Morre ator Gracindo Jr.: relembre a carreira

O ator e diretor carioca, filho de Paulo Gracindo, somou mais de cinco décadas de carreira na TV brasileira e viveu Antônio Sampaio ao lado de Maitê Proença na novela Dona Beija

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O ator e diretor Gracindo Jr. morreu aos 83 anos na manhã desta quarta-feira (02/09), em sua residência no Rio de Janeiro. A causa foi atribuída a causas naturais, segundo confirmação do filho, Pedro Gracindo. Gracindo Jr. deixou uma carreira de mais de 50 anos dividida entre rádio, teatro, cinema e televisão, com um dos pontos altos ao lado de Maitê Proença na novela Dona Beija, de 1986.

Nascido Epaminondas Xavier Gracindo, no Rio de Janeiro, em 21 de maio de 1943, o ator era filho do também ator Paulo Gracindo (1911-1995), um dos nomes centrais da dramaturgia brasileira no rádio e na televisão. Cursou Psicologia, mas nunca exerceu a profissão, optando por seguir o caminho artístico já trilhado pelo pai. Essa origem familiar marcou boa parte da recepção crítica de sua trajetória nas décadas seguintes.

O velório de Gracindo Jr. foi aberto ao público em 3 de setembro, no Crematório e Cemitério da Penitência, no Rio de Janeiro, com início às 12h10 e cremação prevista para as 14h10. A notícia gerou manifestações de colegas de profissão, entre eles o ator Leonardo Brício. O impacto da morte reforçou o papel de Gracindo Jr. como um dos nomes que ajudaram a consolidar a teledramaturgia brasileira desde a década de 1960.

Os primeiros passos de Gracindo Jr. na Rádio Nacional e no teatro

Em 1959, aos 15 anos, Gracindo Jr. foi aprovado em um teste para a Rádio Nacional, emissora carioca em que o pai já era conhecido como galã de radionovelas. Na Nacional, atuou simultaneamente como ator, redator e disc-jóquei, funções que lhe deram experiência prática em diferentes frentes da comunicação. Essa passagem pelo rádio antecedeu em anos sua entrada na televisão e ajudou a moldar sua dicção e presença em cena.

Dois anos depois, em 1961, Gracindo Jr. estreou nos palcos com a peça “A Escada”, do escritor modernista Oswald de Andrade. A experiência teatral se tornaria uma constante ao longo de sua carreira, mesmo após a consagração televisiva. Essa base cênica é apontada por críticos como um diferencial na construção de seus personagens dramáticos posteriores.

Em dezembro de 1964, Gracindo Jr. foi contratado pela TV Globo, meses antes da estreia oficial da emissora, em abril de 1965, integrando assim seu elenco fundador. Nos primeiros anos da emissora, participou de produções como “Rosinha do Sobrado”, “Padre Tião”, “A Rainha Louca”, “A Próxima Atração”, “Supermanoela” e “Os Ossos do Barão“. Essas novelas fizeram parte do período formativo da teledramaturgia da Globo, quando a linguagem do gênero ainda estava em consolidação no país.

A carreira de Gracindo Jr. na teledramaturgia ao lado do pai, Paulo Gracindo

Em 1976, Gracindo Jr. viveu um dos papéis mais comentados de sua carreira na novela “O Casarão”, escrita por Lauro César Muniz. Na trama, ele interpretou a versão jovem do mesmo personagem vivido, na fase adulta, pelo próprio pai, Paulo Gracindo. Esse recurso narrativo reforçou publicamente a ligação entre as duas gerações de atores da família.

Antes de Dona Beija, Gracindo Jr. já havia contracenado com Maitê Proença na minissérie “Marquesa de Santos”, na qual interpretou Dom Pedro I. Essa parceria anterior explica por que, em 1986, os dois atores foram reunidos como par romântico em uma nova produção de época, desta vez para outra emissora, a Rede Manchete.

A parceria com Maitê Proença em Dona Beija, de 1986

Dona Beija estreou na Rede Manchete em 31 de março de 1986 e foi exibida até 11 de julho daquele ano, em 89 capítulos. A trama foi baseada nos romances “Dona Beija”, de Thomas Othon Leonardos, e “A Vida em Flor de Dona Beija”, de Agripa Vasconcelos, com texto de Wilson Aguiar Filho em colaboração com Carlos Heitor Cony. A direção geral coube a Herval Rossano, com direção de David Grimberg, e o resultado se tornou o primeiro grande sucesso de audiência da dramaturgia da Manchete, então com apenas três anos de existência.

A novela retirou parte da audiência da TV Globo no horário e projetou Maitê Proença nacionalmente, inclusive com a capa da revista Playboy em fevereiro de 1987. Cenas rodadas nas cachoeiras e nas águas termais de Araxá, cidade mineira onde se passa a história, reforçaram o apelo visual da produção. O sucesso comercial consolidou a Manchete como concorrente relevante da Globo no gênero das novelas de época.

Quem foi Antônio Sampaio, o personagem de Gracindo Jr. em Dona Beija

Na trama, Gracindo Jr. interpretou Antônio Sampaio, o grande amor de infância de Beija (Maitê Proença) em Araxá, Minas Gerais, no início do século XIX. Beija é raptada pelo ouvidor Mota, vivido por Carlos Alberto, e levada para servir como sua amante em outra vila. Acreditando ter sido abandonado, Antônio se casa com Aninha (Bia Seidl) por pressão da mãe, Ceci (Maria Fernanda), que sempre alimentou desconfiança contra a jovem raptada. O papel consolidou Gracindo Jr. como protagonista de dramas românticos de época na televisão brasileira.

A relevância cultural da dupla formada por Gracindo Jr. e Maitê Proença se manteve mesmo décadas depois: em 2026, uma nova versão da história, produzida para streaming, trouxe Grazi Massafera como Beja e o ator David Junior no papel de Antônio Sampaio. A recriação da personagem reforça como a trama original de 1986 permanece como referência ao tratar do tema no audiovisual brasileiro.

O enredo de Dona Beija se inspira na trajetória de Ana Jacinta de São José, mulher que viveu em Araxá no início do século XIX e que a tradição associa a um rapto cometido pelo ouvidor português Joaquim Inácio Silveira da Mota. Pesquisas históricas recentes, no entanto, questionam essa identificação: documentos de época indicam que o ouvidor de Paracatu naquele período seria Nuiso Aires Teixeira de Gouveia, não Silveira da Mota, o que mostra como parte da biografia de Dona Beija permanece disputada entre historiadores locais. Uma curiosidade pouco lembrada é que o companheiro de infância da Ana Jacinta histórica se chamava Manoel Fernando Sampaio — sobrenome que a novela emprestou ao personagem vivido por Gracindo Jr., o que aproxima ficção e registro histórico de um jeito raramente notado pelo público.

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