Catarina II assumiu o comando do Império Russo em 1762 e exerceu o poder absoluto até sua morte em 1796. Nascida em 1729 como Sofia Frederica Augusta, uma princesa alemã de Anhalt-Zerbst, ela obteve o trono após depor seu próprio marido. A imperatriz transformou a geografia política da Europa Oriental ao expandir brutalmente as fronteiras russas em direção ao sul e ao oeste. Seu governo de 34 anos representou o período de maior fortalecimento militar e consolidação diplomática do Estado russo no século XVIII.
A trajetória política da futura monarca começou em 1745, quando ocorreu seu casamento com o grão-duque Pedro, herdeiro do trono russo. A princesa converteu-se à Igreja Ortodoxa Russa, abandonou seu nome de batismo e adotou o nome religioso de Ekaterina Alexeevna. Durante seus primeiros anos na corte de São Petersburgo, ela estudou intensamente a língua russa e leu obras de filósofos iluministas franceses. Essa preparação intelectual e cultural garantiu a simpatia da nobreza e do clero, setores fundamentais para sua futura ascensão ao poder.
O cenário político russo sofreu uma mudança drástica em janeiro de 1762, com a morte da imperatriz Isabel Petrovna e a coroação de Pedro III. O novo czar desagradou rapidamente a elite militar ao assinar um tratado de paz desfavorável com a Prússia durante a Guerra dos Sete Anos. Aproveitando a crescente insatisfação, a esposa de Pedro III articulou uma conspiração com oficiais da Guarda Imperial para derrubar o monarca. O golpe de Estado ocorreu em julho de 1762, culminando na prisão e no subsequente assassinato do czar deposto poucos dias depois.
O golpe de 1762 e a chegada de Catarina II ao trono
O movimento militar que garantiu o poder a Catarina II contou com o apoio decisivo dos irmãos Grigori e Alexei Orlov, oficiais influentes em São Petersburgo. Os regimentos de elite Izmailovsky e Semenovsky juraram lealdade ao novo governo em uma cerimônia rápida realizada na capital imperial. A legitimação do golpe exigiu uma intensa campanha de propaganda para justificar a deposição de um monarca ungido pela Igreja Ortodoxa. Documentos oficiais da época apresentaram a derrubada de Pedro III como uma medida de salvação nacional contra um líder considerado incapaz e antirusso.
A coroação oficial ocorreu em setembro de 1762, na Catedral da Dormição em Moscou, consolidando a autoridade da nova líder perante a população e a Igreja. Ela precisou governar sem possuir sangue da dinastia Romanov, baseando sua legitimidade inteiramente no apoio político da aristocracia fundiária e militar. Para manter essa base de sustentação civil, a administração imperial evitou confrontar o sistema de servidão, que mantinha milhões de camponeses presos às terras dos nobres. O controle estrito sobre a classe servil garantiu a estabilidade interna necessária para que o governo focasse recursos materiais na expansão internacional.
As primeiras decisões diplomáticas do novo governo buscaram reverter as concessões feitas pelo czar anterior e restaurar a influência russa na Europa. A chancelaria imperial, liderada pelo diplomata Nikita Panin, desenvolveu o Sistema do Norte, uma rede de alianças desenhada para conter o poder da França e da Áustria. Essa estratégia de política externa exigiu um exército forte e modernizado, capaz de impor as exigências do império aos seus vizinhos ocidentais e meridionais. A reestruturação contínua das Forças Armadas preparou a Rússia para os longos conflitos territoriais que marcariam as três décadas seguintes.
Expansão territorial, estratégia militar e política externa
O Império Russo travou duas grandes guerras contra o Império Otomano, ocorrendo a primeira entre 1768 e 1774, e a segunda entre 1787 e 1792. O Tratado de Küçük Kaynarca, assinado em 1774, representou um marco diplomático ao garantir aos russos o acesso irrestrito ao Mar Negro e a passagem comercial pelo Estreito de Bósforo. Essa vitória militar encerrou séculos de domínio turco exclusivo na região e estabeleceu a Rússia como a nova potência naval no sudeste europeu. O tratado também concedeu ao governo russo o direito de proteger os cristãos ortodoxos que viviam sob o domínio otomano nos Bálcãs.
A anexação militar do Canato da Crimeia em 1783 consolidou o controle geopolítico russo sobre toda a costa norte do Mar Negro. O príncipe Grigori Potemkin, principal conselheiro de Estado da época, administrou os novos territórios conquistados e fundou a Frota do Mar Negro na cidade de Sebastopol. A construção de estaleiros, portos comerciais e fortalezas militares na nova província exigiu um enorme esforço logístico e financeiro do tesouro imperial. A integração estrutural dessa região transformou o equilíbrio de poder da Europa e garantiu rotas marítimas seguras para a futura exportação de grãos.
No front ocidental, a Rússia participou ativamente do processo diplomático e militar que resultou no desaparecimento político da Comunidade Polaco-Lituana. O Estado russo aliou-se à Prússia e à Áustria para realizar três partilhas sucessivas do território polonês, ocorridas nos anos de 1772, 1793 e 1795. Essas anexações transferiram milhões de novos súditos para o domínio imperial, incluindo grandes populações ucranianas, bielorrussas e comunidades judaicas estabelecidas. A fronteira territorial ocidental russa avançou centenas de quilômetros em direção à Europa Central, eliminando um Estado vizinho historicamente rival.
O avanço geográfico também alcançou o continente norte-americano por meio de expedições navais financiadas pela coroa para explorar a região do Estreito de Bering. Comerciantes russos, liderados pelo explorador Grigori Shelikhov, estabeleceram o primeiro assentamento permanente no Alasca em 1784, na ilha Kodiak, motivados pela lucrativa caça de animais marinhos. Essa iniciativa corporativa privada recebeu forte apoio estatal nos anos seguintes e consolidou o controle econômico sobre a área, expandindo a zona de influência da coroa até o Oceano Pacífico. A projeção intercontinental demonstrou concretamente a escala territorial sem precedentes que a administração imperial russa alcançou nas últimas décadas do século XVIII.
Quais foram as reformas administrativas de Catarina II?
A modernização teórica do aparato estatal baseou-se nos ideais filosóficos do Iluminismo europeu, cuidadosamente adaptados à realidade de um império absolutista. Em 1767, a imperatriz convocou uma Comissão Legislativa com o objetivo prático de criar um novo código de leis para substituir a legislação obsoleta promulgada em 1649. Para orientar os trabalhos jurídicos, a monarca redigiu pessoalmente o Nakaz, um documento programático amplamente fundamentado nas obras de Montesquieu e do jurista italiano Cesare Beccaria. Embora a comissão tenha sido dissolvida posteriormente sem concluir o código oficial, o texto orientador estabeleceu princípios jurídicos modernos e condenou o uso da tortura no sistema penal russo.
A promoção estrutural da educação e da cultura erudita figurou entre as principais políticas públicas implementadas durante o reinado de Catarina II. O governo imperial fundou o Instituto Smolny em 1764, estabelecendo a primeira instituição educacional financiada pelo Estado europeu destinada exclusivamente à formação de mulheres. A corte de São Petersburgo manteve correspondência ativa com pensadores proeminentes como Voltaire e Denis Diderot, que visitou a capital russa a convite do governo em 1773. O patrocínio estatal consistente às artes liberais e às ciências exatas inseriu a monarquia russa no prestigiado circuito intelectual das principais cortes da Europa Ocidental.
O legado autoritário de Catarina II
O controle social do Estado enfrentou seu maior desafio interno durante a Rebelião de Pugachev, uma violenta revolta camponesa e cossaca que durou de 1773 a 1775. O levante popular exigiu a mobilização emergencial de tropas do exército regular para esmagar as forças rebeldes que ameaçavam o controle governamental na bacia do rio Volga. Como resposta à instabilidade gerada, o governo promulgou a Carta da Nobreza em 1785, isentando os aristocratas do pagamento de impostos e confirmando seus poderes judiciais absolutos sobre os servos. Essa legislação imperial consolidou o abismo socioeconômico na Rússia, garantindo o apoio incondicional das elites fundiárias em troca da manutenção jurídica do trabalho rural forçado.
Os anos finais da administração de Catarina II foram marcados por um forte conservadorismo político, desencadeado pelo medo das ideias liberais da Revolução Francesa de 1789. O governo censurou publicações estrangeiras independentes, perseguiu intelectuais russos críticos ao regime absolutista e rompeu relações diplomáticas oficiais com a França republicana recém-instaurada. A morte da monarca, ocorrida em 17 de novembro de 1796 devido a um acidente vascular cerebral, transferiu pacificamente o trono imperial para seu filho, o imperador Paulo I. Como curiosidade histórica, Catarina II adquiriu em 1764 uma coleção particular de 225 pinturas do comerciante alemão Johann Ernst Gotzkowsky, fundando as bases originais do que se tornaria o mundialmente famoso Museu Hermitage em São Petersburgo.