Pocahontas existiu de verdade. Ela nasceu por volta de 1596 na região que hoje corresponde à Virgínia, nos Estados Unidos, e morreu em março de 1617, na cidade inglesa de Gravesend. Era filha de Powhatan, também chamado Wahunsenaca, chefe supremo de uma confederação de cerca de trinta povos algonquinos conhecida como Tsenacomoco. A personagem de longa-metragem lançada pela Disney em 1995 se inspira nessa mulher real, mas condensa, romantiza e altera diversos fatos de sua vida para criar uma narrativa de entretenimento.
Seu nome de nascimento era Amonute, e ela também usava o nome pessoal Matoaka dentro de seu próprio povo. “Pocahontas” era um apelido que significava algo próximo de “traquinas” ou “brincalhona”, usado publicamente pelos Powhatan enquanto reservavam o nome verdadeiro por razões culturais e de proteção espiritual. Depois de convertida ao cristianismo, em 1614, ela passou a ser chamada de Rebecca, nome batismal que adotou ao se casar com o colono inglês John Rolfe.
O primeiro contato relevante entre Pocahontas e os colonos ingleses ocorreu a partir de maio de 1607, quando cerca de cem homens fundaram o assentamento de Jamestown, às margens do rio James. A menina, então com aproximadamente onze anos, aparece em relatos da época brincando com crianças do forte e circulando entre os dois grupos como mensageira eventual de seu pai. Esse contato inicial lançou as bases para os episódios mais conhecidos de sua trajetória, registrados sobretudo pela pena do colono e explorador John Smith.
O encontro com John Smith e a lenda do resgate
Em dezembro de 1607, John Smith foi capturado por guerreiros Powhatan durante uma expedição pelo rio Chickahominy. O relato mais famoso sobre Pocahontas afirma que ela salvou a vida de Smith, colocando a própria cabeça sobre a dele no momento em que seria executado. Esse episódio, porém, só aparece na versão de 1616 escrita por Smith em uma carta à rainha Ana da Inglaterra; na narrativa original de 1608, ele não menciona nenhum resgate e sequer relata ter conhecido Pocahontas naquele momento. Historiadoras como Camilla Townsend e Helen Rountree defendem que o episódio descrito por Smith pode corresponder, na verdade, a um ritual de adoção simbólica praticado pelos Powhatan, e não a uma execução real.
Independentemente da veracidade do resgate, documentos da época confirmam que Pocahontas visitava Jamestown com frequência, levando alimentos que ajudaram os colonos a sobreviver aos períodos de fome entre 1607 e 1609. Essa aproximação pessoal com Smith terminou em 1609, quando ele sofreu um acidente com pólvora e retornou à Inglaterra para tratamento. Após sua partida, as relações entre os Powhatan e os ingleses se deterioraram rapidamente, e Pocahontas deixou de aparecer nos registros coloniais por alguns anos.
O cativeiro, o casamento com John Rolfe e a conversão
Em 1613, o capitão inglês Samuel Argall capturou Pocahontas por meio de um estratagema e a manteve refém em Jamestown, com o objetivo de negociar a libertação de prisioneiros ingleses e a devolução de armas retidas por Powhatan. Ela foi posteriormente levada ao povoado de Henricus, próximo à atual cidade de Richmond, onde recebeu instrução em língua inglesa e em doutrina cristã do reverendo Alexander Whitaker. Durante esse período de cativeiro, que durou cerca de um ano, Pocahontas conheceu o fazendeiro de tabaco John Rolfe, pioneiro no cultivo comercial da planta na colônia.
Pocahontas se converteu ao cristianismo, recebeu o nome batismal de Rebecca e casou-se com John Rolfe em 5 de abril de 1614, com a aprovação do governador Thomas Dale e do próprio Powhatan. A união ficou conhecida como “a paz de Pocahontas”, pois encerrou a chamada Primeira Guerra Anglo-Powhatan, iniciada em 1609, e garantiu vários anos de relativa estabilidade entre os dois povos. O casal teve um filho, Thomas Rolfe, nascido em 1615.
Registros da tradição Powhatan e o relato de pelo menos um colonista da época indicam que Pocahontas já havia se casado anteriormente, por volta de 1610, com um homem indígena chamado Kocoum. Segundo o costume Powhatan, esse primeiro casamento teria se dissolvido automaticamente no momento em que ela foi capturada pelos ingleses em 1613. Historiadores tratam essa informação como parte consistente da tradição oral e dos relatos coloniais, ainda que os detalhes sobre Kocoum permaneçam escassos nos documentos primários.
A viagem à Inglaterra e o legado histórico
Em 1616, a Companhia de Virgínia levou Pocahontas, Rolfe e o filho do casal à Inglaterra, com o objetivo declarado de atrair novos investidores para o empreendimento colonial. Apresentada à sociedade londrina como prova do sucesso “civilizador” da colonização, ela foi recebida pelo rei Jaime I e circulou por ambientes aristocráticos vestida à moda da corte inglesa. O sacerdote Uttamatomakkin, cunhado de Powhatan, acompanhou a comitiva como observador enviado pelo próprio chefe para relatar aos Powhatan o que via na Inglaterra.
Durante a estadia, Pocahontas reencontrou John Smith, que ela acreditava estar morto há anos. Foi também na Inglaterra que o gravurista Simon van de Passe produziu, em 1616, o único retrato feito de Pocahontas ainda em vida, encomendado pela Companhia de Virgínia para fins de divulgação. Esse encontro tardio com Smith é citado por historiadores como evidência de que a relação entre os dois nunca teve caráter romântico, contrariando a versão popularizada décadas depois.
O que se sabe sobre sua morte em Gravesend?
Em março de 1617, quando a família se preparava para retornar à Virgínia, Pocahontas adoeceu subitamente durante a viagem pelo rio Tâmisa e precisou desembarcar em Gravesend, cidade a leste de Londres. Ela morreu poucos dias depois, com cerca de vinte ou vinte e um anos, e foi sepultada em 21 de março sob o altar da igreja de St. George, em Gravesend. Fontes inglesas da época atribuem a morte a uma doença pulmonar súbita, possivelmente pneumonia ou tuberculose, enquanto a tradição oral do povo Mattaponi, descendente dos Powhatan, sustenta que ela teria sido envenenada a bordo do navio. Não existe evidência documental que permita resolver essa divergência com segurança, de modo que ambas as versões devem ser entendidas como hipóteses concorrentes, e não como fatos estabelecidos.
O filho do casal, Thomas Rolfe, ficou doente demais para viajar e permaneceu na Inglaterra sob os cuidados de parentes de seu pai, retornando à Virgínia apenas anos depois, já adulto. A igreja original de St. George foi destruída por um incêndio em 1727, e o local exato do túmulo de Pocahontas dentro do terreno da igreja reconstruída é hoje desconhecido. Essa lacuna documental contrasta com o enorme volume de representações artísticas e literárias que a transformaram, já no século XIX, em símbolo romantizado da “princesa indígena” americana, imagem distante da adolescente Powhatan que negociava entre dois povos em conflito.
Uma curiosidade histórica bem documentada envolve justamente o retrato de Simon van de Passe: a gravura de 1616 continua sendo, até hoje, a única imagem de Pocahontas produzida a partir de observação direta, feita em vida, e serviu de modelo para praticamente todas as pinturas e ilustrações posteriores, incluindo os retratos que circulam atualmente em museus como a National Portrait Gallery, em Londres, e o Smithsonian, nos Estados Unidos.
