garantiu-lhe o reconhecimento como um dos pioneiros do humor televisivo no país. Em 2015, o historiador Luís Carlos Barbano lançou em São Carlos a biografia “Ronald Golias: o gigante do humor”, com depoimentos de familiares e colegas como Carlos Alberto de Nóbrega, reforçando a permanência de sua obra na memória cultural brasileira.
O pai de Golias, Arlindo Golias, era admirador do ator britânico Ronald Colman, astro do cinema das décadas de 1920 e 1930, e decidiu batizar o filho em sua homenagem. O nome de inspiração cinematográfica, escolhido décadas antes de o menino de São Carlos se tornar um dos maiores humoristas da televisão brasileira, acabou associado a um dos rostos mais populares da telinha nacional.
