Como a Bíblia foi traduzida por São Jerônimo?

A monumental tradução das Escrituras para o latim, encomendada pelo Papa Dâmaso I ao monge Jerônimo de Estridão, deu origem à Vulgata

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A tradução da Bíblia para o latim, conhecida como Vulgata, resultou do trabalho do monge Jerônimo de Estridão, realizado entre 382 e 405 d.C. a pedido do Papa Dâmaso I. Jerônimo revisou primeiro os Evangelhos em latim já usados pela Igreja e, depois, traduziu boa parte do Antigo Testamento diretamente do hebraico, algo incomum entre os cristãos daquele período. O trabalho começou em Roma, sob a supervisão direta do papa, e terminou décadas depois em Belém, na região hoje conhecida como Cisjordânia. Essa versão latina tornou-se a Bíblia oficial da Igreja Católica por mais de mil anos e influenciou diretamente a formação do cânone bíblico ocidental.

Antes de Jerônimo, circulavam em latim diversas traduções parciais e divergentes da Bíblia, reunidas sob o nome genérico de Vetus Latina. Essas versões haviam sido produzidas por tradutores anônimos entre os séculos II e III d.C., em regiões distintas do Império Romano, sem qualquer coordenação entre si. O resultado eram textos com erros de cópia, diferenças de vocabulário e, em alguns trechos, sentidos teológicos distintos entre um manuscrito e outro. Essa fragmentação preocupava a hierarquia da Igreja, que via na falta de um texto latino confiável um obstáculo à unidade doutrinária.

Jerônimo, cujo nome completo era Eusébio Sofrônio Jerônimo, nasceu por volta de 347 d.C. em Estridão, cidade da província romana da Dalmácia, situada na fronteira entre as atuais Croácia e Eslovênia. Ele estudou retórica e literatura clássica em Roma, foi batizado pelo Papa Libério por volta de 360 e viveu alguns anos como eremita no deserto da Cálcia, próximo a Antioquia, na Síria. Ordenado presbítero em 379, tornou-se conhecido por seu domínio do grego e por um conhecimento raro de hebraico entre os cristãos latinos. Essa formação o credenciou, em 382, a assumir a função de secretário pessoal do Papa Dâmaso I em Roma.

A encomenda de Dâmaso I e a revisão dos Evangelhos

Dâmaso I, papa entre 366 e 384, encarregou Jerônimo de revisar a tradução latina dos quatro Evangelhos com base nos melhores manuscritos gregos disponíveis no final do século IV. Jerônimo concluiu essa revisão ainda durante o pontificado de Dâmaso, adotando um critério conservador: corrigia apenas os erros mais evidentes, preservando ao máximo o texto que os fiéis romanos já conheciam de memória. Paralelamente, traduziu também o livro dos Salmos a partir da Septuaginta, a versão grega do Antigo Testamento usada pelos judeus de língua grega desde o século III a.C. Essa primeira versão dos Salmos ficou conhecida como Psalterium Romanum.

A morte de Dâmaso I, em 384, interrompeu abruptamente a proteção que Jerônimo tinha em Roma. Seu sucessor, o Papa Sirício, não manteve o mesmo apreço pelo tradutor, e Jerônimo, que também enfrentava resistência de parte do clero romano por seu temperamento incisivo, deixou a cidade em 385. Acompanhado por um grupo de discípulos, entre eles a nobre romana Paula e sua filha Eustóquio, ele viajou pelo Oriente até se fixar definitivamente na Palestina.

A tradução do Antigo Testamento a partir do hebraico

Em 386, Jerônimo se estabeleceu em Belém, cidade situada a poucos quilômetros de Jerusalém, junto à gruta tradicionalmente associada ao nascimento de Jesus. Ali, com o patrocínio de Paula, fundou um mosteiro masculino e um convento feminino, onde passou a estudar hebraico com mestres judeus contratados especialmente para essa finalidade. Foi nesse período que Jerônimo tomou a decisão que definiria o restante de sua obra: traduzir o Antigo Testamento diretamente do texto hebraico, e não a partir da Septuaginta grega, como faziam quase todos os cristãos até então.

Essa escolha, que Jerônimo chamava de busca pela hebraica veritas, ou “verdade hebraica”, gerou forte controvérsia ainda no século IV. Agostinho de Hipona, bispo e teólogo influente no norte da África, chegou a escrever cartas questionando Jerônimo, temendo que a nova tradução afastasse os cristãos latinos da Septuaginta, considerada por muitos como inspirada da mesma forma que o texto original. Jerônimo defendeu sua posição argumentando que apenas o texto hebraico preservava com exatidão o significado original das Escrituras judaicas.

A controvérsia dos livros deuterocanônicos

A opção pelo texto hebraico também trouxe consequências para a composição do Antigo Testamento traduzido por Jerônimo. Alguns livros presentes na Septuaginta, como Tobias, Judite e os dois livros dos Macabeus, não tinham correspondente conhecido em hebraico no final do século IV, o que levou Jerônimo a tratá-los com reservas, embora tenha traduzido parte deles a pedido de amigos. Séculos depois, na Reforma Protestante do século XVI, esses textos seriam classificados como apócrifos por teólogos reformados, enquanto a Igreja Católica manteve sua inclusão no cânone com a denominação de livros deuterocanônicos.

Jerônimo levou cerca de vinte e três anos para concluir a tradução de praticamente toda a Bíblia, finalizando o trabalho por volta de 405 d.C. Durante esse período, ele também produziu comentários bíblicos extensos, cartas teológicas e traduções de obras de Orígenes, teólogo cristão do século III. A dedicação ao estudo das Escrituras ocupou o restante de sua vida em Belém, cidade onde permaneceu até sua morte, ocorrida em 420 d.C.

A Vulgata e seu legado ao longo dos séculos

O termo Vulgata, do latim vulgata editio ou “edição de uso comum”, só passou a designar especificamente o texto de Jerônimo séculos depois de sua conclusão. Nos primeiros anos, a nova tradução não substituiu de imediato a Vetus Latina nas igrejas, já que muitos fiéis e clérigos resistiam a abandonar as versões às quais estavam habituados. A adoção ocorreu de forma gradual, região por região, à medida que cópias da tradução de Jerônimo circulavam entre mosteiros e bibliotecas eclesiásticas na Europa ocidental.

Ao longo da Idade Média, a Vulgata tornou-se o texto bíblico de referência praticamente único no Ocidente latino, usado tanto na liturgia quanto no ensino teológico das universidades medievais. Esse predomínio foi formalizado no Concílio de Trento, reunido entre 1545 e 1563, que declarou a Vulgata como a edição latina autêntica da Bíblia para uso oficial da Igreja Católica. Em 1592, o Papa Clemente VIII publicou uma edição revisada e padronizada do texto, que ficou conhecida como Vulgata Clementina e permaneceu como referência oficial católica até o século XX.

A influência da Bíblia traduzida por Jerônimo ultrapassou os limites da liturgia e da teologia. Por volta de 1450, o alemão Johannes Gutenberg escolheu justamente o texto da Vulgata para imprimir, em Mainz, o primeiro grande livro produzido na Europa com tipos móveis, hoje conhecido como Bíblia de Gutenberg. Esse exemplar, hoje raro e disputado por colecionadores e bibliotecas, une em um único objeto dois marcos da história da comunicação escrita: a tradução monumental que Jerônimo realizou em Belém e a invenção que tornaria os livros acessíveis em escala nunca antes vista.

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