Maria Madalena foi uma seguidora de Jesus de Nazaré no século I, originária da cidade de Magdala, povoado pesqueiro localizado na margem ocidental do mar da Galileia, região então integrada à província romana da Judeia. Os quatro evangelhos canônicos — Mateus, Marcos, Lucas e João — mencionam seu nome com mais frequência do que o de quase qualquer outra mulher do Novo Testamento, atribuindo a ela papel central nos episódios finais da narrativa sobre Jesus. Ela aparece como testemunha da crucificação, presente no sepultamento e, nos quatro relatos, como a primeira pessoa a encontrar o túmulo vazio e anunciar a ressurreição aos demais discípulos. Apesar dessa relevância nos textos bíblicos, sua identidade histórica foi obscurecida séculos depois por uma fusão equivocada com outras personagens femininas do evangelho, promovida oficialmente pelo papa Gregório Magno em 591.
Essa fusão, hoje rejeitada pela maioria dos historiadores e pela própria Igreja Católica, uniu Maria Madalena a duas outras figuras: Maria de Betânia, irmã de Marta e Lázaro, e uma mulher pecadora anônima que aparece no evangelho de Lucas. O resultado foi a imagem popular de Madalena como prostituta arrependida, sem qualquer base direta nos evangelhos canônicos, que nunca a descrevem dessa forma. Paralelamente aos textos que compõem o cânone bíblico, um conjunto de escritos cristãos primitivos não incluídos no Novo Testamento — os chamados evangelhos apócrifos — oferece outra camada de informação sobre Maria Madalena, retratando-a como discípula próxima de Jesus e figura de autoridade espiritual em algumas comunidades cristãs dos primeiros séculos.
A reconstrução histórica de Maria Madalena depende, portanto, da distinção cuidadosa entre três conjuntos de fontes: os evangelhos canônicos, reconhecidos oficialmente pela Igreja desde o século IV; os evangelhos apócrifos, produzidos majoritariamente por grupos cristãos gnósticos entre os séculos II e IV; e a tradição posterior, moldada por sermões, obras de arte e narrativas medievais que se afastaram progressivamente dos textos originais. Historiadores do cristianismo primitivo, como Karen King, professora da Universidade Harvard especializada em textos gnósticos, e Elaine Pagels, também da mesma instituição, reforçam essa separação metodológica ao analisar as fontes disponíveis sobre Madalena.
O que dizem os evangelhos canônicos sobre Maria Madalena?
O evangelho de Lucas apresenta Maria Madalena como parte de um grupo de mulheres que acompanhava Jesus durante seu ministério na Galileia, contribuindo com recursos próprios para sustentar a missão itinerante do grupo. O mesmo relato menciona que ela havia sido curada de uma condição descrita como possessão por sete demônios, expressão que os estudiosos do Novo Testamento interpretam como referência a algum sofrimento físico ou psicológico grave, sem qualquer associação, no texto original, a comportamento sexual ou moral. Essa passagem em Lucas é o único episódio biográfico direto sobre Madalena presente nos evangelhos canônicos antes dos relatos da Paixão.