Os neandertais enterravam deliberadamente alguns de seus mortos, segundo evidências arqueológicas encontradas em diferentes sítios da Europa e do Oriente Próximo. A conclusão, porém, precisa ser formulada com cuidado: a existência de sepultamentos intencionais é mais bem sustentada do que a ideia de que eles realizavam cerimônias funerárias semelhantes às dos humanos atuais. Em vários casos, a posição dos esqueletos, a presença de depressões escavadas e a relação entre os ossos e os sedimentos indicam que os corpos foram colocados intencionalmente em determinados locais.
O comportamento mortuário dos neandertais é estudado principalmente por meio da arqueologia funerária, da tafonomia e da análise dos sedimentos. Como não existem registros escritos, objetos cuja função ritual possa ser identificada com segurança ou testemunhos sobre as crenças desses grupos, os pesquisadores precisam reconstruir os acontecimentos a partir da posição dos ossos, das marcas nos esqueletos, da estratigrafia e dos processos naturais que ocorreram depois da morte. Essa cautela é fundamental porque um corpo preservado em uma caverna não significa automaticamente que tenha sido enterrado.
A evidência também não aponta para um único modelo seguido por todos os grupos neandertais. Sepultamentos atribuídos a esses hominínios aparecem em contextos diferentes, separados por grandes distâncias e milhares de anos. Entre os casos mais conhecidos estão La Chapelle-aux-Saints e La Ferrassie, na França, além de Kebara, no atual Israel, e Shanidar, no Curdistão iraquiano. Esses sítios permitem afirmar muito sobre a deposição dos corpos, mas muito menos sobre aquilo que os vivos pensavam ou sentiam durante esses momentos.
O que as sepulturas revelam sobre os neandertais?
Em La Chapelle-aux-Saints, na França, um esqueleto de neandertal descoberto em 1908 tornou-se um dos primeiros casos associados a um enterramento intencional. O indivíduo, conhecido como “Velho de La Chapelle”, tinha cerca de 60 mil anos e foi encontrado em uma depressão escavada no substrato rochoso. Uma reavaliação arqueológica realizada muitas décadas depois encontrou evidências que sustentam a interpretação de que a depressão tinha origem antrópica e que o corpo foi rapidamente coberto, reduzindo a possibilidade de perturbações posteriores.
Outro caso importante está em La Ferrassie, na Dordogne, também na França. O abrigo preservou restos de adultos, crianças e fetos atribuídos a neandertais, e vários deles foram interpretados como enterramentos intencionais. Pesquisas recentes deram atenção especial ao indivíduo conhecido como La Ferrassie 8, uma criança de aproximadamente dois anos: análises estratigráficas, tafonômicas, cronológicas e biomoleculares indicaram que uma cova havia sido aberta em um sedimento anteriormente estéril e que o corpo foi colocado dentro dela antes de ser recoberto.
A posição dos corpos também fornece pistas. Em La Ferrassie, por exemplo, alguns esqueletos apresentavam orientações semelhantes, com a cabeça situada topograficamente acima da pelve. No caso de La Ferrassie 8, os pesquisadores consideraram que a abertura de uma cova e seu posterior preenchimento explicam melhor o conjunto das evidências do que um processo natural de deposição. Isso não significa que os indivíduos tenham recebido exatamente o mesmo tratamento em todas as ocasiões, mas demonstra que determinados grupos neandertais podiam modificar deliberadamente o espaço para receber um morto.
Kebara 2, encontrado na caverna de Kebara, no monte Carmelo, é outro exemplo relevante. O esqueleto de um homem adulto, datado de aproximadamente 60 mil anos, estava articulado e situado em uma depressão rasa aberta em depósitos mais antigos. A estratigrafia, a posição dos ossos e a ausência de sinais que indiquem uma acumulação causada por carnívoros são elementos usados para sustentar a interpretação de enterramento deliberado.
Esses casos ajudam a distinguir enterramento intencional de ritual funerário. Enterrar um cadáver implica uma ação deliberada sobre o corpo e o espaço onde ele será depositado; já um ritual pode envolver gestos simbólicos, objetos, oferendas, pigmentos, flores, preparação do corpo ou outras práticas culturalmente codificadas. No registro neandertal, a primeira categoria possui evidências mais sólidas do que a segunda. Os arqueólogos conseguem identificar algumas ações físicas com razoável segurança, mas não podem simplesmente transformar essas ações em provas de religião, crença em vida após a morte ou cerimônias formais.
Shanidar e o famoso “enterro das flores”
A caverna de Shanidar, no Curdistão iraquiano, tornou-se o principal cenário dessa discussão. Entre 1951 e 1960, o arqueólogo Ralph Solecki encontrou restos de cerca de dez neandertais no interior da caverna. Alguns indivíduos estavam agrupados em uma mesma área, e a disposição dos esqueletos levantou a possibilidade de que o local tivesse sido utilizado repetidamente para depositar mortos.
Shanidar 4 ficou especialmente famoso porque havia concentrações de pólen próximas ao esqueleto. Solecki e a palinóloga Arlette Leroi-Gourhan interpretaram os dados como possível evidência de que flores haviam sido colocadas junto ao cadáver, originando a expressão “enterro das flores”. Essa interpretação teve enorme impacto na imagem pública dos neandertais, pois sugeria uma forma de homenagem aos mortos, mas a hipótese continua controversa.
Pesquisas mais recentes tornaram a interpretação das flores ainda mais cautelosa. Um estudo publicado em 2023 concluiu que pelo menos parte dos agrupamentos de pólen provavelmente foi produzida por abelhas solitárias que transportavam material vegetal para seus ninhos, embora os pesquisadores não descartem completamente outros mecanismos. Assim, o chamado “enterro das flores” não pode ser apresentado como uma cerimônia comprovada. O dado mais sólido de Shanidar é a existência de um agrupamento incomum de restos neandertais e de evidências de deposição deliberada de alguns corpos.
As novas escavações de Shanidar acrescentaram outro elemento importante. Entre 2015 e 2019, pesquisadores encontraram restos articulados de um novo indivíduo, conhecido como Shanidar Z, próximo à região onde haviam sido encontrados os esqueletos estudados por Solecki. A posição do corpo e a configuração dos sedimentos indicam que ele foi colocado em uma depressão e posteriormente coberto, reforçando a importância da caverna para o estudo das práticas mortuárias neandertais.
O significado de Shanidar, portanto, não depende necessariamente das flores. A possibilidade de diferentes indivíduos terem sido colocados deliberadamente em uma mesma área levanta uma questão mais ampla: alguns grupos neandertais poderiam ter retornado a determinados lugares para lidar com seus mortos. O próprio projeto arqueológico da Universidade de Cambridge sobre Shanidar considera essa possibilidade uma das questões centrais para compreender a relação entre os neandertais, seus mortos e determinados espaços da paisagem.
Enterrar os mortos significava realizar rituais?
A resposta mais prudente é que não sabemos quais rituais, se algum, acompanhavam os enterramentos. A arqueologia permite identificar ações como cavar uma depressão, posicionar um cadáver e cobri-lo com sedimentos, mas não permite determinar automaticamente a intenção simbólica por trás dessas ações. Tampouco existe evidência suficiente para afirmar que todos os grupos neandertais enterravam seus mortos ou que havia uma tradição funerária uniforme entre populações geograficamente distantes.
Também é inadequado imaginar esses sepultamentos como versões primitivas de funerais modernos. Não há evidência segura de discursos, cerimônias coletivas, orações, crenças em uma vida após a morte ou sistemas religiosos associados às sepulturas neandertais. Mesmo quando aparecem elementos potencialmente simbólicos, como pigmentos ou restos vegetais, suas funções podem ter explicações alternativas. A principal conclusão arqueológica é mais restrita e, justamente por isso, mais sólida: alguns neandertais trataram deliberadamente os corpos de seus mortos e, em certos casos, alteraram o espaço para recebê-los.
Há ainda uma questão importante: o enterramento não parece ter sido necessariamente a única forma de lidar com os mortos. O registro arqueológico neandertal apresenta situações diferentes, algumas delas difíceis de interpretar e sujeitas a debates sobre processos naturais, ação de carnívoros, fragmentação e manipulação dos ossos. Isso significa que o comportamento mortuário provavelmente era mais variado do que a imagem popular do neandertal colocando cuidadosamente cada morto em uma cova.
Uma característica particularmente intrigante é que alguns sepultamentos envolvem crianças. O caso de La Ferrassie 8 é importante justamente porque a criança de aproximadamente dois anos parece ter sido colocada em uma cova deliberadamente preparada. A presença de indivíduos muito jovens entre os possíveis enterramentos mostra que a prática, quando ocorreu, não estava necessariamente restrita a adultos. O achado também reforça a dificuldade de interpretar emocionalmente essas ações: a arqueologia demonstra o tratamento dado ao corpo, mas não consegue recuperar diretamente os sentimentos dos sobreviventes.
Uma descoberta curiosa ajuda a explicar por que o debate sobre os neandertais continua tão aberto: em Shanidar, os pesquisadores encontraram fragmentos de madeira associados ao corpo de Shanidar Z, inclusive dentro da região correspondente à cavidade corporal. Esse material pode ser compatível com a presença de vegetação junto ao morto, mas os próprios pesquisadores ressaltam que a evidência não permite afirmar que plantas tenham sido colocadas ali como parte de um ritual.
