Carlota Joaquina: verdade e lenda sobre lascívia

Carlota Joaquina ficou conhecida como esposa infiel e devassa de Dom João VI, mas historiadores mostram que boa parte dessa imagem nasceu de disputas políticas, não de fatos comprovados

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Carlota Joaquina não deixou provas documentais de que tenha sido sexualmente promíscua, e a “traição” mais bem documentada contra Dom João VI foi política, não conjugal. A historiadora Francisca Nogueira de Azevedo, professora e autora de “Carlota Joaquina na Corte do Brasil” (Civilização Brasileira, 2003), mostra que o episódio central chamado de traição pela historiografia tradicional foi a Conspiração do Alfeite, de 1806. Nessa ocasião, Carlota se articulou com nobres para assumir a regência de Portugal no lugar do marido, então mergulhado em depressão.

Dom João reagiu confinando a esposa e controlando sua correspondência, castigo de natureza política, e não resposta a um adultério. A imagem da rainha lasciva, difundida por décadas em livros escolares e obras de ficção, foi construída sobretudo no século XIX. Naquele momento, o movimento liberal português precisava justificar o repúdio à monarca absolutista que se recusara a assinar a Constituição de 1822.

Nascida em 25 de abril de 1775 no Palácio Real de Aranjuez, na Espanha, Carlota Joaquina era filha primogênita do rei Carlos IV e da rainha Maria Luísa de Parma, ambos da dinastia Bourbon. Aos dez anos, em 8 de maio de 1785, casou-se por acordo diplomático com o príncipe português Dom João, então com dezoito anos, futuro Dom João VI, união pensada para reforçar a aliança entre as coroas ibéricas. O casal teve nove filhos, entre eles Dom Pedro I, que se tornaria o primeiro imperador do Brasil em 1822, mas o relacionamento nunca foi harmonioso, marcado por longos períodos de separação e desconfiança mútua desde os primeiros anos de matrimônio.

A Conspiração do Alfeite e o significado real da “traição”

A convivência entre Carlota e Dom João se deteriorou de forma decisiva depois de 1792, quando ele assumiu a regência de Portugal em razão da incapacidade mental da mãe, a rainha Dona Maria I. Nesse contexto, formaram-se na corte lisboeta duas facções rivais, uma de orientação francófila e outra ligada aos interesses britânicos. Carlota passou a atuar como figura política independente, negociando diretamente com embaixadores estrangeiros, atuação incomum para uma princesa consorte no início do século XIX.

Em 1806, Dom João atravessou um episódio grave de melancolia, hoje descrito por historiadores como quadro depressivo, agravado pela pressão de equilibrar as exigências da França napoleônica e da Inglaterra sobre Portugal. Diante desse afastamento do regente, Carlota Joaquina articulou-se com um grupo de nobres favoráveis à França para que ela assumisse a regência do reino em lugar do marido, movimento conhecido como Conspiração do Alfeite. Foi essa tentativa de tomar o poder político, e não um caso extraconjugal, que a tradição popular posteriormente resumiu, de forma imprecisa, como a grande traição de Carlota contra Dom João.

A confusão entre traição política e traição conjugal ajudou a consolidar, ao longo do século XIX, a lenda da esposa devassa. Era mais fácil para os cronistas da época atribuir o rompimento do casal a um vício moral feminino do que reconhecer uma disputa de poder entre marido e mulher. Documentos e cartas pessoais analisados por Francisca Nogueira de Azevedo revelam, ao contrário, que Carlota se referia ao marido como homem bom e honesto em diversos momentos, atribuindo a discórdia do casal à influência de conselheiros palacianos.

Como surgiu a fama de mulher lasciva?

A reputação de lascívia atribuída a Carlota Joaquina apoia-se principalmente em relatos de viajantes estrangeiros e em rumores de corte, nunca sustentados por documentação primária que comprove relações extraconjugais efetivas. Parte dessa fama decorre também de descrições físicas depreciativas feitas por seus contemporâneos, que a retratavam como mulher de baixa estatura, com sequelas de varíola contraída na infância e traços considerados pouco atraentes para os padrões da época. Essas descrições alimentaram caricaturas hostis, reproduzidas por décadas em relatos e ilustrações.

A historiadora Francisca Nogueira de Azevedo observa que atribuir a Carlota qualidades associadas ao comportamento masculino, como ambição, autoritarismo e liberdade sexual, funcionava como forma de desqualificar sua atuação política real. Uma mulher que negociava diretamente com embaixadores e articulava apoios na corte transgredia o papel reservado às princesas consortes daquele período. Segundo essa leitura historiográfica, a lenda da lascívia cumpriu função semelhante à da lenda da traição: reduzir uma disputa de poder a um defeito moral individual.

A vida política de Carlota Joaquina no Brasil e a disputa pela regência espanhola

A família real portuguesa chegou ao Rio de Janeiro em 1808, fugindo das invasões napoleônicas que começaram a atingir Portugal a partir de 1807, e Carlota Joaquina viveu na colônia até 1821. Nesse período, ao saber que seu pai, Carlos IV, havia sido feito prisioneiro por Napoleão Bonaparte, ela tentou se apresentar como regente legítima dos domínios espanhóis na América do Sul, projeto que ficou conhecido como carlotismo entre os líderes políticos da região do Prata.

A iniciativa gerou forte oposição do governo português, temeroso de perder influência sobre o comércio na região, e também da diplomacia britânica, representada no Rio de Janeiro pelo embaixador Lord Strangford. Carlota chegou a obter apoio de parte da nobreza espanhola exilada e do almirante britânico Sidney Smith, mas o plano fracassou definitivamente em 1814, quando a Espanha recuperou suas colônias no Prata sem a intervenção da rainha.

Ao retornar a Portugal em 1820, em razão da Revolução Liberal do Porto, Carlota Joaquina se recusou terminantemente a jurar a nova Constituição liberal portuguesa, promulgada em 1822, posição que reforçou sua imagem de defensora inflexível do absolutismo. Ela participou ainda de conspirações posteriores contra o próprio marido, entre elas a chamada Conspiração da Rua Formosa, de 1824, na qual se aliou a nobres e religiosos para tentar forçar a abdicação de Dom João VI e revogar a Constituição, chegando a usar o filho, o infante Dom Miguel, como instrumento de suas articulações políticas.

Essa sequência de tentativas de golpe, e não qualquer episódio de infidelidade comprovada, é o que a documentação histórica registra como o padrão de comportamento mais consistente de Carlota Joaquina ao longo de sua vida adulta. Carlota Joaquina morreu em 7 de janeiro de 1830 no Palácio de Queluz, em Portugal, isolada politicamente e afastada do poder após o fracasso de suas últimas tentativas de restaurar o absolutismo.

A pesquisa de Francisca Nogueira de Azevedo, resultado de anos de análise de correspondência e documentação de arquivo, buscou reconstituir a atuação da rainha sem pretender absolvê-la de seus métodos autoritários. Ainda assim, evidencia que grande parte de sua fama negativa resultou de reinvenções do passado promovidas pelo liberalismo do século 19 para legitimar a ruptura com o modelo absolutista que ela representava.

O próprio nome batismal da rainha, que somava mais de vinte palavras conforme o costume das famílias reais ibéricas, raramente é mencionado nos relatos populares, que preferiram fixá-la para a posteridade apenas pelo apelido difamatório de rainha bigoduda, expressão que resume, em poucas palavras, a distância entre a Carlota Joaquina documentada pelos historiadores e a personagem folclórica que se popularizou no imaginário brasileiro.

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