Como falava Dom Pedro I em suas cartas?

A correspondência de Dom Pedro I mostra um português já distante do de Portugal, com pronomes como “mecê”, “lhe” e “ti”, além de linguagem afetiva e política

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Litografia de Dom Pedro I do Brasil, a mais próxima do verdadeiro rosto do imperador. Maurício José do Carmo Sendim

Dom Pedro I falava e escrevia um português já marcado por usos que hoje identificamos como brasileiros, e não pelo português de Portugal em sua forma metropolitana. Suas cartas, datadas principalmente entre 1822 e 1829, empregam formas de tratamento como “mecê” (abreviação de “vossa mercê”), “lhe”, “ti” e “te”, além de expressões afetivas e coloquiais que revelam um idioma em transformação no Brasil. O conjunto documental, preservado em instituições como a Hispanic Society of America, em Nova York, e o Museu Mariano Procópio, em Juiz de Fora (Minas Gerais), permite analisar diretamente como o imperador se comunicava.

Nascido em Lisboa em 12 de outubro de 1798, Dom Pedro I chegou ao Brasil ainda criança, em 1808, com a transferência da Corte portuguesa para o Rio de Janeiro. Cresceu em um ambiente político e cultural já distinto de Portugal, cercado por elites locais, funcionários públicos nascidos no Brasil e por uma sociedade escravista e multicultural. Esse contexto favoreceu a incorporação de traços linguísticos locais em sua fala e em sua escrita, mesmo mantendo a ortografia e o estilo epistolar próprios do português do início do século XIX.

As cartas mais conhecidas de Dom Pedro I são as trocadas com Domitila de Castro, futura Marquesa de Santos, sua amante entre 1822 e 1829. Nessas correspondências, ele usa apelidos como “O Demonão” e “Fogo Foguinho” para si mesmo, e chama Domitila de “Titília”, “meu benzinho”, “minha filha” e “meu amor”. O tom varia entre o íntimo, o apaixonado e o político, mostrando um imperador que escrevia tanto sobre sentimentos quanto sobre a “nossa cara Pátria”, como dizia em uma das missivas.

O português de Dom Pedro I nas cartas íntimas

Nas cartas à Marquesa de Santos, Dom Pedro I emprega formas de tratamento que indicam proximidade e, ao mesmo tempo, herança da tradição luso-brasileira. Ele escreve “se mecê estiver melhor”, “desejando eu que, quando mecê apareça publicamente”, e usa “lhe” como objeto indireto, como em “aceite abraços e beijos” e “lhe mando essa peça de toquinha”. Esses usos refletem um estágio intermediário entre o “vossa mercê” mais formal e o “você” que se consolidaria depois no português brasileiro.

Um trecho de carta datada de 17 de novembro de 1822, escrita em Santa Cruz (Rio de Janeiro), ilustra bem esse estilo. Dirigindo-se a “Cara Titília”, Dom Pedro I afirma: “Foi inexplicável o prazer que tive com as suas duas cartas. Tive arte de fazer saber a seu pai que estava pejada de mim (mas não lhe fale nisto) e assim persuadi-lo que a fosse buscar e a sua família, que não já de cá morrer de fome, muito especialmente o meu amor, por que estou pronto a fazer sacrifícios. Aceite abraços e beijos.” A grafia e a sintaxe são do século XIX, mas a estrutura já soa próxima do português brasileiro.

Em outra correspondência, de 12 de outubro de 1827, ele escreve: “Minha querida filha e amiga do coração. Ainda agora te respondi como Imperador, agora te escrevo como teu filho, amigo e amante a mostrar-te o quanto estou saudoso de ti, pois me lembro do ano passado em que tive a ventura de estar contigo.” Mais adiante, diz: “Minha filha, já que não posso arrancar meu coração para te mandar, recebe esses dois cabelos do meu bigode que arranquei agora mesmo para te mandar.” O uso de “ti”, “te” e “contigo” mostra uma mistura de formas que hoje parecem arcaicas, mas que eram comuns na escrita afetiva da época.

Trechos reais das cartas de Dom Pedro I

As cartas também revelam preocupações políticas misturadas à linguagem amorosa. Em uma delas, Dom Pedro I comenta: “Cumprindo com o prometido, e com os deveres não só de amante, mas até de amigo: lhe dou parte que passei bem; mas sonhei alguns sonhos que me mortificaram, todos relativos à nossa cara Pátria, à qual desejamos sumas venturas.” A expressão “nossa cara Pátria” indica que ele já se via como parte do Brasil, e não apenas como príncipe português enviado para governar uma colônia.

Há ainda passagens de tom explicitamente sensual, que mostram a intimidade do casal. Em uma das missivas, ele escreve: “Ontem mesmo fiz amor de matrimônio para que hoje, se mecê estiver melhor e com disposição, fazer o nosso amor por devoção. Aceite, meu benzinho, meu amor, meu encanto e meu tudo, o coração constante. Deste seu fiel amante.” Outra carta traz: “Até à noite, que conversaremos, e nos apalparemos por dentro e por fora.” Esses trechos, publicados no livro “Titília e o Demonão”, organizado pelo pesquisador Paulo Rezzutti, ajudam a entender a linguagem direta e afetiva usada por Dom Pedro I.

Do português de Portugal ao português brasileiro

O português usado por Dom Pedro I não era idêntico ao falado em Portugal no mesmo período. Estudos sobre cartas manuscritas do século XIX no Brasil apontam fenômenos como variação entre “tu” e “você”, uso de “lhe” como objeto direto em alguns contextos, e formas abreviadas de tratamento como “mecê” e “vosmecê”. Pesquisas sobre o português brasileiro oitocentista, baseadas em correspondências de elites locais e até de membros da família imperial, indicam que já existia uma norma escrita própria, com características sintáticas e ortográficas distintas das de Portugal.

Nas cartas de Dom Pedro I, observa-se essa mistura: ele mantém a ortografia da época, com grafias como “mecê”, “pejada”, “venturas”, e “coração”, mas a construção das frases e o uso de pronomes já apontam para um português em processo de diferenciação. O imperador escreve “estou saudoso de ti”, “te escrevo”, “mostrar-te”, mas também usa “lhe” em contextos em que o português europeu tenderia a outras construções. Essa variação é típica do português brasileiro do século XIX, conforme mostram análises linguísticas de cartas pessoais e documentos oficiais do período.

Além disso, Dom Pedro I emprega expressões que refletem o ambiente brasileiro, como referências à “Pátria” brasileira e a pessoas e lugares do Rio de Janeiro, de São Paulo e de outras províncias. Suas cartas não são apenas documentos privados, mas também registros de um projeto político que envolvia a construção de um Império no Brasil. A linguagem afetiva e política, portanto, caminha junta, revelando um imperador que falava e escrevia já como parte de uma sociedade distinta de Portugal.

Cartas políticas e linguagem de governo

Dom Pedro I também escreveu cartas oficiais e políticas, dirigidas a seu pai, Dom João VI, rei de Portugal, e a outras autoridades. Um conjunto de 36 cartas, publicado em Lisboa sob ordem das Cortes Gerais, reúne correspondências enviadas por Dom Pedro entre 1821 e 1822, quando ainda era príncipe real. Nessas missivas, ele informa o pai sobre a evolução dos acontecimentos no Brasil e argumenta, de forma respeitosa, em favor da emancipação política. A última delas, de 23 de outubro de 1822, comunica que havia sido aclamado “Imperador Constitucional e Defensor Perpétuo” pelo “leal povo” brasileiro.

Nessas cartas políticas, o tom é mais formal, mas ainda assim é possível notar traços do português usado no Brasil. Dom Pedro I escreve com clareza, expõe fatos e defende posições, sem recorrer a um estilo excessivamente rebuscado. A correspondência mostra um estrategista político de apenas 23 anos, que usa a língua como instrumento de negociação e de afirmação de autoridade. O acervo é considerado raro, com poucos exemplares preservados em coleções públicas brasileiras e em instituições como a Biblioteca Nacional de Lisboa.

A linguagem dessas cartas oficiais contrasta com a das missivas íntimas à Marquesa de Santos, mas ambas revelam o mesmo falante: um imperador que dominava registros diferentes conforme o destinatário e a situação. Nas cartas políticas, predominam formas de tratamento mais cerimoniosas e uma sintaxe mais próxima da tradição administrativa luso-brasileira. Nas cartas amorosas, aparecem abreviações, apelidos e construções mais diretas, que aproximam o texto da fala cotidiana das elites brasileiras do início do século XIX.

Uma curiosidade linguística ligada a Dom Pedro I é que ele próprio registrou, em carta de 23 de setembro de 1834, escrita na véspera de sua morte, o desejo de que seu coração fosse enviado ao Porto, em Portugal, enquanto o resto do corpo ficasse no Brasil. Nesse documento, ele usa expressões como “meu coração” e “minha adorada esposa a Imperatriz”, mostrando que, mesmo perto do fim da vida, mantinha um estilo afetivo e direto. O texto, preservado e estudado por historiadores, confirma que Dom Pedro I continuou a escrever em um português já marcadamente brasileiro, mesmo em momentos solenes e decisivos.

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