Gelásio I (492-496) – 49º Papa

Gelásio I foi eleito papa em 1º de março de 492 e governou a Igreja de Roma até sua morte, em 19 de novembro de 496

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Gelásio I foi eleito papa em 1º de março de 492 e governou a Igreja de Roma até sua morte, em 19 de novembro de 496. De origem africana, provavelmente nascido em território que corresponde à atual Tunísia ou Argélia, é considerado o último pontífice nascido no continente africano por mais de um milênio. Sucedeu Félix III num pontificado curto, mas de grande influência doutrinária.

Antes de assumir o papado, Gelásio já colaborava de perto com Félix III, auxiliando na redação de documentos oficiais e cartas dirigidas ao Oriente cristão. Essa experiência prévia explica a rapidez com que assumiu posições firmes assim que se tornou bispo de Roma, especialmente diante da crise aberta pelo Cisma Acaciano, conflito religioso e político que já dividia Roma e Constantinopla havia oito anos.

Realizações e desafios do papado de Gelásio I

A contribuição mais duradoura de Gelásio I foi a formulação da chamada doutrina das duas espadas, exposta na carta Famuli vestrae pietatis, enviada em 494 ao imperador bizantino Anastácio I. Nesse documento, o papa afirmou que dois poderes governam o mundo, a autoridade sagrada dos sacerdotes e o poder dos reis, sustentando que a autoridade espiritual carrega responsabilidade ainda maior por responder perante Deus pela salvação dos próprios governantes.

Essa formulação tornou-se referência para a relação entre Igreja e Estado ao longo de toda a Idade Média, influenciando debates que só se intensificariam séculos depois, durante disputas como a Questão das Investiduras. Gelásio I também manteve a linha de firmeza herdada de Félix III em relação ao Henotikon, recusando qualquer conciliação com o patriarca Acácio de Constantinopla e prolongando o cisma, que somente terminaria em 518, já sob o papa Hórmisdas.

O combate à Lupercália e a organização da liturgia romana

Um dos episódios mais conhecidos do pontificado de Gelásio I foi o combate à Lupercália, antiga festividade pagã romana celebrada em fevereiro, associada a rituais de purificação e fertilidade. Após resistência de setores da aristocracia romana que ainda praticavam a festa, o papa conseguiu suprimi-la definitivamente em 494, num dos últimos episódios documentados de confronto direto entre autoridade cristã e tradição religiosa pré-cristã na cidade de Roma.

Gelásio I também se dedicou à organização da liturgia latina, sendo tradicionalmente associado à compilação de um sacramentário que orientava orações e ritos da missa romana, embora estudiosos modernos discutam a extensão exata de sua autoria direta sobre esse texto. Escreveu ainda um decreto estabelecendo lista de livros aceitos e rejeitados pela Igreja, documento conhecido como Decreto Gelasiano, referência histórica para debates sobre o cânone bíblico e obras apócrifas.

Gelásio I morreu em Roma em 19 de novembro de 496, encerrando um pontificado de pouco mais de quatro anos marcado por intensa produção escrita, já que mais de cem cartas e tratados atribuídos a ele sobreviveram até hoje. Foi sucedido pelo papa Anastácio II, que herdaria tanto o cisma inacabado com Constantinopla quanto o legado teológico deixado pelo antecessor.

A atuação de Gelásio I consolidou de forma duradoura a primazia romana sobre questões de fé, a ponto de ele ser considerado o primeiro papa chamado de Vigário de Cristo pelos cronistas de sua época. Venerado como santo, com festa litúrgica em 21 de novembro, Gelásio I permanece lembrado como o pontífice que definiu, com clareza inédita para o período, os limites entre poder religioso e poder político no mundo cristão em formação.

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