Machado de Assis e a criação de seus livros

Cartas, prefácios, crônicas e textos críticos revelam um escritor atento à própria técnica, à recepção de suas obras e aos limites do ambiente literário brasileiro

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Machado de Assis construiu sua literatura por meio de um trabalho gradual de leitura, tradução, crítica, jornalismo e revisão. Nascido no Rio de Janeiro em 1839, ele começou a publicar ainda adolescente e passou por diferentes gêneros antes de se afirmar como romancista. Sua formação não ocorreu apenas dentro dos livros: também nasceu da convivência com tipógrafos, jornalistas, escritores, editores e leitores da Corte.

O processo de criação de Machado não pode ser reconstituído como uma sequência completa de rascunhos, planos e depoimentos pessoais. As fontes disponíveis são fragmentárias, mas permitem observar procedimentos importantes: a publicação em periódicos, a retomada de textos para edição em livro, o diálogo com autores estrangeiros e a experimentação de narradores pouco confiáveis. Cartas e prefácios ajudam a compreender suas escolhas, embora também estejam carregados de ironia e jogos literários.

Machado escreveu em um mercado editorial ainda restrito. O próprio autor reconheceu, em carta a José Veríssimo de 1883, que o Brasil não possuía uma quantidade de leitores suficiente para sustentar facilmente revistas especializadas. Por isso, jornais e periódicos eram espaços decisivos de criação e circulação. Contos, romances, poemas e críticas apareciam primeiro em publicações seriadas, nas quais o escritor precisava conciliar ambição artística, ritmo de entrega e condições concretas de produção.

A formação de Machado de Assis como escritor

A carreira começou com a poesia e o jornalismo. Em 1855, Machado publicou o poema “Ela” na Marmota Fluminense, periódico ligado ao editor Francisco de Paula Brito. No ano seguinte, entrou como aprendiz na Tipografia Nacional e, pouco depois, passou a trabalhar como revisor e colaborador de jornais. Esse contato direto com a composição tipográfica e com a imprensa aproximou o jovem escritor das etapas materiais de fabricação de um livro.

A atividade jornalística também ensinou Machado a observar a linguagem pública e os comportamentos sociais. Ele foi crítico teatral, cronista, redator e comentarista de acontecimentos políticos. Em 1868, José de Alencar confiou a Machado a leitura crítica da peça Gonzaga, de Castro Alves, reconhecimento que mostra como o escritor já era visto como leitor qualificado antes de alcançar a maturidade romanesca.

Seus primeiros romances, Ressurreição (1872), A mão e a luva (1874), Helena (1876) e Iaiá Garcia (1878), ainda dialogam com convenções do romantismo. Isso não significa que Machado tenha abandonado de repente uma fase “menor”, como se sua obra pudesse ser dividida em duas partes completamente separadas. A mudança foi progressiva: o interesse pela análise psicológica, pela instabilidade dos pontos de vista e pela crítica das relações sociais já se desenvolvia antes de Memórias póstumas de Brás Cubas.

A imprensa, a revisão e a forma seriada

A publicação em periódicos fazia parte do próprio processo de composição. Memórias póstumas de Brás Cubas apareceu inicialmente em folhetins na Revista Brasileira, a partir de março de 1880, e só depois foi editado em livro, em 1881. No prólogo da terceira edição, Machado informou que havia corrigido o texto em vários lugares e suprimido algumas linhas, deixando claro que a obra continuava aberta à revisão mesmo depois de publicada.

Esse procedimento ajuda a explicar a forma fragmentária do romance. O narrador interrompe capítulos, conversa com o leitor, comenta a própria narrativa e alterna episódios longos com seções muito breves. Em vez de esconder a construção do livro, Machado transforma a construção em parte da experiência do leitor. A técnica não é mero capricho formal: ela permite que a narrativa questione a autoridade de Brás Cubas e exponha a vaidade de suas explicações.

O que Machado de Assis pensava de sua própria literatura?

Machado raramente oferecia uma explicação direta e confessional sobre seus livros. Quando comentava a própria obra, preferia recorrer à ironia, à ficção e à ambiguidade. No prólogo de Memórias póstumas de Brás Cubas, afirmou que havia adotado a “forma livre” de Laurence Sterne e Xavier de Maistre, mas acrescentou que talvez tivesse colocado no livro suas próprias “rabugens de pessimismo”.

A formulação é significativa porque Machado reconhece modelos estrangeiros sem reduzir sua obra a uma imitação. Ele também identifica um tom específico no romance: a combinação entre humor e amargura, entre a “pena da galhofa” e a “tinta da melancolia”. Ao dizer que a obra possuía um vinho diferente, apesar de utilizar formas já conhecidas, o escritor descrevia sua originalidade como transformação de influências, não como ausência delas.

No mesmo livro, Machado escreveu que “a obra em si mesma é tudo”. A frase aparece em um contexto de provocação ao leitor e não deve ser tratada como uma teoria literária completa. Ainda assim, ela expressa uma posição recorrente: o escritor não queria explicar inteiramente o mecanismo de composição, nem oferecer ao público uma chave definitiva para interpretar o romance.

Em 1873, no ensaio “Notícia da atual literatura brasileira: instinto de nacionalidade”, Machado também expôs suas ideias sobre a literatura brasileira. Para ele, uma obra não precisava tratar exclusivamente de paisagens, costumes ou personagens locais para ser nacional. O essencial seria um “sentimento íntimo” que tornasse o escritor ligado ao seu tempo e ao seu país, mesmo quando abordasse assuntos remotos. Essa concepção ajuda a entender por que seus romances tratam de relações brasileiras sem depender de descrições convencionais da chamada cor local.

A avaliação dos amigos e críticos literatos

Os amigos de Machado não formavam um grupo de opinião uniforme. José Veríssimo manteve com ele uma correspondência iniciada em 1883 e prolongada até 1908, composta por 83 cartas conhecidas. As mensagens registram conversas sobre livros, crítica, revistas, dificuldades profissionais e reconhecimento mútuo. Veríssimo publicou avaliações favoráveis de Machado, enquanto o romancista agradecia a “boa vontade e simpatia” do crítico, mostrando que a recepção pública também repercutia na esfera privada.

José de Alencar foi outra figura importante. Em 1868, ao apresentar Machado como crítico capaz de avaliar a peça de Castro Alves, Alencar reconheceu sua competência intelectual. Machado, por sua vez, demonstrou admiração pelo autor de Iracema. O episódio não revela apenas amizade: indica que o jovem escritor buscava participar de uma rede literária na qual a leitura crítica era uma forma de legitimação.

A recepção de Memórias póstumas de Brás Cubas foi marcada pela estranheza. No prólogo da terceira edição, Machado recordou que Capistrano de Abreu perguntara se o livro era realmente um romance. Macedo Soares, em carta, aproximou a obra de Viagens na minha terra, de Almeida Garrett. Ao incorporar essas reações ao próprio livro, Machado reconheceu que sua forma narrativa desafiava as classificações disponíveis.

Críticos como José Veríssimo, Araripe Júnior e Sílvio Romero reconheceram o talento de Machado, mas muitas vezes o trataram como um caso isolado na literatura brasileira. Estudos sobre a recepção indicam que seus contemporâneos perceberam seu humor, sua análise interior e sua proximidade com tradições inglesas, porém nem sempre encontraram uma categoria histórica adequada para situá-lo. A consagração de Machado como autor central da tradição brasileira se consolidou de modo mais amplo a partir da crítica e da literatura do século XX.

A criação de Machado de Assis, portanto, resultou da combinação entre disciplina profissional, cultura letrada, experimentação formal e atenção ao público. Ele escrevia dentro de jornais e editoras com limitações concretas, mas transformava essas condições em matéria estética. Seus comentários sobre os livros não eliminam a ambiguidade: ampliam o jogo entre autor, narrador e leitor. Já as cartas e os testemunhos de seus contemporâneos mostram um escritor integrado à vida intelectual de seu tempo, embora sua obra tenha ultrapassado as classificações usadas para julgá-la.

Antes de se tornar romancista consagrado, Machado também foi tradutor: em 1866, publicou sua versão de Os trabalhadores do mar, de Victor Hugo. Esse trabalho inicial revela que, para Machado de Assis, criar literatura também significava ler profundamente, transportar formas entre línguas e recriá-las para novos leitores.

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