João Paulo I foi eleito papa em 26 de agosto de 1978, no quarto escrutínio de um conclave iniciado no dia anterior na Capela Sistina, no Vaticano. O eleito foi o cardeal Albino Luciani, então patriarca de Veneza, que aceitou a escolha e tornou-se o primeiro pontífice da história a adotar um nome duplo, em homenagem aos dois antecessores imediatos, João XXIII e Paulo VI. Seu pontificado duraria apenas trinta e três dias, um dos mais curtos já registrados na história da Igreja Católica.
Albino Luciani nasceu em 17 de outubro de 1912, em Forno di Canale, pequena localidade da região do Vêneto, no norte da Itália, filho de uma família de origem humilde. Entrou no seminário menor aos onze anos, foi ordenado sacerdote aos vinte e dois e passou dezessete anos lecionando teologia dogmática, disciplina que trata sistematicamente das verdades de fé da Igreja Católica. Antes de chegar ao papado, acumulou os cargos de bispo de Vittorio Veneto, a partir de 1958, e patriarca de Veneza, a partir de 1969, sendo elevado a cardeal pelo papa Paulo VI em 1973.
O conclave de agosto de 1978 foi convocado após a morte de Paulo VI, ocorrida em 6 de agosto daquele ano na residência papal de Castel Gandolfo, cidade próxima a Roma. Dos cento e catorze cardeais eleitores habilitados a votar, cento e onze compareceram, já que a constituição apostólica Ingravescentem aetatem, promulgada por Paulo VI em 1970, havia excluído do direito de voto os cardeais com oitenta anos ou mais na data de abertura do conclave. Entre os ausentes estava o cardeal norte-americano John Wright, impedido de viajar por motivos de saúde.
O conclave de agosto de 1978 e as votações decisivas
As votações começaram em 25 de agosto de 1978, depois de uma missa celebrada na Basílica de São Pedro pelos próprios cardeais eleitores, pedindo orientação divina para a escolha do novo papa. O decano do colégio cardinalício, Carlo Confalonieri, já com oitenta e cinco anos, não podia votar por causa da idade, mas, segundo reportagem da revista Time, teria sido o primeiro a sugerir o nome de Luciani aos demais cardeais antes do início oficial das votações.
Luciani recebeu apoio decisivo do cardeal brasileiro Aloísio Lorscheider, então presidente do Conselho Episcopal Latino-Americano, enquanto o próprio Luciani, segundo relatos posteriores, teria manifestado preferência pelo nome de Lorscheider. No quarto escrutínio, realizado na tarde de 26 de agosto, o cardeal veneziano obteve os votos necessários para ser eleito. Quando o camerlengo Jean-Marie Villot perguntou se aceitava a eleição, Luciani respondeu, segundo relatos de cardeais presentes: “Deus vos perdoe pelo que fizestes”, antes de aceitar formalmente o encargo.
Ao escolher seu nome papal, Luciani optou por homenagear simultaneamente João XXIII, que o havia nomeado bispo em 1958, e Paulo VI, que o elevara a cardeal em 1973, tornando-se assim o primeiro papa da história a usar um nome duplo. Ele também foi o primeiro pontífice a adotar o numeral ordinal “I” já durante o próprio pontificado, prática que se tornaria referência para seu sucessor, João Paulo II, eleito poucas semanas depois.
Reações à eleição e o anúncio ao mundo
Às 18h24 do horário de Brasília ajustado para Roma, em 26 de agosto de 1978, surgiram os primeiros sinais de fumaça na chaminé da Capela Sistina, mas a coloração ambígua gerou confusão na multidão reunida na Praça de São Pedro por mais de uma hora. A fumaça branca, que deveria indicar eleição concluída, apareceu por poucos segundos antes de escurecer, retornando à cor branca somente depois, resultado de falhas nos produtos químicos usados para colorir a queima das cédulas de votação.
Pouco depois, Albino Luciani apareceu na varanda da Basílica de São Pedro, anunciado ao mundo pelo cardeal protodiácono Pericle Felici como o novo papa João Paulo I. Sua expressão espontânea e o sorriso constante durante os primeiros dias de pontificado lhe renderam rapidamente o apelido popular de “papa sorridente”, contraste notável com a imagem mais formal de seus antecessores imediatos.
Cardeais que participaram do conclave descreveram a eleição de Luciani como resultado de amplo consenso em torno de um perfil pastoral, próximo do povo e afastado das disputas de poder da cúria romana. O cardeal argentino Eduardo Pironio chegou a declarar publicamente que os eleitores haviam testemunhado “um milagre moral”, enquanto o cardeal filipino Jaime Sin relatou ter previsto a Luciani, ainda antes do conclave, que ele se tornaria o próximo papa.
A trajetória inesperada de um cardeal fora da lista de favoritos
Antes do conclave de agosto de 1978, jornalistas especializados em cobertura vaticana normalmente classificavam os cardeais mais cotados ao papado numa lista informal chamada de “papabili”. Luciani, apesar do cargo de patriarca de Veneza, historicamente associado a futuros papas, não figurava entre os nomes mais mencionados pela imprensa internacional, e ele próprio afirmou a repórteres, dias antes da votação, que se considerava “fora de perigo” nas apostas sobre sua eleição.
Essa característica de discrição pessoal seguia o perfil de um religioso que, ao longo de sua carreira eclesiástica, evitou protagonismo público e cultivou reputação de simplicidade, inclusive em relação à administração financeira da diocese que dirigia. Historiadores da Igreja apontam esse traço biográfico como um dos fatores que teriam pesado a favor de sua escolha, num contexto em que os cardeais buscavam um sucessor visto como pastor próximo dos fiéis, e não como administrador distante.
João Paulo I morreu repentinamente em 28 de setembro de 1978, apenas trinta e três dias depois de sua eleição, fato que tornou 1978 conhecido como o “Ano dos Três Papas“, já que a mesma sucessão apostólica contou com Paulo VI, João Paulo I e, semanas depois, João Paulo II. Uma curiosidade histórica pouco lembrada é que Luciani também foi o primeiro papa a dispensar a tradicional cerimônia de coroação com a tiara papal, optando por uma missa de início de pontificado mais simples, decisão que seus sucessores mantiveram permanentemente até os dias atuais.
