A história dos papas registra episódios em que a morte do pontífice não resultou apenas em luto, mas em crises institucionais profundas na cidade de Roma, na Itália, sede do papado desde os primeiros séculos do cristianismo. Entre os séculos IX e XIV, ao menos quatro momentos se destacam pela gravidade da desordem gerada: o julgamento póstumo do papa Formoso em 897, a morte violenta do papa João XII em 964, o exílio e falecimento do papa Gregório VII em 1085 e a sede vacante de 1268 a 1271, a mais longa da história da Igreja Católica. Esses episódios têm em comum a combinação de vácuo de poder, disputa entre facções romanas e, em vários casos, intervenção militar de forças externas à cidade. O termo “sede vacante” designa justamente o período entre a morte ou renúncia de um papa e a eleição de seu sucessor, intervalo que, em circunstâncias normais, dura poucas semanas.
Nos séculos IX e X, a instabilidade decorreu principalmente do controle exercido por famílias aristocráticas romanas sobre a escolha dos papas, entre elas a família de Teofilato I de Roma, que dominou a política papal entre 904 e 963, período conhecido na historiografia como “saeculum obscurum” ou “século de ferro”. Já no século XI, a crise se originou do confronto entre o papado e o Sacro Império Romano-Germânico durante a chamada Questão das Investiduras, disputa sobre quem detinha autoridade para nomear bispos e abades. No século XIII, o problema passou a ser interno ao Colégio de Cardeais, dividido entre facções pró-francesas e pró-imperiais incapazes de reunir os dois terços de votos exigidos para eleger um novo papa. Cada um desses contextos produziu formas distintas de trauma institucional em Roma, da violência física à paralisia administrativa prolongada.
A gravidade desses episódios levou a Igreja Católica a criar, ao longo do tempo, mecanismos para reduzir o risco de vácuos de poder prolongados, entre eles a constituição “Ubi periculum”, promulgada pelo papa Gregório X em 1274, que estabeleceu as regras do conclave fechado. Antes dessas reformas, a ausência de um procedimento claro de eleição papal deixava Roma vulnerável a interferências de nobres locais, imperadores germânicos e reis franceses, todos interessados em influenciar a escolha do novo pontífice. A seguir, os quatro episódios mais traumáticos de sede vacante registrados na história dos papas, apresentados em ordem cronológica.
A morte de Formoso e o Sínodo do Cadáver
O papa Formoso governou a Igreja entre outubro de 891 e abril de 896, período marcado por disputas em torno da coroação imperial de Lamberto de Espoleto, filho do então imperador Guy III de Espoleto. Formoso morreu em abril de 896, mas a crise em torno de seu pontificado só atingiu o auge em janeiro de 897, quando o papa Estêvão VI ordenou a exumação de seu cadáver para submetê-lo a julgamento formal na Basílica de São João de Latrão, em Roma. O episódio ficou conhecido como Sínodo do Cadáver, ou “Synodus Horrenda” em latim, e envolveu a leitura de acusações diante do corpo em decomposição, vestido com paramentos papais e sentado em um trono. Formoso foi considerado culpado, teve as vestes rasgadas e três dedos da mão direita amputados, e seu corpo foi posteriormente lançado ao rio Tibre.