As vespas mais perigosas do mundo combinam veneno potente, comportamento agressivo em grupo e proximidade com áreas habitadas por humanos. Entre as cinco espécies analisadas neste artigo estão a Vespa mandarinia, conhecida popularmente como vespa-gigante-asiática, a Vespa velutina, a Synoeca septentrionalis, a Pepsis grossa e a Vespula germanica, distribuídas em regiões da Ásia, Europa, América Latina e América do Norte. O risco associado a cada espécie varia conforme três fatores centrais: toxicidade do veneno, tamanho das colônias e frequência de contato com pessoas em ambientes urbanos ou rurais. Casos de óbito por picadas múltiplas, reações anafiláticas e ataques em massa documentados por hospitais e instituições de saúde pública sustentam essa classificação.
O veneno das vespas contém uma combinação de enzimas, peptídeos e aminas biogênicas que provocam dor, inchaço e, em casos de múltiplas picadas ou alergia prévia, falência de órgãos. Diferente das abelhas, a maioria das espécies de vespas consegue picar repetidamente, sem perder o ferrão, o que aumenta o volume de veneno injetado durante um ataque. Colônias de algumas espécies ultrapassam vários milhares de indivíduos, fator que eleva o risco em caso de perturbação do ninho. O entomologista americano Justin O. Schmidt, pesquisador que dedicou décadas ao estudo de insetos picadores, documentou reações a picadas de dezenas de espécies e serviu de referência central para comparações de toxicidade e dor entre vespas.
Este levantamento adota dois critérios principais para definir periculosidade: o número de acidentes graves ou fatais atribuídos a cada espécie e a intensidade da dor registrada em escalas científicas reconhecidas, como o Índice de Dor de Picadas de Schmidt. Registros de agências de saúde do Japão, da União Europeia e de países da América Latina, além de estudos publicados em periódicos de entomologia, fundamentam as informações apresentadas a seguir. A ordem de apresentação segue o grau de risco à saúde humana, da espécie mais associada a mortes até a espécie com a picada mais dolorosa já medida.
Vespas responsáveis pelo maior número de mortes
A vespa-mandarina, nativa do leste e do sudeste asiático, é a maior espécie de vespa do mundo, com operárias que alcançam até 5 centímetros de comprimento. Seu veneno contém uma toxina chamada mandaratoxina, capaz de destruir tecido muscular, além de uma quantidade de veneno por picada superior à da maioria das outras vespas. No Japão, autoridades de saúde atribuem dezenas de mortes anuais a picadas dessa espécie, a maioria decorrente de ataques múltiplos próximos a ninhos localizados em áreas florestais e rurais. Em 2019, exemplares da espécie foram identificados pela primeira vez no estado de Washington, nos Estados Unidos, episódio que motivou um programa de erradicação conduzido pelo Departamento de Agricultura daquele estado.

A vespa-velutina, também chamada de vespa-asiática, chegou à Europa em 2004, provavelmente transportada em um carregamento de cerâmica originário da China que desembarcou no porto de Bordeaux, na França. Desde então, a espécie se espalhou por Portugal, Espanha, Itália e Reino Unido, onde compete com abelhas nativas e ameaça a apicultura local ao predar colmeias inteiras. Picadas da vespa-velutina causam dor intensa e reações alérgicas graves em pessoas sensibilizadas, com registros de óbitos documentados pela Agência de Segurança Sanitária da França. A União Europeia classifica a espécie como invasora desde 2016, sob o Regulamento (UE) nº 1143/2014, que trata do controle de espécies exóticas.

Vespas com a picada mais dolorosa do mundo
A Synoeca septentrionalis, conhecida como vespa-guerreira, habita florestas tropicais da América Central e do norte da América do Sul e forma colônias de até algumas centenas de indivíduos em ninhos fixados a troncos de árvores. Quando perturbada, a espécie ataca em grupo e injeta um veneno responsável por uma das dores mais intensas já registradas entre insetos picadores. Populações locais no México e na América Central relatam espasmos musculares involuntários durante horas após uma picada, sintoma associado a componentes neurotóxicos do veneno. A espécie recebeu a nota máxima na escala elaborada por Justin O. Schmidt, empatada com poucas outras espécies de himenópteros no mundo.

O índice de dor de picadas de Schmidt
Justin O. Schmidt publicou, ao longo de sua carreira como pesquisador vinculado ao Instituto de Pesquisa em Abelhas do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos, uma escala que classifica a dor de picadas de himenópteros em graus de 1 a 4. A Pepsis grossa, vespa conhecida como “caça-tarântulas” por paralisar aranhas para alimentar suas larvas, recebe nota 4, o grau máximo da escala, descrito por Schmidt como uma dor “cegante, chocante e eletrizante”. A espécie ocorre no sudoeste dos Estados Unidos, no México e em partes da América Central e do Sul, e, apesar da dor extrema, seu veneno raramente causa reações sistêmicas graves em humanos. Schmidt descreveu suas observações em detalhe no livro “The Sting of the Wild”, publicado em 2016 pela University of Chicago Press.

Vespas comuns com maior número de acidentes
A Vespula germanica, conhecida como vespa-alemã ou vespa-comum, é nativa da Europa, do norte da África e de partes da Ásia, mas se estabeleceu também na América do Norte, na Austrália, na Nova Zelândia e na América do Sul após introduções acidentais ao longo do século XX. Colônias dessa espécie podem ultrapassar 5 mil indivíduos, concentrados em ninhos subterrâneos frequentemente encontrados em jardins, parques e áreas urbanas. A agressividade da Vespula germanica aumenta no fim do verão, período em que operárias buscam alimentos açucarados e entram em contato direto com pessoas em espaços públicos. Hospitais de países como Reino Unido, Estados Unidos e Austrália registram, todos os anos, um número elevado de atendimentos por picadas múltiplas dessa espécie, sobretudo em pacientes com histórico de alergia a veneno de himenópteros.

Estudos publicados por entomologistas da Universidade de Melbourne, na Austrália, apontam que a Vespula germanica compete diretamente com espécies nativas por alimento em regiões onde foi introduzida, alterando o equilíbrio de ecossistemas locais. Diferente da vespa-mandarinia, cujo risco concentra-se principalmente na Ásia, a distribuição global da Vespula germanica explica seu impacto expressivo em estatísticas de acidentes por picadas de vespas em diferentes continentes. Programas de controle municipal em cidades australianas e neozelandesas incluem a destruição de ninhos dessa espécie como medida preventiva de saúde pública. O comportamento oportunista da espécie, associado à proximidade constante com áreas urbanas, mantém a Vespula germanica entre as vespas mais relacionadas a atendimentos de emergência no mundo.
Uma curiosidade histórica relacionada a essas vespas envolve o próprio Justin O. Schmidt, que testou em seu próprio corpo picadas de mais de 80 espécies de himenópteros ao longo de sua carreira para construir a escala que hoje serve de referência científica sobre dor e periculosidade de vespas e outros insetos picadores. Schmidt relatou detalhadamente cada reação em cadernos de campo, prática que resultou em descrições precisas usadas até hoje por pesquisadores de todo o mundo. Essa metodologia, incomum entre cientistas, tornou possível comparar de forma sistemática a intensidade de picadas de espécies tão distintas quanto a Synoeca septentrionalis e a Pepsis grossa. O trabalho de Schmidt permanece, décadas depois de iniciado, a principal fonte científica sobre o tema.
