Soja: uma jornada milenar de nutrição

A soja, um grão ancestral com raízes profundas na Ásia, transformou-se em uma das commodities agrícolas mais importantes do mundo

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Imagem gerada por IA | Pixabay

A soja (Glycine max) é originária do norte e do centro da China, domesticada por comunidades agrícolas a partir da espécie silvestre Glycine soja entre 3.500 e 5.000 anos atrás. O vale do rio Amarelo foi o centro desse processo de domesticação, região que também abrigou algumas das primeiras civilizações agrícolas chinesas. Rica em proteína e óleo, a soja se tornou alimento essencial na dieta chinesa antiga, ao lado do arroz, do trigo, do milho-painço e da cevada, conjunto que a tradição chinesa chamava de “cinco grãos sagrados”. A dinastia Zhou (séculos XI a III a.C.) já registrava, em textos agrícolas, o cultivo sistemático da soja como base alimentar da população.

A expansão da soja para fora da China ocorreu por rotas comerciais que a levaram ao Japão, à Coreia e ao Sudeste Asiático antes da era cristã, difundida por comerciantes e monges budistas. Molho de soja e tofu, preparos derivados da leguminosa, se consolidaram na culinária do leste asiático entre os séculos VIII e XII. O Ocidente só passou a documentar a planta cientificamente no século XVIII, quando o naturalista sueco Carl Linnaeus, criador do sistema moderno de classificação das espécies, a incluiu em coleções científicas europeias.

O cultivo de soja nas Américas começou em 1765, na colônia da Geórgia, Estados Unidos, com sementes trazidas pelo marinheiro Samuel Bowen. Por quase um século e meio, a função da soja americana foi servir como forragem para animais, sem relevância comercial própria. Somente no século XX transformações agrícolas e industriais elevaram a soja à categoria de commodity global.

Quais são as principais variedades de soja cultivadas hoje?

As variedades de soja se classificam por ciclo de maturação, teor de óleo, teor de proteína e resistência a pragas, totalizando milhares de cultivares em uso comercial. Grupos de maturidade numerados de 000 a X organizam essas cultivares conforme sua adaptação a diferentes latitudes e durações de dia. Climas temperados favorecem cultivares de ciclo curto, enquanto o Cerrado brasileiro passou a receber soja a partir da década de 1970 graças a variedades de ciclo mais longo desenvolvidas pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), latitude antes considerada inviável para a cultura.

A soja geneticamente modificada entrou no mercado em 1996, quando a empresa Monsanto lançou a variedade Roundup Ready, resistente ao herbicida glifosato. Essa tecnologia já respondia pela maior parte da área plantada de soja em Estados Unidos, Brasil e Argentina nas primeiras décadas do século XXI, segundo dados do Serviço Internacional para Aquisição de Aplicações Agrobiotecnológicas (ISAAA). Mercados específicos, como o de alimentos orgânicos e o de países com restrições regulatórias a transgênicos, mantêm demanda por variedades não geneticamente modificadas.

Como a soja se consolidou como cultura agrícola global?

A demanda por óleo vegetal e farelo proteico para ração animal foi o principal motor da expansão mundial da soja ao longo do século XX. A Segunda Guerra Mundial (1939-1945) acelerou o cultivo nos Estados Unidos, quando a escassez de óleos importados aumentou o interesse pela produção doméstica, crescimento documentado pelo Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA). Esse impulso manteve o país como maior produtor mundial de soja durante boa parte do século XX.

No Brasil, o Rio Grande do Sul recebeu o primeiro cultivo relevante de soja, favorecido por clima semelhante ao das regiões produtoras americanas. A expansão para o Centro-Oeste começou na década de 1970, resultado direto da pesquisa da Embrapa, criada em 1973 para adaptar cultivares à acidez e à baixa fertilidade natural dos solos do Cerrado. Esse avanço tecnológico transformou o Brasil em um dos maiores produtores e exportadores mundiais de soja, posição confirmada por levantamentos da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) nas décadas seguintes.

Por que a maior parte da soja vira ração animal, não alimento humano direto?

O farelo proteico para ração animal é o principal destino da soja colhida no mundo, insumo essencial para a avicultura, a suinocultura e a pecuária intensiva. Esse uso cresceu junto com a industrialização da produção de aves e suínos nos Estados Unidos e na Europa a partir da década de 1950, período que exigiu fontes concentradas de proteína para acelerar o crescimento dos animais. Um dos óleos vegetais mais consumidos no mundo vem do grão de soja, usado na alimentação humana e, mais recentemente, na produção de biodiesel. Essa dupla função, alimentar e industrial, explica por que a soja é negociada como commodity em bolsas internacionais, entre elas a Chicago Board of Trade, referência histórica na formação do preço global do grão.

Uma curiosidade histórica pouco conhecida: apesar de ter chegado aos Estados Unidos em 1765, a soja passou décadas classificada em catálogos agrícolas americanos do século XIX como simples planta forrageira ou curiosidade botânica, sem qualquer indício do papel central que assumiria na economia agrícola mundial a partir do século seguinte.

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