Margaret Rose Windsor nasceu em 21 de agosto de 1930, no Castelo de Glamis, na Escócia, filha do rei George VI e da rainha Elizabeth (mais tarde conhecida como Rainha-Mãe). Ela foi a única irmã de Elizabeth II que assumiu o trono britânico em 1952 e viveu como Princesa Margaret, Condessa de Snowdon, até morrer em 9 de fevereiro de 2002, aos 71 anos. Sua vida ficou marcada por um romance interrompido com o oficial Peter Townsend, pelo casamento tumultuado com o fotógrafo Antony Armstrong-Jones e por uma relação de proximidade e atrito constante com a irmã rainha. Décadas depois, essa trajetória se tornou um dos eixos centrais da série “The Crown”, da Netflix.
A infância de Margaret transcorreu entre o Palácio de Buckingham e o Castelo de Windsor, ao lado da irmã mais velha, com quem manteve vínculo próximo desde cedo. Quando o pai, George VI, assumiu o trono em 1936, após a abdicação do tio Edward VIII, Margaret passou a ocupar a posição de segunda na linha de sucessão. Diferente de Elizabeth, educada para o dever institucional, Margaret cresceu com fama de espontânea, vaidosa e atraída pela vida social, características que o biógrafo Christopher Warwick documentou em obras sobre a princesa.
Essa diferença de temperamento moldou toda a vida adulta de Margaret. Enquanto a irmã incorporava a discrição exigida pela Coroa, Margaret cultivava amizades no mundo das artes, do teatro e da música, o que gerou tensões recorrentes com a corte e com o próprio governo britânico. Essa dualidade entre lealdade fraterna e conflito de valores acompanhou os dois episódios mais divulgados de sua biografia: o romance com Peter Townsend e o casamento com Armstrong-Jones.
O romance com Peter Townsend e a crise de 1955
Margaret conheceu o capitão de aviação Peter Townsend em 1947, durante uma viagem oficial da família real à África do Sul, quando ele servia como equerry (assistente pessoal) do rei George VI. Townsend era um piloto condecorado da Batalha da Inglaterra, quinze anos mais velho que a princesa, e já era casado na época do primeiro encontro. Ele se divorciou de sua esposa em 1952 por adultério dela, e pouco depois revelou seus sentimentos por Margaret, então com vinte e dois anos.
Townsend pediu Margaret em casamento em 1953, mas o pedido esbarrou em obstáculos institucionais sérios. A Igreja Anglicana, da qual a monarquia britânica é chefe formal, não permitia o casamento religioso de divorciados, e a Lei dos Casamentos Reais de 1772 exigia que Margaret obtivesse autorização da irmã, a rainha Elizabeth II, para se casar antes dos vinte e cinco anos. Sob orientação do primeiro-ministro Winston Churchill, o Palácio afastou Townsend do país, enviando-o a um posto diplomático em Bruxelas em julho de 1953.
O afastamento não encerrou o relacionamento, que continuou por correspondência até o retorno de Townsend ao Reino Unido, em 1954. A pressão pública e institucional, porém, se intensificou, e em 31 de outubro de 1955 Margaret divulgou um comunicado oficial renunciando ao casamento. No texto, ela declarou que, consciente de seu dever para com a Comunidade Britânica de Nações, decidira colocar essa responsabilidade acima de qualquer consideração pessoal. Townsend se casou em 1959 com a belga Marie-Luce Jamagne; documentos liberados pelos Arquivos Nacionais britânicos a partir de 2004 mostram que havia, na verdade, uma proposta que permitiria o casamento mediante a renúncia de Margaret a seus direitos de sucessão, o que indica que a decisão final também envolveu fatores pessoais, além da pressão institucional.
O casamento de Margaret com Antony Armstrong-Jones
Em 1960, cinco anos após o rompimento com Townsend, Margaret ficou noiva do fotógrafo Antony Armstrong-Jones, contratado justamente para retratar a família real em sessões oficiais. O casamento ocorreu em 6 de maio de 1960, na Abadia de Westminster, e foi a primeira cerimônia real transmitida pela televisão britânica, acompanhada por milhões de espectadores. Pouco depois, em 1961, Elizabeth II concedeu ao marido o título de Conde de Snowdon, o que tornou Margaret formalmente Princesa Margaret, Condessa de Snowdon.
O casal teve dois filhos, David, hoje Visconde Linley, nascido em 1961, e Lady Sarah Chatto, nascida em 1964. Nos primeiros anos, o casamento projetou uma imagem de modernidade para a monarquia, associando a família real ao ambiente artístico e fotográfico frequentado por Armstrong-Jones. Com o tempo, no entanto, as diferenças de temperamento e uma série de infidelidades de ambos os lados desgastaram a relação, tornando-a pública, alvo frequente da imprensa britânica a partir do início da década de 1970.
A separação, o divórcio de 1978 e o relacionamento com Roddy Llewellyn
A partir de 1973, Margaret manteve um relacionamento com Roddy Llewellyn, paisagista dezessete anos mais jovem que ela, conhecido durante estadas na ilha caribenha de Mustique, onde a princesa possuía uma residência particular. A exposição pública desse relacionamento aprofundou a crise do casamento com Armstrong-Jones, que também vivia relações extraconjugais documentadas por biógrafos como Anne de Courcy. O casal se separou formalmente em 1976 e divorciou-se em 1978, tornando-se o primeiro divórcio de um membro sênior da família real britânica desde o de Henrique VIII e Ana de Cleves, no século XVI.
A relação com Elizabeth II e o retrato de The Crown
A ligação entre as duas irmãs combinou lealdade profunda e atritos recorrentes. Como chefe da Igreja Anglicana e da Coroa, Elizabeth II negou formalmente a permissão para o casamento com Townsend em 1955, decisão que Margaret, segundo relatos de pessoas próximas citados pelo historiador Ben Pimlott em sua biografia da rainha, ressentiu por anos. Ainda assim, as irmãs mantiveram contato constante, viagens em conjunto e apoio mútuo em momentos de crise familiar, características que biógrafos como Pimlott descrevem como uma combinação de cumplicidade e rivalidade ao longo de décadas.
A série “The Crown”, criada por Peter Morgan e exibida pela Netflix entre 2016 e 2023, dedicou grande parte de suas seis temporadas a essa dinâmica entre as irmãs. A personagem foi interpretada por três atrizes: Vanessa Kirby nas duas primeiras temporadas, Helena Bonham Carter na terceira e na quarta, e Lesley Manville na quinta e na sexta. A produção reconstitui com razoável fidelidade eventos como o rompimento com Townsend e o casamento com Armstrong-Jones, mas os próprios roteiristas admitem publicamente que diálogos internos, motivações psicológicas e determinadas cenas de intimidade são recriações dramáticas, não registros históricos comprovados.
Historiadores como Hugo Vickers, autor de estudos sobre a família real britânica, apontam que a série amplia certos conflitos entre as irmãs para fins narrativos, ainda que a tensão de fundo entre dever institucional e desejo pessoal tenha respaldo documental sólido. Margaret morreu em 9 de fevereiro de 2002, após uma sequência de derrames sofridos nos anos anteriores, poucas semanas antes do falecimento da própria Rainha-Mãe, em março do mesmo ano. Um detalhe pouco lembrado de sua biografia é que Margaret foi cremada, tornando-se a primeira integrante sênior da família real britânica a receber esse tipo de cerimônia fúnebre desde a Princesa Louise, Duquesa de Argyll, filha da rainha Vitória, falecida em 1939.
