O nome Petrus Romanus aparece pela primeira vez em 1595, na obra Lignum Vitae, publicada em Veneza pelo monge beneditino Arnold Wion. O texto reúne uma lista de 112 frases curtas em latim, cada uma associada a um futuro papa da Igreja Católica, começando por Celestino II, eleito em 1143. Wion atribuiu essa lista a Malaquias de Armagh, arcebispo irlandês do século XII, afirmando que ele a teria recebido em uma visão durante uma viagem a Roma. A última frase da série descreve um pontífice batizado Petrus Romanus, que conduziria a Igreja em meio a grandes tribulações antes da destruição de Roma e de um julgamento final.
Malaquias nasceu por volta de 1094, na Irlanda, e tornou-se arcebispo de Armagh, sede primacial da Igreja irlandesa. Segundo a tradição hagiográfica, ele visitou Roma em 1139, durante o pontificado de Inocêncio II, e teria registrado ali a sequência de lemas papais. Ele morreu em 1148 e foi canonizado em 1199 pelo papa Clemente III, tornando-se um dos santos mais conhecidos da Irlanda medieval. Nenhum desses fatos biográficos é contestado por historiadores; a controvérsia recai exclusivamente sobre a autoria da lista de papas.
Entre a suposta visão de 1139 e a publicação de 1595 existe um intervalo de mais de 450 anos sem qualquer registro do texto. Bernardo de Claraval, contemporâneo de Malaquias e autor de sua principal biografia, descreve milagres e previsões atribuídos ao arcebispo, mas não menciona a lista de papas. Nenhum cronista, teólogo ou arquivo eclesiástico anterior a 1595 faz referência a ela, o que levou grande parte dos historiadores a datar sua composição do final do século XVI, e não do período medieval.
A publicação da Lignum Vitae e o catálogo de papas
Arnold Wion era um monge beneditino da abadia de Douai, na região hoje pertencente à França, e organizou a Lignum Vitae como um compêndio de biografias e documentos ligados à ordem beneditina. Dentro dessa obra extensa, ele inseriu a lista de lemas papais como um texto anexo, sem apresentar manuscrito original ou fonte anterior que comprovasse sua origem no século XII. A publicação ocorreu em um momento de intensa produção editorial católica, poucos anos após a revisão da Vulgata promovida sob Clemente VIII, o que ajudou a inserir o texto em um ambiente de circulação de documentos religiosos.
Os primeiros 74 lemas da lista, correspondentes aos papas eleitos entre Celestino II, em 1143, e Urbano VII, morto em 1590, foram acompanhados de comentários do historiador dominicano espanhol Alfonso Chacón, associando cada frase a um pontífice específico com razoável precisão simbólica. A partir de Urbano VII, as descrições tornam-se vagas e permitem múltiplas interpretações, sem correspondência clara com nomes, brasões ou origens dos papas seguintes. Esse contraste entre precisão anterior a 1590 e imprecisão posterior é um dos principais argumentos usados por historiadores para sustentar que o texto foi escrito pouco antes de sua publicação, e não quatro séculos antes.
O que diz o lema final sobre Petrus Romanus
O centésimo décimo segundo e último lema da lista descreve um papa que enfrentaria a perseguição final da Igreja Romana, cuidando de seus fiéis em meio a muitas tribulações. Segundo o texto, depois desse período, a cidade das sete colinas, referência direta a Roma, seria destruída, e um juiz temível julgaria seu povo. Diferente dos lemas anteriores, formados por frases curtas de duas ou três palavras em latim, esse trecho final é mais longo e explícito, funcionando como um encerramento apocalíptico para toda a lista. O nome Petrus Romanus não aparece isolado como um simples epíteto: ele está diretamente vinculado a essa cena de julgamento e destruição.
Alguns pesquisadores, como o historiador português Vítor Teixeira, apontam que a expressão Romanus também é usada na tradução latina do Novo Testamento por Paulo de Tarso para reivindicar sua condição de cidadão romano perante um centurião, o que sugere que o epíteto poderia funcionar como referência genérica ao papado romano, e não necessariamente como o nome próprio de um indivíduo específico. Essa leitura permanece minoritária diante da interpretação tradicional, que associa Petrus Romanus a um papa determinado, o último de uma sucessão iniciada com o apóstolo Pedro.
Debate historiográfico sobre a autenticidade
A Igreja Católica nunca adotou posição oficial sobre a lista atribuída a Malaquias, mas diversos teólogos e historiadores eclesiásticos a classificam como apócrifa, sem valor doutrinal. Estudiosos como o beneditino brasileiro Estêvão Bettencourt argumentaram que a ausência de qualquer menção ao texto entre os séculos XII e XVI é incompatível com a importância que ele teria tido caso fosse autêntico. Para esses pesquisadores, a lista pertence ao gênero de textos proféticos forjados retroativamente, comum em disputas políticas e religiosas da Europa moderna.
A hipótese do conclave de 1590 e Girolamo Simoncelli
Uma das explicações mais discutidas para o surgimento do texto liga sua origem ao conclave de setembro de 1590, aberto após a morte do papa Urbano VII. Entre os cardeais favoritos estava Girolamo Simoncelli, ex-bispo de Orvieto, cidade cujo nome latino antigo, Urbs Vetus, remete à expressão “cidade antiga”. Segundo essa hipótese, aliados de Simoncelli teriam divulgado a lista de lemas papais informalmente já em 1590, cinco anos antes da publicação de Wion, apresentando o lema seguinte a Urbano VII como “De antiquitate urbis”, numa associação direta com Orvieto.
O conclave de 1590 durou quase dois meses e terminou com a eleição de Niccolò Sfondrati, que assumiu o papado como Gregório XIV, frustrando a candidatura de Simoncelli. Para os críticos do texto, esse desfecho reforça a leitura de que a lista funcionou como instrumento de propaganda eleitoral malsucedida, e não como profecia genuína. Simoncelli permaneceu ativo no Colégio de Cardeais por mais de uma década após esse episódio, participando de conclaves seguintes sem jamais ser eleito papa.
Uma curiosidade histórica frequentemente citada por comentadores da lista é a coincidência numérica observada entre o lema de número 49 antes de Petrus Romanus e o Anuário Pontifício da Igreja Católica: contando a partir do papa Leão X, eleito em 1513, até Bento XVI, que renunciou em 2013, há exatamente 49 pontífices reconhecidos oficialmente, o mesmo número de lemas que separam “Leo Florentius” de “Petrus Romanus” na Lignum Vitae. Historiadores da Igreja tratam essa correspondência como efeito da contagem retroativa feita por comentadores modernos, e não como evidência de precisão profética, mas o detalhe segue alimentando o interesse popular pelo texto atribuído a Malaquias sempre que um papa morre ou renuncia.