O Marquês de Sade foi o escritor francês Donatien Alphonse François de Sade, nascido em 2 de junho de 1740 em Paris, autor de romances e ensaios filosóficos que descrevem violência sexual e questionam a moral religiosa e social de sua época. Sua obra mais conhecida é “Justine ou os Infortúnios da Virtude”, publicada em 1791, na qual narra os sofrimentos de uma jovem que insiste em manter a virtude apesar de ser vítima de sucessivos abusos.
O nome de Sade deu origem ao termo “sadismo”, cunhado décadas depois de sua morte para descrever o prazer obtido a partir do sofrimento alheio, conceito que a psiquiatria do século 19 associou diretamente ao conteúdo de seus livros. Boa parte de sua produção literária foi escrita durante os longos períodos em que ficou preso, condição que moldou tanto o conteúdo quanto a forma clandestina de circulação de seus textos.
Filho do conde Jean-Baptiste François de Sade e de Marie-Éléonore de Maillé de Carman, o futuro escritor recebeu educação em regime jesuíta no colégio Louis-le-Grand, em Paris, e seguiu depois carreira militar, servindo como oficial de cavalaria durante a Guerra dos Sete Anos, conflito europeu ocorrido entre 1756 e 1763. Em 1763, casou-se por arranjo familiar com Renée-Pélagie de Montreuil, união que lhe garantiu estabilidade financeira, mas não conteve o comportamento que logo o tornaria alvo de escândalos públicos.
Os escândalos que marcaram a vida do Marquês de Sade
Ainda no ano do casamento, Sade foi preso por curto período na prisão de Vincennes, nos arredores de Paris, episódio ligado a acusações de libertinagem que se repetiriam ao longo de sua vida adulta. Sua reputação como figura transgressora se consolidou a partir do episódio de Arcueil, em 1768, quando foi acusado de agredir e reter contra a vontade uma mulher chamada Rose Keller.
O chamado caso de Marselha, em 1772, agravou ainda mais sua situação: ao participar de um encontro com prostitutas, foi acusado de envenenamento e sodomia, então crime capital na legislação francesa. Condenado à morte à revelia, fugiu para a Itália, foi capturado na cidade de Chambéry e enviado à fortaleza de Miolans, na região da Saboia, da qual escapou no ano seguinte. Esses episódios de fuga e nova prisão se tornaram um padrão em sua biografia, alternando períodos de liberdade turbulenta com longos anos de reclusão em diferentes instituições francesas.
A prisão prolongada e o início da atividade literária
Em 13 de setembro de 1777, Sade foi preso de forma definitiva no calabouço de Vincennes, dando início ao período mais longo de encarceramento de sua vida, prolongado por mais de uma década sob a acusação de comportamento libertino e crimes sexuais contra jovens que trabalhavam sob sua autoridade. Foi nesse contexto de isolamento prolongado que ele passou a escrever de forma sistemática, produzindo romances, contos e peças de teatro como forma de ocupar o tempo.
Em 1782, ainda em Vincennes, escreveu “Diálogo entre um Padre e um Moribundo”, texto curto no qual expõe abertamente seu ateísmo por meio de um debate entre um religioso e um homem à beira da morte. Em 1784, foi transferido para a prisão da Bastilha, em Paris, símbolo do poder absolutista francês que seria tomado pela população em 14 de julho de 1789, marco do início da Revolução Francesa.
“Os 120 Dias de Sodoma” e a radicalização de sua escrita
Na Bastilha, Sade escreveu entre 1785 e 1787 o manuscrito de “Os 120 Dias de Sodoma“, obra estruturada como o relato de quatro libertinos que se isolam em um castelo para submeter um grupo de vítimas a violências sistemáticas, narrativa organizada em capítulos crescentes de crueldade que ele próprio nunca chegou a revisar por completo. O manuscrito, escrito em rolo de papel para ser escondido dos carcereiros, foi dado como perdido quando Sade foi transferido às pressas do presídio pouco antes de sua invasão em 1789.
O texto só veio a público décadas depois, publicado de forma completa apenas no início do século 20. A obra é considerada pela crítica literária um dos textos mais extremos já produzidos sobre crueldade e poder, tratado por historiadores da literatura menos como material de entretenimento e mais como experimento filosófico sobre os limites da moral e da linguagem.
Justine, Juliette e a filosofia libertina de Sade
Solto em 1790, após a Revolução Francesa abolir as antigas ordens régias de prisão (lettres de cachet), Sade publicou em 1791 “Justine ou os Infortúnios da Virtude”, romance que contrapõe a protagonista virtuosa, sempre punida por sua bondade, a uma sociedade corrupta que se beneficia da exploração alheia. Em 1795, lançou “A Filosofia na Alcova”, texto que combina diálogos eróticos com um panfleto político inserido no meio da narrativa, no qual defende a eliminação de restrições morais e religiosas em nome da liberdade individual absoluta.
Três anos depois, publicou “Juliette”, contraponto de “Justine”, que acompanha uma personagem que prospera exatamente por abraçar o vício e a manipulação, estrutura que reforça o método de Sade de usar pares de personagens opostos para testar suas ideias sobre moral e natureza humana. Historiadores da literatura, como o francês Maurice Lever, autor de uma biografia de referência sobre Sade publicada em 1991, descrevem esse conjunto de obras como uma filosofia coerente do libertinismo, baseada na ideia de que a natureza não reconhece virtude nem pecado, apenas força e prazer.
Apesar de aristocrata, Sade sobreviveu ao período mais violento da Revolução Francesa ao se aproximar de posições políticas revolucionárias, chegando a redigir um elogio público ao líder jacobino Jean-Paul Marat, assassinado em 1793. Essa aproximação não o livrou de novas prisões: em 1801, durante o governo de Napoleão Bonaparte, foi detido novamente, dessa vez sob a acusação de autoria de textos obscenos, e enviado ao asilo de Charenton, nos arredores de Paris, onde permaneceu até sua morte.
Nesse último período, encenou peças de teatro com a participação de outros internos e trabalhou em romance de múltiplos volumes intitulado “Os Crimes do Amor”, publicado parcialmente já em 1800, reunindo contos que combinam crítica social com temas recorrentes de sua obra anterior.
O Marquês de Sade morreu em Charenton, em 2 de dezembro de 1814, aos 74 anos, ainda sob custódia, num contexto em que boa parte de sua obra circulava apenas de forma clandestina entre livreiros e colecionadores dispostos a arriscar processos por obscenidade. Seu filho mais velho, Louis-Marie de Sade, teria providenciado a destruição de manuscritos inéditos do pai logo após sua morte, decisão que privou pesquisadores posteriores de parte significativa de sua produção final.
Só no século XX a obra de Sade passou a ser estudada de forma sistemática por filósofos e críticos literários, entre eles o francês Guillaume Apollinaire, que organizou e prefaciou uma coletânea de seus textos em 1909, contribuindo para transformar o autor de figura marginal em objeto de análise acadêmica sobre os limites entre liberdade individual, poder e representação da violência na literatura.
