Margarida I: a rainha que uniu três reinos

Margarida I governou Dinamarca, Noruega e Suécia entre os séculos XIV e XV, ao fundar a União de Kalmar, o pacto que unificou a Escandinávia medieval

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Margarida, rainha da Dinamarca, Noruega e Suécia - Foto: Domínio Público

Margarida I foi uma soberana medieval que governou simultaneamente três reinos escandinavos, Dinamarca, Noruega e Suécia, entre o fim do século XIV e o início do século XV. Nasceu em março de 1353, no Castelo de Vordingborg, na Dinamarca, filha do rei Valdemar IV, conhecido como Valdemar Atterdag, e da rainha Helvig de Schleswig. Governou como regente na Dinamarca a partir de 1376, na Noruega a partir de 1380 e na Suécia a partir de 1389, consolidando seu poder por meio de casamentos dinásticos, alianças militares e negociações diplomáticas. Sua obra mais duradoura foi a União de Kalmar, pacto firmado em 1397 na cidade sueca de Kalmar, que uniu as três coroas sob um único monarca.

Margarida I casou-se em 1363, aos dez anos de idade, com Haakon VI, filho do rei Magnus VII da Noruega e II da Suécia, em um enlace organizado para reforçar laços políticos entre a Dinamarca e os reinos vizinhos. O casal teve um filho, Olaf, nascido em 1370, que se tornaria peça central na ascensão política da mãe. A Dinamarca não mantinha a tradição de permitir que mulheres reinassem diretamente, de modo que Margarida exerceu o poder formal por meio de regências vinculadas ao filho e, depois, a um herdeiro adotivo. Essa particularidade jurídica explica por que Margarida I raramente é chamada de “rainha” em documentos daneses da própria época, sendo tratada como “senhora e regente do reino”.

Em 1375, com a morte de Valdemar IV, o jovem Olaf foi eleito rei da Dinamarca, e Margarida assumiu a regência em seu nome a partir de 1376. Quando Haakon VI morreu, em 1380, Olaf herdou também o trono da Noruega, unindo pela primeira vez as duas coroas sob a regência de Margarida I. Esse período de regência conjunta lançou as bases administrativas e políticas que, anos depois, tornariam viável a unificação dos três reinos escandinavos. A morte prematura de Olaf, em 1387, sem deixar herdeiros diretos, colocaria à prova a continuidade desse projeto político.

A ascensão de Margarida I ao poder após a morte de Olaf

Com a morte de Olaf em 1387, aos dezessete anos, sem descendência, os conselhos do reino dinamarquês e norueguês elegeram Margarida I como “senhora e regente plena” dos dois países, título que na prática lhe conferia poder de governo. A decisão representou uma solução incomum para a sucessão medieval europeia, já que colocava uma mulher à frente do governo direto de dois reinos sem a mediação formal de um rei. Em 1388, nobres suecos insatisfeitos com o rei Alberto de Mecklenburgo, que enfrentava oposição interna e conflitos com a nobreza local, pediram apoio militar a Margarida I contra o monarca sueco. A rainha aceitou o pedido e organizou uma campanha militar que mudaria o equilíbrio de poder na região.

As forças de Margarida I derrotaram o exército de Alberto de Mecklenburgo em fevereiro de 1389, na batalha travada perto de Falköping, no sul da Suécia, resultando na captura do rei sueco. A vitória consolidou o controle de Margarida I sobre a Suécia, embora a cidade de Estocolmo tenha permanecido sob domínio de forças ligadas à Liga Hanseática, aliada de Alberto, por alguns anos ainda. Esse episódio militar demonstrou a capacidade de Margarida I de combinar diplomacia com o exercício direto de poder bélico, um traço reconhecido por historiadores como decisivo para a formação da União de Kalmar. A partir dessa vitória, Margarida I passou a controlar, na prática, os três reinos escandinavos, embora a formalização da união ainda demorasse alguns anos.

A criação da União de Kalmar sob Margarida I

Sem filhos vivos para suceder ao trono, Margarida I adotou como herdeiro seu sobrinho-neto Érico da Pomerânia, neto de sua irmã Ingeborg e descendente das três dinastias que haviam governado Dinamarca, Noruega e Suécia antes dela. Érico foi proclamado rei da Noruega em 1389, ainda quando criança, com Margarida I mantendo a regência efetiva do reino em seu nome. Em 1396, os conselhos dinamarquês e sueco também o reconheceram como rei, repetindo o modelo já aplicado na Noruega nove anos antes. Essa sucessão de reconhecimentos formais preparou o terreno para a reunião que consolidaria formalmente a união dos três reinos.

A coroação de Érico da Pomerânia em Kalmar

Em junho de 1397, Margarida I convocou os conselhos dos três reinos para uma assembleia na cidade sueca de Kalmar, localizada no litoral sudeste da Suécia. No domingo de Trindade, 17 de junho de 1397, Érico da Pomerânia foi solenemente coroado rei de Dinamarca, Noruega e Suécia em uma única cerimônia. Em 20 de julho do mesmo ano, foi redigida em Kalmar uma carta de união, documento que estabeleceu as bases jurídicas do pacto posteriormente chamado de União de Kalmar pelos historiadores. O acordo previa que cada reino manteria suas próprias leis, tradições e administração interna, sob a autoridade comum de um único monarca.

O governo de fato e os últimos anos de Margarida I

Apesar da coroação de Érico em 1397, historiadores como André Nassim de Saboya, em artigo publicado na revista História e Cultura em 2014, apontam que Margarida I permaneceu na condução efetiva da política da União de Kalmar até sua morte, exercendo poder superior ao do próprio rei coroado. Durante esses anos finais, Margarida I concentrou esforços na recuperação de terras e castelos da coroa que haviam sido empenhados a nobres durante reinados anteriores, fortalecendo as finanças reais nos três países. Também manteve negociações constantes com a Liga Hanseática, confederação de cidades comerciais do norte da Alemanha e do Báltico, que disputava influência econômica na região escandinava. Esse controle prático do governo, mesmo após a coroação formal de Érico, é considerado pela historiografia um dos traços mais distintivos do reinado de Margarida I.

Margarida I morreu em 28 de outubro de 1412, a bordo de seu navio ancorado próximo a Flensburgo, cidade então sob domínio dinamarquês, atualmente situada no norte da Alemanha. A causa mais aceita entre os historiadores é uma infecção associada à peste, doença que circulava de forma recorrente pela Europa no início do século XV, embora fontes primárias do período não detalhem com precisão os sintomas finais. Seu corpo foi transportado para sepultamento na Catedral de Roskilde, na Dinamarca, onde permanece até os dias atuais como um dos monumentos funerários mais importantes da monarquia dinamarquesa medieval. A morte de Margarida I encerrou um dos governos mais longos e estáveis da Escandinávia medieval, sem que a União de Kalmar se dissolvesse imediatamente.

Uma curiosidade histórica associada a Margarida I sobrevive até hoje na Catedral de Roskilde: em memória da rainha, um sino especial da catedral tocava duas vezes em determinadas ocasiões litúrgicas, tradição registrada por historiadores dinamarqueses como parte do culto memorial dedicado a ela após sua morte. Esse costume foi interrompido pela Reforma Protestante, em 1536, quando a Dinamarca rompeu com a Igreja Católica e reformulou práticas litúrgicas em suas catedrais. Ainda assim, o hábito de o sino tocar duas vezes nesse contexto específico permaneceu registrado na memória institucional da catedral como referência direta ao legado de Margarida I. O episódio ilustra como a memória da fundadora da União de Kalmar atravessou séculos para além dos registros políticos formais de seu governo.

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