César Lattes nasceu Cesare Mansueto Giulio Lattes em 11 de julho de 1924, em Curitiba, no Paraná, filho de imigrantes italianos. Formou-se em Física e Matemática pela Universidade de São Paulo (USP) em 1943, período em que foi aluno do físico ítalo-brasileiro Gleb Wataghin, responsável por formar a primeira geração de físicos do país. Lattes tornou-se conhecido mundialmente em 1947, aos 23 anos, ao integrar a equipe que identificou experimentalmente o méson pi, partícula subatômica hoje chamada de píon. Ele faleceu em 8 de março de 2005, em Campinas, São Paulo, aos 80 anos, vítima de uma parada cardiorrespiratória.
A descoberta ocorreu na Universidade de Bristol, no Reino Unido, sob a direção do físico britânico Cecil Powell. Lattes havia sido convidado em 1946 pelo físico italiano Giuseppe Occhialini, com quem já colaborava, para trabalhar no laboratório de Powell com uma bolsa do British Council. A função inicial de Lattes era aperfeiçoar as emulsões nucleares, um tipo de chapa fotográfica sensível usada para registrar a passagem de partículas subatômicas. Foi essa técnica, refinada por ele com a adição de boro à emulsão, que tornou possível captar o rastro do méson pi nos raios cósmicos.
O méson pi era, até então, apenas uma previsão teórica formulada em 1935 pelo físico japonês Hideki Yukawa para explicar a força que mantém prótons e nêutrons unidos no núcleo atômico. Em 1947, a equipe de Bristol expôs chapas fotográficas de emulsão nuclear no Monte Chacaltaya, na Bolívia, a mais de cinco mil metros de altitude, onde a radiação cósmica é mais intensa. A análise dessas chapas revelou o rastro de uma partícula com as características previstas por Yukawa, confirmando pela primeira vez sua existência.
A descoberta do méson pi e o artigo na revista Nature

O resultado da pesquisa foi publicado em 24 de maio de 1947 na revista científica britânica Nature, sob o título “Processes involving charged mesons”. O artigo teve como primeiro autor César Lattes, seguido por Hugh Muirhead, Giuseppe Occhialini e Cecil Powell. Ser o primeiro nome de uma publicação científica indica, segundo a convenção acadêmica da área, que o autor teve papel central na condução experimental do trabalho. A publicação demonstrou que o méson descoberto anteriormente por Carl Anderson e Seth Neddermeyer, em 1936, não correspondia à partícula prevista por Yukawa, e que o verdadeiro méson responsável pela força nuclear era o píon.
Menos de um ano depois, em 1948, Lattes seguiu para a Universidade da Califórnia em Berkeley, nos Estados Unidos, onde trabalhou com o físico norte-americano Eugene Gardner. Usando o sincrocíclotron, então o acelerador de partículas mais potente do mundo, os dois conseguiram produzir mésons pi artificialmente em laboratório, sem depender da radiação cósmica natural. Esse feito confirmou de forma controlada os resultados obtidos em Bristol e ampliou a repercussão internacional do trabalho de Lattes, que chegou a estampar publicações como o New York Times e a revista Life.
Por que Cecil Powell recebeu o Nobel sozinho?
Em 1950, o Prêmio Nobel de Física foi concedido exclusivamente a Cecil Powell, chefe do laboratório de Bristol, “pelo desenvolvimento do método fotográfico de estudo de processos nucleares e pelas descobertas relativas aos mésons feitas com esse método”. Lattes, apesar de ter sido o pesquisador que executou a expedição à Bolívia e o primeiro autor do artigo na Nature, não foi incluído na premiação. Historiadores da ciência, como Antonio Augusto Videira, do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas, discutem diferentes fatores que podem explicar essa ausência, entre eles as regras do Comitê Nobel para reconhecer coordenadores de laboratório e possíveis assimetrias na forma como cientistas de países periféricos eram vistos pela comunidade científica europeia da época. Não há, porém, consenso historiográfico fechado sobre um motivo único, e a questão segue sendo objeto de debate acadêmico.
O próprio Lattes comentou publicamente, em ocasiões posteriores, o episódio da falta de reconhecimento, embora amigos e biógrafos relatem que ele evitava se mostrar afetado em público. A ausência do Nobel não impediu, contudo, que sua contribuição fosse registrada em obras de referência internacionais, como a Biographical Encyclopedia of Science and Technology, organizada por Isaac Asimov, e a Encyclopedia Britannica.
O retorno ao Brasil e a construção da física nacional
Em 1949, Lattes voltou ao Brasil e passou a atuar como professor e pesquisador na Universidade do Brasil, atual Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), além de manter vínculo com a USP. No mesmo ano, foi um dos fundadores do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF), instituição criada no Rio de Janeiro para consolidar a pesquisa em física experimental no país e da qual se tornou o primeiro diretor científico. Lattes também participou da comissão que formulou o anteprojeto de criação do Conselho Nacional de Pesquisas, hoje Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), órgão federal responsável por financiar a ciência brasileira desde 1951.
A partir de 1962, Lattes liderou o programa de Colaboração Brasil-Japão para pesquisa em raios cósmicos, mantendo o laboratório instalado no Monte Chacaltaya. Em 1967, transferiu essa liderança para a recém-criada Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), onde ajudou a estruturar o Instituto de Física Gleb Wataghin, batizado em homenagem a seu antigo professor na USP. Lattes permaneceu na Unicamp até se aposentar, em 1998, depois de trinta anos dedicados à docência e à pesquisa em física de altas energias.
O nome de César Lattes tornou-se ainda mais conhecido do público brasileiro por outro motivo: em sua homenagem, foi criado o Currículo Lattes, sistema mantido pelo CNPq que reúne o histórico acadêmico e profissional de pesquisadores de todo o país. Em 11 de julho de 2024, data em que completaria cem anos, o físico foi homenageado pelo Google com uma ilustração animada em sua página de buscas, iniciativa que reforçou o reconhecimento tardio de sua importância para a ciência mundial.
Uma curiosidade histórica pouco lembrada é que, antes da expedição à Bolívia, Occhialini já havia registrado indícios do méson pi em 1946, durante uma viagem de esqui aos Pirineus franceses, ao expor chapas fotográficas de emulsão nuclear à radiação cósmica das montanhas. Esse experimento, feito quase por acaso, ajudou a validar a técnica que, meses depois, Lattes aplicaria de forma sistemática em Chacaltaya, unindo uma descoberta científica decisiva a um episódio quase informal de montanhismo europeu.
