Morre a atriz Laura Cardoso aos 98 anos

Antes de se tornar conhecida nacionalmente, Laura Cardoso já demonstrava interesse pela representação durante a infância no bairro da Bela Vista, em São Paulo

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Foto: Reprodução/Instagram

A atriz Laura Cardoso morreu aos 98 anos, encerrando uma das carreiras mais extensas da dramaturgia brasileira. A informação foi divulgada em seu perfil no Instagram. Nascida em São Paulo em 13 de setembro de 1927, Laura começou profissionalmente no rádio ainda adolescente e chegou à televisão em seus primeiros anos no Brasil. Sua trajetória atravessou diferentes gerações e veículos, com trabalhos em novelas, minisséries, programas de humor, peças teatrais e filmes.

Antes de se tornar conhecida nacionalmente, Laura Cardoso já demonstrava interesse pela representação durante a infância no bairro da Bela Vista, em São Paulo. Aos 15 anos, iniciou profissionalmente a carreira em radionovelas na Rádio Cosmos, em um período no qual o rádio era um dos principais veículos de entretenimento do país. Em 1952, estreou na televisão no programa Tribunal do Coração, da TV Tupi, e passou a participar de novelas e teleteatros.

Laura acompanhou, portanto, diferentes fases da formação da televisão brasileira. Trabalhou na TV Tupi, Excelsior, Record e Cultura antes de chegar à Globo, em 1981, convidada por Daniel Filho. Sua estreia na emissora ocorreu em Brilhante, de Gilberto Braga, como Alda Sampaio, mãe da protagonista Luiza, interpretada por Vera Fischer.

Os grandes personagens de Laura Cardoso na televisão

Na televisão, a versatilidade de Laura Cardoso ficou evidente pela variedade de personagens que interpretou. Em Pão-Pão, Beijo-Beijo (1983), viveu Donana, papel que permaneceu associado à atriz durante décadas. Depois, participou de produções como Livre para Voar, Fera Radical, Rainha da Sucata e Felicidade, alternando personagens familiares, mulheres de personalidade forte e figuras moralmente ambíguas.

Um dos períodos mais marcantes ocorreu na década de 1990, quando Laura participou de sucessos como Mulheres de Areia (1993), A Viagem (1994), Irmãos Coragem (1995) e Explode Coração (1995). Em Mulheres de Areia, interpretou Isaura Araújo, mãe das gêmeas Ruth e Raquel, personagens de Gloria Pires. Em A Viagem, como Guiomar, viveu uma mulher cuja personalidade sofre uma transformação provocada pela influência do espírito de Alexandre.

De matriarcas a vilãs, Laura nunca ficou presa a um tipo

A diversidade de seus papéis continuou nas décadas seguintes. Laura foi Madalena em Esperança, Carmem em Chocolate com Pimenta, Laksmi Ananda em Caminho das Índias e Doroteia no remake de Gabriela. Também interpretou Dona Sinhá em Sol Nascente, personagem apresentada inicialmente como uma avó bondosa, mas revelada como uma mulher ardilosa e calculista.

Em Explode Coração, Laura viveu Soraya, matriarca de uma família de ciganos e mulher ligada a uma antiga paixão. Já em Chocolate com Pimenta, interpretou Carmem, avó de Ana Francisca, uma mulher simples e autêntica. Esses trabalhos mostram como a atriz transitava entre personagens afetuosos, dramáticos e até antagonistas, sem se limitar a um único registro.

A televisão também permitiu que Laura transitasse por formatos diferentes da novela. Ela participou da minissérie Hoje é Dia de Maria (2005), interpretando e narrando a Senhora dos Dois Mundos, e esteve em produções de humor como Sai de Baixo, Os Normais e A Diarista. Sua última novela foi A Dona do Pedaço, em 2019, mas a carreira cinematográfica ainda registraria trabalhos posteriores.

O teatro como espaço de reconhecimento artístico

Embora tenha alcançado enorme popularidade na televisão, Laura Cardoso também construiu uma carreira respeitada no teatro. Entre seus trabalhos estão A Megera Domada, As Criadas, Volpone, A Nonna, Divinas Palavras, A Bela e a Fera, Vem Buscar-me que Ainda Sou Teu e Vereda da Salvação. O palco permitiu que desenvolvesse personagens em um ambiente diferente daquele das gravações televisivas, com a interpretação realizada diante do público.

O reconhecimento veio também na forma de prêmios. Em 1990, Laura recebeu o Prêmio Shell de Melhor Atriz por Vem Buscar-me que Ainda Sou Teu, texto de Carlos Alberto Soffredini e direção de Gabriel Villela. Três anos depois, conquistou novamente o Shell por Vereda da Salvação, em montagem dirigida por Antunes Filho. Os dois prêmios demonstram o reconhecimento de seu trabalho teatral para além da televisão.

No cinema, uma atriz de personagens marcantes

Laura Cardoso também teve presença consistente no cinema brasileiro, com mais de 20 filmes. Sua estreia ocorreu em Imitando o Sol, de Geraldo Vietri, em 1964, e posteriormente participou de obras como Tiradentes, o Mártir da Independência, Quincas Borba, Terra Estrangeira e Copacabana. Em Através da Janela, dirigido por Tata Amaral, interpretou Selma e recebeu o prêmio de Melhor Atriz no Festival de Cinema Brasileiro de Miami em 2000.

O trabalho no cinema continuou rendendo reconhecimento. Por Copacabana, de Carla Camurati, Laura recebeu em 2001 o Grande Prêmio Cinema Brasil, enquanto sua atuação em Através da Janela também foi premiada pela Associação Paulista dos Críticos de Arte e em outros festivais. Sua filmografia inclui ainda O Outro Lado da Rua, Primo Basílio, A Casa da Mãe Joana e Muita Calma Nessa Hora.

A dimensão de sua carreira também foi reconhecida pelo Estado brasileiro. Em 2006, Laura Cardoso recebeu a Ordem do Mérito Cultural, homenagem destinada a personalidades que contribuíram para a cultura do país. Décadas depois, continuou recebendo distinções no cinema, incluindo o Troféu Oscarito do Festival de Gramado, em 2023, e o Troféu Honorário do Prêmio Guarani pelo conjunto da obra, em 2021.

A carreira de Laura Cardoso chama atenção pela duração e pela capacidade de atravessar linguagens e gerações sem se limitar a um único perfil de personagem. Ela interpretou mães, avós, matriarcas, vilãs, mulheres humildes, imigrantes e figuras de forte autoridade, entre muitos outros papéis. Uma curiosidade mostra a extensão dessa longevidade: depois de sua última novela, A Dona do Pedaço, em 2019, Laura ainda apareceu no curta-metragem Dona Rosinha, lançado em 2025, aos 97 anos.

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