Xica da Silva completa 30 anos: relembre a novela

Estreada em 17 de setembro de 1996, a produção da Manchete revelou Taís Araújo, teve Walter Avancini na direção e escondeu por meses a identidade de seu autor

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Em 17 de setembro de 1996, a Rede Manchete estreou Xica da Silva, uma das produções mais marcantes de sua fase final. A novela levou para a televisão a trajetória da mulher escravizada que se tornou companheira do contratador de diamantes João Fernandes de Oliveira, personagem vivido por Victor Wagner, e transformou Taís Araújo, então com 17 anos, em protagonista. Trinta anos depois, a produção continua lembrada pelo elenco, pelas cenas ousadas e pelas controvérsias que cercaram sua exibição.

A novela foi escrita por Walcyr Carrasco, mas o público não sabia disso inicialmente. Como o autor trabalhava no SBT, ele adotou o pseudônimo Adamo Angel para escrever a produção da Manchete. A trama foi dirigida por Walter Avancini, que acumulou a direção artística e comandou uma equipe formada também por profissionais como João Camargo, Jacques Lagoa, J. Alcântara e Lizânias Azevedo.

A produção não partiu diretamente de uma biografia histórica. Seu roteiro foi baseado principalmente no romance Chica Que Manda, de Agripa Vasconcelos, e dialogava com outras representações literárias e cinematográficas da personagem. A novela, portanto, misturava elementos da trajetória conhecida de Chica da Silva com ficção, melodrama, erotismo, violência e componentes fantásticos, característica que ajudou a diferenciá-la de outras novelas de época.

A produção que a Manchete preparou para o horário nobre

A escolha de Xica da Silva fazia parte de uma estratégia da Manchete para recuperar espaço no horário nobre. O projeto substituiu a ideia inicial de produzir uma adaptação de obras de Machado de Assis e ganhou força depois dos resultados obtidos por Tocaia Grande. Reportagens publicadas antes da estreia registravam um orçamento estimado em milhões de reais e a intenção de investir em cenografia, figurinos, locações e imagens grandiosas.

Walter Avancini apostou em uma combinação que se tornou uma das marcas da novela: reconstituição de época, violência, sensualidade e elementos sobrenaturais. A produção ambientava parte importante de sua narrativa em Diamantina, em Minas Gerais, e procurava criar uma representação visual do Brasil colonial bastante diferente das novelas urbanas predominantes na televisão brasileira. Uma pesquisa publicada posteriormente sobre a obra destaca justamente a tentativa da Manchete de deslocar suas produções para outros espaços do país e explorar um Brasil distante do eixo Rio-São Paulo.

Taís Araújo foi escolhida para o papel principal quando tinha apenas 17 anos. Ela já havia trabalhado em Tocaia Grande, também da Manchete, mas ainda era uma atriz em início de carreira. Segundo Avancini, a escolha ocorreu por causa do temperamento da jovem atriz, que nem sequer participou dos testes convencionais para o papel. Para assumir a personagem, Taís também precisou cortar os cabelos, que chegavam à cintura.

Zezé Motta voltou ao universo de Xica

Um detalhe particularmente simbólico estava no elenco. Zezé Motta, que havia interpretado Xica da Silva no filme de Cacá Diegues de 1976, retornou à história vinte anos depois, desta vez como Maria da Silva, mãe da protagonista. Ela não foi a única ligação entre as duas produções: o ator Luciano Rabello havia participado como figurante do filme ainda criança e apareceu na novela como o soldado Amaro.

Victor Wagner interpretou João Fernandes, o contratador de diamantes e principal parceiro de Xica na trama. Drica Moraes viveu Violante Cabral, personagem construída como uma das principais adversárias da protagonista. O elenco também reuniu Carlos Alberto, Eduardo Dussek, Murilo Rosa, Adriane Galisteu, Leci Brandão e Silvia Buarque, entre outros nomes. Galisteu e Dussek estavam fazendo suas estreias em novelas, enquanto a produção também aproveitou dezenas de atores ainda pouco conhecidos.

O segredo de Adamo Angel

A autoria de Xica da Silva provocou uma situação incomum na televisão brasileira. Walcyr Carrasco era funcionário do SBT e, ao mesmo tempo, recebeu a oportunidade de escrever a novela para a Manchete. Para preservar seu vínculo com a emissora de Silvio Santos, criou o nome Adamo Angel e manteve sua identidade escondida durante parte da exibição.

O mistério acabou despertando a curiosidade da imprensa. Em abril de 1997, a Manchete apresentou publicamente Adamo Angel como Walcyr Carrasco, encerrando a farsa. O autor, porém, conseguiu concluir a novela e posteriormente continuou sua trajetória no SBT. O episódio acabou se tornando uma das histórias mais conhecidas dos bastidores da produção.

A repercussão também alcançou Adriane Galisteu. Interpretando Clara, irmã branca de Xica, ela entrou no projeto como uma aposta de marketing, segundo declaração posterior de Avancini publicada pela Folha de S.Paulo. O próprio diretor admitiu que não esperava inicialmente uma grande atuação da apresentadora e afirmou que havia criado uma personagem cujo desenvolvimento pudesse controlar.

Nudez, censura e outras polêmicas

A sensualidade foi um dos elementos mais discutidos da novela, principalmente por causa da idade de Taís Araújo durante as primeiras fases da produção. A exibição de cenas de nudez tornou-se assunto recorrente na imprensa, e a legislação sobre participação de menores de idade em cenas desse tipo entrou diretamente nas discussões sobre a novela. Quando Taís completou 18 anos, uma cena de nudez que vinha sendo aguardada pela imprensa foi exibida.

A expectativa em torno da sequência foi enorme, mas a nudez não provocou o salto de audiência que alguns esperavam. Em 28 de novembro de 1996, a novela chegou a 10 pontos em determinado momento, mas, durante a sequência de nudez, registrou 8 pontos na Grande São Paulo, segundo levantamento preliminar do Ibope publicado pela Folha. A reportagem registrou ainda que a produção continuava atrás da Globo e disputava espaço com o SBT.

Outra controvérsia envolveu cenas de sexo que seriam exibidas em março de 1997. Uma liminar da Justiça proibiu a transmissão de determinadas sequências nas quais noviças, sob influência de uma personagem apresentada como bruxa, seduziam militares. A decisão ocorreu após representação do movimento O Amanhã de Nossos Filhos, ligado à TFP, e a Manchete acabou modificando e reeditando o capítulo.

A relação entre Taís Araújo e a direção também gerou um episódio público. Em 1997, Avancini criticou a decisão da atriz de não participar de determinadas cenas sensuais, enquanto Taís defendia uma interpretação da personagem que não dependesse do erotismo. O debate expôs uma questão que ultrapassava a produção: diferentes interpretações sobre a própria imagem de Xica da Silva e sobre o papel da sensualidade na representação de uma mulher negra escravizada.

Mesmo cercada de controvérsias, a novela alcançou posição relevante na audiência da Manchete. Em dezembro de 1996, Avancini afirmava que Xica da Silva ocupava o segundo lugar no horário no Rio de Janeiro, chegando a 12 pontos, enquanto em São Paulo alcançava cerca de 9 pontos. Naquele momento, o diretor atribuía parte do resultado ao cuidado com a produção e dizia que a novela ajudava a recuperar a credibilidade da emissora.

A produção também ficou marcada por uma participação internacional inusitada: a atriz italiana Cicciolina, conhecida por sua carreira no cinema erótico, participou da novela como a princesa Ludovika. A presença dela fazia parte da estratégia da Manchete de explorar o apelo internacional e sensual da produção.

Outro aspecto que chama atenção é a quantidade de profissionais que posteriormente ganhariam projeção. Taís Araújo se tornaria uma das principais atrizes brasileiras de sua geração, enquanto nomes como Drica Moraes, Murilo Rosa, Giovanna Antonelli e outros integrantes do elenco seguiriam trajetórias importantes na televisão. Para Taís, entretanto, o impacto foi particularmente significativo: Xica da Silva foi sua primeira protagonista e marcou o início de uma carreira que se estenderia por décadas.

Três décadas depois da estreia, a novela continua sendo objeto de pesquisas acadêmicas e de releituras sobre representação racial, gênero, escravidão e televisão brasileira. Um estudo publicado pela PUC-SP, por exemplo, analisa especificamente as disputas de sentido provocadas pela representação de Xica e pelas discussões em torno das cenas de nudez de Taís Araújo.

Uma das coincidências mais curiosas envolvendo Xica da Silva aconteceu fora da própria novela: em 2025, o pseudônimo Adamo Angel voltou a aparecer em uma produção da Globo, Êta Mundo Melhor!. O nome foi usado na trama como uma referência ao pseudônimo que Walcyr Carrasco havia criado quase três décadas antes para escrever Xica da Silva sem revelar sua identidade.

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