A Torre de Babel corresponde, segundo o consenso entre arqueólogos e historiadores, à ziggurate de Etemenanki, construída na cidade de Babilônia, a cerca de 90 quilômetros ao sul da atual Bagdá, no Iraque. O nome Etemenanki significa “templo do fundamento do céu e da terra” e designava um templo dedicado ao deus Marduque, principal divindade do panteão babilônico. A estrutura foi erguida e reconstruída em diferentes períodos, entre aproximadamente 1500 a.C. e o século VI a.C., quando o rei Nabucodonosor II ampliou o monumento. O relato bíblico, registrado no livro de Gênesis, capítulo 11, é considerado por especialistas uma narrativa de origem inspirada nessa construção real, e não um registro histórico literal dos eventos narrados.
O texto de Gênesis conta que a humanidade, falando uma única língua, decidiu erguer uma cidade e uma torre “cujo topo chegasse ao céu”. Segundo a narrativa, essa ambição teria motivado uma intervenção divina que confundiu os idiomas dos construtores e os dispersou pela Terra. A palavra “Babel” deriva da raiz hebraica “balal”, que significa confundir, e o texto bíblico usa esse trocadilho para explicar a origem das diferentes línguas humanas. Historiadores bíblicos situam a composição final desse relato entre os séculos VI e V a.C., período próximo ao exílio judaico na Babilônia sob domínio de Nabucodonosor II.
A identificação arqueológica entre a torre bíblica e uma construção real começou em 1899, quando o arqueólogo alemão Robert Koldewey iniciou escavações sistemáticas em Babilônia. Koldewey buscava localizar a capital de Nabucodonosor II e, no processo, escavou os fundamentos da Porta de Ishtar, da Via Processional e de uma estrutura monumental identificada como Etemenanki. As descobertas de Koldewey forneceram a primeira evidência física concreta de que uma torre-templo gigantesca havia realmente existido no centro da cidade.
O que a arqueologia encontrou em Babilônia?
As escavações revelaram uma base quadrada com aproximadamente 91,5 metros de lado, hoje reduzida a uma cratera preenchida por escombros e água subterrânea. Textos cuneiformes e representações em selos permitiram reconstruir a aparência original da ziggurate: uma estrutura de sete níveis, com um pequeno templo no topo dedicado a Marduque. Segundo o assiriólogo Andrew George, da Universidade de Londres (SOAS), a datação exata da primeira construção permanece incerta, mas a evidência textual sugere que ela existia já na época da composição do poema babilônico Enuma Elish, que menciona o templo de Esagila, associado à ziggurate. Outros pesquisadores relacionam a origem da estrutura ao reinado de Hamurabi, entre 1792 e 1750 a.C., período em que outras cidades mesopotâmicas como Ur, Uruk e Nipur já possuíam suas próprias ziggurates.
A construção não permaneceu intacta ao longo dos séculos. O rei assírio Senaqueribe destruiu Babilônia em 689 a.C., e seu sucessor Esarhadon, que governou entre 680 e 669 a.C., autorizou a reconstrução da cidade e, provavelmente, da torre. Esse ciclo de destruição e reedificação se repetiu diversas vezes até a última grande reforma promovida por Nabucodonosor II, no século VI a.C.
A relação entre a Etemenanki e o relato bíblico
O historiador grego Heródoto, que viveu no século V a.C., descreveu em sua obra “Histórias” uma torre em Babilônia com uma escadaria em espiral que levava a um santuário no topo. Essa descrição, escrita por um observador externo à tradição hebraica, reforça a hipótese de que a estrutura monumental era conhecida e comentada fora da Judeia. O relato de Heródoto não menciona a confusão das línguas, elemento exclusivo da narrativa bíblica, mas confirma a existência física de uma torre-templo imponente no centro da cidade.
A estela de Nabucodonosor II e a representação da torre
Um documento conhecido como Estela da Torre de Babilônia, datado do reinado de Nabucodonosor II, entre 604 e 562 a.C., traz um baixo-relevo do próprio rei ao lado de uma torre de sete andares com planta quadrada. A inscrição cuneiforme registra a promessa do monarca de erguer o monumento até que seu topo alcançasse o céu, frase que guarda semelhança direta com a expressão usada em Gênesis 11:4. Para historiadores como Andrew George, essa coincidência textual é um dos indícios mais fortes de que o relato bíblico incorporou memórias reais da construção babilônica, adaptando-as a um contexto teológico próprio.
O que historiadores afirmam sobre a existência da torre
Entre arqueólogos e historiadores da Mesopotâmia, existe consenso de que a Etemenanki foi uma construção real e serviu de base histórica plausível para o relato bíblico. Esse consenso, porém, não se estende aos elementos sobrenaturais da narrativa: a existência de uma língua humana única e a intervenção divina que teria confundido os idiomas são tratadas como recursos narrativos de um mito de origem, comuns em diversas culturas antigas, e não como eventos historicamente comprováveis. A divergência entre pesquisadores concentra-se, sobretudo, na datação precisa da primeira construção e no número de reformas que a estrutura sofreu antes do período de Nabucodonosor II.
A última fase conhecida da história da Etemenanki ocorreu em 331 a.C., quando Alexandre, o Grande, rei da Macedônia, conquistou Babilônia. Segundo registros da época, Alexandre ordenou a remoção dos escombros da ziggurate com a intenção de reconstruí-la em maior escala, projeto interrompido por sua morte em 323 a.C. Após esse episódio, a estrutura nunca mais foi reerguida e, com o tempo, seus tijolos foram reaproveitados por moradores locais em outras construções.
O jesuíta alemão Athanasius Kircher, em 1679, publicou a obra “Turris Babel“, contendo três reconstruções hipotéticas do monumento baseadas em textos clássicos, entre eles o relato de Heródoto. Kircher calculou que, se a torre bíblica tivesse a altura descrita literalmente nas tradições populares da época, sua base ocuparia área maior que a própria Babilônia e o peso da estrutura seria incompatível com os materiais disponíveis na Antiguidade. Esse cálculo, um dos primeiros exercícios de engenharia aplicados a um texto bíblico, ilustra como o interesse pela veracidade da Torre de Babel já mobilizava estudiosos europeus séculos antes das escavações modernas em Babilônia.