Como arroz e feijão viraram tradição?

Durante os séculos XVI, XVII e boa parte do XVIII, o prato cotidiano da maioria da população não incluía o arroz

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A combinação de arroz e feijão só se firmou como símbolo da alimentação nacional a partir do final do século XIX, muito depois do início da colonização portuguesa em 1500. Durante os séculos XVI, XVII e boa parte do XVIII, o prato cotidiano da maioria da população não incluía o arroz. O historiador Luís da Câmara Cascudo, autor de “História da Alimentação no Brasil” e principal referência sobre hábitos alimentares no país, registra que, já no século XVII, o par mais comum à mesa de portugueses, indígenas e negros escravizados era o feijão com farinha de mandioca.

Esse tripé alimentar do período colonial — feijão, farinha de mandioca e carne seca — é apontado por especialistas em história da alimentação, como o professor Ricardo Antônio Barbosa, do Senac Campos de Jordão, como a base real da dieta brasileira antes da consolidação do arroz. O feijão (Phaseolus vulgaris) é uma leguminosa de origem centro-americana já conhecida e consumida pelos povos indígenas antes da chegada dos portugueses. A farinha de mandioca, por sua vez, vinha da mandioca (Manihot esculenta), planta nativa do Brasil Central que os cronistas do século XVI já descreviam como alimento essencial dos povos Tupi.

O arroz (Oryza sativa) teve um percurso completamente diferente até chegar ao prato brasileiro. Originário da Ásia, o cereal seguiu uma rota histórica que passou pela Índia, China e Pérsia, alcançou o mundo árabe e chegou à Península Ibérica durante a dominação moura, antes de ser trazido ao Brasil pelos colonizadores portugueses. Os povos indígenas já conheciam uma variedade nativa da planta, mas não a domesticaram nem a incorporaram à dieta. O plantio em maior escala só começou no século XVI, sem que o grão se tornasse, de imediato, parte relevante da alimentação da colônia.

A consolidação tardia do arroz na dieta colonial

A cultura organizada do arroz no Brasil só ganhou estrutura em meados do século XVIII. Em 1766, a Coroa portuguesa autorizou a instalação da primeira descascadora de arroz da colônia, no Rio de Janeiro, marco que impulsionou o beneficiamento e a distribuição do cereal em maior escala. Até então, o arroz não era alimento de escravizados nem mantimento de viajantes, papel que cabia à farinha seca e ao milho cozido, mais fáceis de produzir e transportar. O cultivo em áreas alagadas exigia mais cuidado técnico, o que atrasou sua popularização.

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