Um novo teste radiológico aplicado ao Sudário de Turim, o lençol de linho venerado por parte dos cristãos como a mortalha de Jesus Cristo, sugere que o tecido tem cerca de 2 mil anos, e não os sete séculos apontados pela datação por radiocarbono de 1988. O estudo foi conduzido por Liberato De Caro, pesquisador do Instituto de Cristalografia do Conselho Nacional de Pesquisas da Itália, em Bari, usando uma técnica de raios X chamada WAXS (dispersão de raios X de grande ângulo). A pesquisa foi publicada originalmente na revista científica “Heritage” e ganhou repercussão internacional a partir de reportagens do National Catholic Register e de veículos científicos europeus. O resultado reacendeu a discussão sobre a origem do Sudário, mas não encerra a controvérsia entre historiadores e cientistas.
O Sudário de Turim é uma peça retangular de linho, com aproximadamente 4,4 metros de comprimento por 1,1 metro de largura, que apresenta as imagens frontal e dorsal de um homem com marcas compatíveis com flagelação e crucificação. A relíquia está guardada na Catedral de Turim, no norte da Itália, desde 1578, e pertence à Santa Sé desde 1983, quando foi doada pelo ex-rei Umberto II de Saboia. O primeiro registro histórico documentado do tecido data de 1354, quando ele passou a ser exibido em uma igreja da cidade francesa de Lirey, sob a guarda do cavaleiro Geoffroi de Charny. Em 1389, o bispo de Troyes, Pierre d’Arcis, denunciou o Sudário como uma pintura fraudulenta em carta ao papa, acusação nunca comprovada por evidência material.
Em 1988, três laboratórios independentes, ligados às universidades de Oxford, Zurique e Arizona, realizaram a datação por radiocarbono de uma pequena amostra retirada de um canto do tecido. O resultado situou a fabricação do linho entre 1260 e 1390 d.C., o que reforçou, para parte da comunidade científica, a hipótese de que o Sudário seria uma peça produzida na Idade Média. Desde então, especialistas contrários a essa conclusão argumentam que a amostra testada poderia conter fios de um remendo medieval feito após um incêndio, ou ter sofrido contaminação por fungos, bactérias e manuseio ao longo dos séculos, o que teria alterado a proporção de carbono-14 na fibra.
O que revelou o novo teste de raios X
A técnica WAXS mede o grau de degradação natural da celulose presente nas fibras de linho e converte esse desgaste em uma estimativa de tempo decorrido desde a fabricação do tecido. Diferentemente da datação por radiocarbono, que exige a destruição parcial da amostra, o método por raios X preserva o material analisado, o que permite repetir os testes sem consumir a relíquia. Os pesquisadores aplicaram a técnica a oito pequenas amostras retiradas do Sudário e compararam os resultados com fragmentos de linho de datação já conhecida, incluindo tecidos de Masada, em Israel, do primeiro século, e panos medievais dos séculos XIII e XIV.
Segundo o estudo, o padrão de degradação da celulose do Sudário corresponde ao de um tecido conservado por cerca de 13 séculos em condições estáveis de temperatura próxima a 22,5°C e umidade relativa de aproximadamente 55%, antes de sua chegada à Europa. Essa combinação de fatores, segundo os autores, é compatível com uma origem no Oriente Médio no primeiro século da era cristã, e não com a datação medieval indicada pelo teste de 1988. De Caro afirmou, em entrevista ao National Catholic Register, que o resultado da datação por radiocarbono só seria válido se o Sudário tivesse sido conservado por séculos em temperaturas ambientais próximas das mais altas já registradas na Terra, cenário considerado improvável pelos autores do novo estudo.
A principal vantagem do WAXS está na possibilidade de ampliar as amostras testadas em investigações futuras, já que o método não destrói o material analisado. Ainda assim, o próprio De Caro reconhece que o teste foi aplicado a uma única amostra do Sudário, o que limita, por ora, a força estatística da conclusão e exige novos experimentos para consolidar o método como alternativa à datação por radiocarbono.
Por que o teste reabre o debate sobre a idade do sudário?
O contraste entre os dois resultados mantém aberta uma disputa que já dura décadas na sindonologia, campo de estudo dedicado à investigação científica do Sudário de Turim. De um lado, cientistas favoráveis à datação medieval reafirmam a solidez de três laboratórios independentes que chegaram a resultados próximos em 1988. Do outro, pesquisadores como De Caro e o professor Giulio Fanti, da Universidade de Pádua, defendem que a amostra testada não representava a totalidade do tecido e pode ter sido afetada por reparos históricos.
Um dos pontos centrais dessa crítica envolve o incêndio ocorrido na capela de Chambéry, na França, em 1532, quando o Sudário chegou a ser parcialmente queimado antes de ser resgatado. Documentos históricos registram que freiras clarissas realizaram reparos no tecido pouco depois do incidente, costurando remendos na borda da peça. Para os defensores da datação mais antiga, a amostra usada em 1988 foi retirada justamente de uma região próxima a essas emendas, o que poderia ter misturado fibras de diferentes períodos e distorcido o resultado do radiocarbono.
As objeções ao método WAXS entre especialistas
Nem todos os cientistas aceitam sem ressalvas os resultados da equipe de Bari. A principal crítica recai sobre a premissa central do método: para calcular a idade do tecido, os pesquisadores precisam estimar temperatura e umidade às quais o linho foi exposto ao longo de séculos, dado que não pode ser verificado diretamente e depende de hipóteses sobre a rota histórica do Sudário entre o Oriente Médio e a Europa. O jornalista científico brasileiro Carlos Orsi, em análise publicada pela Gazeta do Povo, observa que o próprio De Caro reconhece a necessidade de mais testes antes que o WAXS seja considerado equivalente, em confiabilidade, à datação por radiocarbono. Até o momento, nenhum laboratório externo replicou o experimento em novas amostras.
O debate mais amplo sobre a autenticidade do sudário
A controvérsia sobre a datação se soma a outras linhas de pesquisa sobre o Sudário. Em 1978, a equipe internacional do Shroud of Turin Research Project (STURP) analisou o tecido diretamente em Turim e concluiu que a imagem não foi produzida por pigmentos ou tintas conhecidos, o que alimentou hipóteses sobre um processo de formação ainda não replicado em laboratório. Já em 2026, o pesquisador brasileiro Cicero Moraes publicou uma simulação digital sugerindo que a proporcionalidade da imagem seria mais compatível com uma matriz esculpida em baixo-relevo do que com o contato direto sobre um corpo tridimensional, hipótese contestada por sindonólogos como Tristan Casabianca e Emanuela Marinelli.
A Igreja Católica, historicamente, evita se posicionar sobre a autenticidade do Sudário como relíquia física de Jesus Cristo, tratando-o oficialmente como um ícone de devoção. Em 2013, o papa Francisco descreveu o tecido como “o ícone de um homem flagelado e crucificado”, formulação que reconhece seu valor espiritual sem confirmar sua origem histórica. Essa postura institucional reflete a própria divisão do meio científico: enquanto a datação por radiocarbono de 1988 continua sendo citada como argumento a favor da origem medieval, o teste de raios X conduzido por De Caro reabriu, com base em evidência técnica ainda em fase de validação, a hipótese de que o Sudário remonte à época de Cristo.
Um episódio pouco lembrado dessa história explica por que o tecido se tornou tão estudado. Foi em 28 de maio de 1898, quando o fotógrafo amador italiano Secondo Pia revelou a primeira fotografia do Sudário durante uma exposição pública em Turim, que se descobriu que a imagem borrada, visível a olho nu no linho, funcionava como um negativo fotográfico. Na chapa revelada, surgiu um rosto humano nítido e proporcional, fenômeno que transformou o Sudário de relíquia de devoção regional em um dos artefatos mais investigados da ciência moderna.
