Lázaro, além da Bíblia: saiba quem foi

Além dos quatro capítulos do Evangelho de João, arqueologia, tradições antigas e o rastro de relíquias medievais revelam outra face de Lázaro de Betânia

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Lázaro de Betânia é a figura central de um dos episódios mais discutidos do Novo Testamento: sua ressurreição, narrada apenas no Evangelho de João, capítulo 11, escrito por volta do ano 90 d.C. Fora do texto bíblico, arqueólogos, historiadores da Antiguidade Tardia e tradições cristãs orientais e ocidentais registraram outros dados sobre esse personagem, incluindo o local de seu túmulo em Betânia, próximo a Jerusalém, e relatos posteriores sobre seu destino em Chipre e na Gália. Esses registros não bíblicos ajudam a entender por que Lázaro se tornou um dos santos mais venerados do cristianismo primitivo. Este artigo reúne o que fontes arqueológicas, hagiográficas e historiográficas revelam sobre ele, para além do relato joanino.

Betânia ficava a cerca de três quilômetros a leste de Jerusalém, na encosta do Monte das Oliveiras, no caminho para Jericó. A vila corresponde à atual al-Eizariya, na Cisjordânia, cujo nome árabe significa “o lugar de Lázaro”. Estudiosos associam a origem do topônimo bíblico a “Beth Ananyah”, citada no livro de Neemias 11:32 entre as localidades povoadas pela tribo de Benjamim após o retorno do exílio babilônico, ocorrido no século VI a.C. Segundo o Evangelho de João, a casa da família de Lázaro, Marta e Maria funcionava como ponto de descanso de Jesus em suas idas a Jerusalém.

A historicidade da ressurreição de Lázaro é discutida por pesquisadores do Novo Testamento desde o final do século XIX. Enquanto teólogos como Rudolf Bultmann trataram o episódio como uma composição teológica do autor joanino, sem base direta em um evento histórico específico, outros pesquisadores, como Richard Bauckham, defendem que o relato preserva memória de testemunha ocular. Essa divergência historiográfica atravessa toda a discussão sobre Lázaro e será detalhada a seguir.

A ausência de Lázaro nos evangelhos sinóticos

Marcos, Mateus e Lucas, os três evangelhos sinóticos, não mencionam Lázaro nem sua ressurreição, apesar de relatarem outros episódios de Jesus em Betânia, como a unção em Betânia (Mc 14,3-9) e a visita à casa de Marta e Maria (Lc 10,38-42). Essa omissão é apontada por críticos textuais desde o século XIX como indício de que o episódio pode ter sido desenvolvido pelo autor do Evangelho de João décadas depois dos eventos narrados. Os sinóticos foram redigidos majoritariamente entre os anos 70 e 85 d.C., enquanto o Evangelho de João é datado por grande parte dos especialistas entre 90 e 100 d.C.

Defensores da historicidade do episódio, como o teólogo Leon Morris, argumentam que a ausência nos sinóticos pode ser explicada pela tradição de que o apóstolo Pedro, fonte principal do Evangelho de Marcos, não estava presente na ocasião. Outros pesquisadores apontam que João concentrou-se em episódios ocorridos na Judeia, região pouco explorada pelos sinóticos, que priorizam o ministério de Jesus na Galileia. Nenhuma dessas explicações é aceita de forma unânime pela comunidade acadêmica, e a questão permanece em aberto entre os especialistas em crítica bíblica.

A tumba de Lázaro em Betânia e as escavações arqueológicas

Em al-Eizariya, uma caverna funerária escavada na rocha é venerada como túmulo de Lázaro desde aproximadamente o ano 300 d.C., segundo testemunhos de peregrinos cristãos registrados por São Jerônimo, tradutor da Bíblia para o latim, que viveu na região entre os séculos IV e V. O local recebeu sucessivas construções religiosas: uma basílica bizantina do século IV, destruída por um terremoto, outra igreja erguida entre os séculos V e VI, e uma capela construída pelos cruzados no século XII sobre a mesma câmara rochosa. No século XVI, o Império Otomano construiu uma mesquita sobre o sítio, o que levou à abertura de um acesso alternativo para peregrinos cristãos, ainda em uso.

Escavações franciscanas realizadas entre 1949 e 1953 encontraram os alicerces dessas igrejas anteriores e de um mosteiro do período das Cruzadas, permitindo reconstruir a sequência de construções do local. Sobre essas ruínas, o arquiteto italiano Antonio Barluzzi projetou a igreja atual, inaugurada em 1952 e conhecida por não ter janelas laterais, remetendo à ideia de um monumento sepulcral. Apesar da veneração contínua, arqueólogos que estudaram o sítio consideram baixa a probabilidade de que essa caverna específica corresponda ao túmulo original descrito no Evangelho de João, já que a identificação surgiu apenas séculos após os eventos relatados.

As tradições sobre o destino de Lázaro após a ressurreição

O Novo Testamento não relata o que aconteceu com Lázaro depois de ser ressuscitado, mas tradições cristãs posteriores preencheram essa lacuna de formas diferentes. A tradição oriental, atestada pelo bispo Epifânio de Salamina no século IV, afirma que Lázaro, Marta e Maria se estabeleceram em Chipre após a perseguição relatada em João 12,10-11, e que o apóstolo Barnabé o ordenou bispo de Cítio, cidade próxima à atual Larnaca. Já a tradição ocidental, difundida na Provença francesa a partir do século XI, sustenta que os três irmãos navegaram até a Gália e desembarcaram perto da atual Marselha, onde Lázaro teria se tornado o primeiro bispo da cidade antes de ser martirizado. Historiadores da Igreja classificam essas narrativas como tradições hagiográficas tardias, sem confirmação documental do período apostólico.

As relíquias entre Chipre e Constantinopla

Em Larnaca, no ano de 890, foi encontrado um túmulo de mármore com a inscrição “Lázaro, o morto de quatro dias e amigo de Cristo”, achado que consolidou a tradição cipriota. O imperador bizantino Leão VI, conhecido como “o Sábio”, mandou construir sobre o local a igreja de Ágios Lázaros e ordenou, em 898, a transferência das relíquias para Constantinopla, deixando apenas uma parte em Larnaca. Durante o saque de Constantinopla pelos cruzados da Quarta Cruzada, em 1204, as relíquias foram levadas para a França e depositadas na Sainte-Chapelle de Paris, onde desapareceram durante a Revolução Francesa, no final do século XVIII.

Em 1972, obras de restauração na igreja de Larnaca revelaram, sob o altar, um caixão com ossos que podem corresponder à parte das relíquias jamais enviada a Constantinopla. Pesquisadores locais associam esse achado à hipótese de que os habitantes de Cítio teriam escondido uma porção do corpo antes da transferência ordenada por Leão VI. A devoção a Lázaro consolidou-se no rito bizantino a partir do século X, quando o Sinaxário de Constantinopla fixou o “Sábado de Lázaro”, véspera do Domingo de Ramos, como data litúrgica dedicada a ele, além do dia 17 de outubro, que recorda a transladação de suas relíquias.

Uma tradição litúrgica oriental, sem base no texto bíblico, afirma que Lázaro nunca mais riu após ser trazido de volta à vida, exceto uma única vez, ao ver alguém furtar um vaso de barro, quando teria comentado: “barro roubando barro”. O relato integra o Sinaxário bizantino e mostra como a figura de Lázaro seguiu inspirando narrativas devocionais muito depois do século I. O próprio nome Lázaro é a forma helenizada de Eleazar, termo hebraico que significa “Deus ajudou”, associação que os primeiros cristãos consideravam simbolicamente ligada ao episódio da ressurreição.

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