Alfred Bernhard Nobel nasceu em Estocolmo, capital da Suécia, em 21 de outubro de 1833, e construiu fortuna registrando mais de 350 patentes ao longo da vida, entre elas a da dinamite, criada em 1867. O apelido “mercador da morte” surgiu porque um jornal francês publicou, por engano, o obituário de Alfred em 1888, atribuindo-lhe a morte de seu irmão mais velho, Ludvig Nobel. O texto o descrevia como o homem que enriqueceu inventando maneiras mais eficientes de matar pessoas, e essa notícia prematura teria influenciado diretamente a decisão de Nobel de criar, em testamento, o prêmio que hoje leva seu nome.
O incidente ocorreu em um momento delicado da vida pessoal de Nobel: seu irmão Ludvig, nascido em 27 de julho de 1831, morreu em 12 de abril de 1888, na cidade francesa de Cannes, aos 56 anos. Ludvig havia construído carreira própria como engenheiro e empresário na Rússia, onde geriu negócios de petróleo com outro irmão, Robert Nobel, e era reconhecido por tratar seus trabalhadores com relativa dignidade para os padrões industriais da época. A confusão entre os dois irmãos, ambos ligados a negócios de grande porte e sobrenome idêntico, levou o jornal a atribuir erroneamente a Alfred a notícia de falecimento que, na verdade, pertencia a Ludvig.
A explosão que matou o irmão mais novo e mudou a vida de Nobel
Antes do episódio do obituário, Alfred Nobel já enfrentava outra tragédia familiar ligada diretamente ao seu trabalho com explosivos. Em 1864, uma explosão na fábrica de nitroglicerina de sua família, nos arredores de Estocolmo, matou cinco pessoas, entre elas o irmão caçula de Alfred, Emil Oskar Nobel. O acidente levou as autoridades municipais de Estocolmo a proibir a fabricação de nitroglicerina líquida dentro dos limites da cidade, obrigando a família a transferir a produção para uma embarcação ancorada no lago Mälaren e, depois, para fora do território sueco.
Foi nesse contexto de instabilidade que Nobel desenvolveu, em 1867, a dinamite, produto que misturava nitroglicerina líquida com um material absorvente chamado kieselguhr, terra diatomácea composta por restos fossilizados de microrganismos aquáticos. Essa combinação tornava o explosivo muito mais seguro de manusear e transportar do que a nitroglicerina pura, inventada duas décadas antes, em 1846, pelo químico italiano Ascanio Sobrero. A dinamite revolucionou obras de mineração, construção de túneis e ferrovias em todo o mundo, mas também passou a ser usada em conflitos armados, o que consolidou a associação do nome de Nobel a instrumentos de destruição em massa muito antes do episódio do obituário de 1888.
O obituário equivocado publicado por um jornal francês em 1888
Segundo relatos reproduzidos por diversos biógrafos, entre eles o escritor sueco Kenne Fant, autor da biografia “Alfred Nobel: A Biography”, publicada originalmente em 1991, o jornal francês teria estampado a manchete “Le marchand de la mort est mort”, traduzida como “o mercador da morte está morto”. O texto atribuído ao obituário descrevia Nobel como um homem que se tornou rico ao encontrar formas mais rápidas de matar seres humanos, ironia amarga para alguém que, segundo a tradição biográfica, valorizava sua imagem pública e temia ser lembrado apenas pela destruição gerada por seus inventos.
Por que a autenticidade do jornal original é contestada por historiadores?
Apesar de a história aparecer repetida em praticamente todas as biografias populares de Nobel, nenhum exemplar original desse jornal francês foi localizado e preservado em arquivos até hoje, o que leva historiadores a tratar o episódio com cautela metodológica. A ausência de documentação primária não significa necessariamente que o fato seja falso, já que jornais parisienses do século XIX nem sempre tiveram sua tiragem completa arquivada, mas significa que a versão exata da manchete e o nome específico da publicação permanecem sem confirmação definitiva pelos pesquisadores. Essa lacuna documental é reconhecida inclusive por veículos que reproduzem a história, que costumam qualificá-la como um relato tradicional consolidado ao longo de décadas de biografias e reportagens, e não como um fato com fonte primária identificada e acessível.
Como a fama de “mercador da morte” moldou o testamento de Nobel?
Independentemente da precisão factual de cada detalhe do episódio, o abalo emocional atribuído a essa leitura prematura do próprio obituário é apontado pela maioria dos biógrafos como fator relevante na decisão final de Nobel sobre o destino de sua fortuna. Em seu último testamento, assinado em Paris em 27 de novembro de 1895, Nobel determinou que a maior parte de seus bens fosse destinada à criação de prêmios anuais para pessoas que trouxessem os maiores benefícios à humanidade nas áreas de física, química, fisiologia ou medicina, literatura e paz. A inclusão da categoria de paz, em particular, contrasta diretamente com a origem da fortuna de Nobel, construída sobre patentes de explosivos usados também em contextos bélicos.
O testamento gerou disputas legais entre parentes de Nobel e enfrentou resistência inicial das autoridades suecas, que na época não possuíam legislação clara sobre a criação de fundações desse tipo. Esses obstáculos jurídicos atrasaram em cinco anos a entrega da primeira edição do prêmio: Alfred Nobel morreu em 10 de dezembro de 1896, em sua residência em San Remo, na Itália, vítima de hemorragia cerebral aos 63 anos, mas o primeiro Prêmio Nobel só foi concedido em 1901. Hoje, o Prêmio Nobel é considerado uma das honrarias mais prestigiadas do mundo em suas áreas, e o apelido de “mercador da morte” que marcou Nobel em 1888 tornou-se, décadas depois, uma nota de rodapé irônica diante do legado humanitário que o próprio inventor deixou por escrito.