Por que Dom Pedro I nunca mais voltou ao Brasil?

Herdeiro dos tronos do Brasil e de Portugal, Dom Pedro I trocou o Rio de Janeiro pela guerra civil portuguesa e morreu sem rever o país que ajudou a libertar

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Retrato do Rei D. Pedro IV de Portugal, que foi também o Imperador Pedro I do Brasil; Escola portuguesa do século XIX.

Dom Pedro I retornou a Portugal em 1832 não para assumir um trono que ainda não tivesse, mas para defender a coroa que já pertencia à sua filha, Dona Maria da Glória. Ele havia herdado o trono português em 10 de março de 1826, com a morte do pai, Dom João VI, tornando-se Pedro IV sem nunca ter pisado em solo europeu naquele momento. Semanas depois, em 2 de maio de 1826, abdicou dessa coroa em favor da filha, então com sete anos, justamente para poder permanecer como imperador do Brasil. A viagem de 1832 teve um propósito distinto: expulsar o irmão Dom Miguel, que usurpara o trono de Maria II em 1828.

Essa mudança de rumo teve origem em uma crise interna. Em 7 de abril de 1831, pressionado por revoltas populares no Rio de Janeiro e pelo desgaste político dos anos anteriores, Dom Pedro I abdicou do trono brasileiro em favor do filho de cinco anos, que se tornaria Dom Pedro II. Na mesma semana, embarcou para a Europa acompanhado da segunda esposa, Amélia de Leuchtenberg, e da filha Maria da Glória, decidido a recuperar para ela o trono português.

Dom Pedro I jamais voltou ao Brasil depois dessa partida. Ele morreu em 24 de setembro de 1834, no Palácio de Queluz, o mesmo local onde nascera, vítima de tuberculose agravada pelas condições do cerco militar que enfrentara em Portugal. Tinha apenas 35 anos e havia governado o Brasil por menos de nove anos completos. A separação entre as duas coroas, que ele tanto temia ver reunidas em uma só pessoa, tornou-se definitiva com sua morte.

A abdicação de 1826 e o título de Pedro IV sem trono ocupado

O episódio de 1826 explica a confusão em torno da data em que Dom Pedro I teria “assumido” o trono português. Ao herdar a coroa, ele publicou a Carta Constitucional da Monarquia Portuguesa, documento que substituía a Constituição liberal de 1822 e servia de base legal para a abdicação. Essa abdicação foi condicionada a três exigências: a aceitação da Carta pelo país, o compromisso do irmão Dom Miguel com o novo texto e o casamento deste com Maria da Glória. A publicação oficial só ocorreu em 12 de julho de 1826, no Diário do Governo de Lisboa.

O acordo desmoronou dois anos depois. Dom Miguel jurou fidelidade à Carta ainda em Viena, em 1826, e assumiu a regência em Portugal em fevereiro de 1828, mas rompeu o compromisso poucos meses depois: proclamou-se rei absoluto e afastou a sobrinha e noiva do trono. Maria da Glória, que já viajava rumo à Europa para ser coroada, viu-se obrigada a buscar refúgio em Londres. Esse rompimento abriu caminho para a Guerra Civil Portuguesa, também chamada de Guerra dos Dois Irmãos.

O retorno de Dom Pedro I e a guerra pelo trono da filha

Depois de deixar o Brasil, Dom Pedro I organizou na França e nos Açores uma força expedicionária liberal, com apoio de voluntários portugueses, britânicos e franceses. A expedição partiu da ilha Terceira e desembarcou na praia do Mindelo, próxima ao Porto, em 8 de julho de 1832. Dali começou o avanço sobre a cidade, que se tornaria o centro de resistência liberal contra o governo absolutista de Dom Miguel.

O Porto resistiu a um cerco de treze meses, entre julho de 1832 e agosto de 1833, período em que Dom Pedro viveu na cidade e comandou pessoalmente a defesa. Superado o cerco, uma divisão liberal avançou por mar e tomou Lisboa em julho de 1833, permitindo que a causa de Maria II se consolidasse na capital. A guerra só terminou em maio de 1834, com a Concessão de Évora Monte, que forçou o exílio de Dom Miguel.

Por que ele não voltou a reinar como Pedro IV?

Durante toda essa campanha, Dom Pedro I nunca voltou a ocupar formalmente o trono português. Como já havia abdicado em 1826, ele conduziu a guerra sob o título de Duque de Bragança e, em 30 de agosto de 1834, com a vitória liberal já consolidada, jurou fidelidade à Carta Constitucional na qualidade de regente em nome de Maria II, conforme registra a cronologia histórica preservada pelo Palácio Nacional de Queluz. Essa distinção desfaz uma confusão comum: Dom Pedro I não retornou a Portugal para “se tornar” Pedro IV, pois já detinha esse título havia seis anos; retornou para garantir que a filha, e não o irmão, exercesse de fato o poder.

O que Dom Pedro I dizia sobre o Brasil enquanto vivia em Portugal?

Historiadores descrevem os anos finais de Dom Pedro I como marcados por um distanciamento prático do Brasil, embora não por indiferença. Ele nunca tentou reivindicar de volta o trono brasileiro, nem interferir no governo do filho, o menino Dom Pedro II, deixado sob regência no Rio de Janeiro. Essa postura reforçava, na prática, o que o Tratado do Rio de Janeiro já havia estabelecido em 29 de agosto de 1825: o reconhecimento da independência brasileira por Portugal e a separação entre as duas coroas. A historiadora Lucia Maria Bastos Pereira das Neves, professora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, descreve Dom Pedro I como uma figura contraditória, tratada como libertador em Portugal e avaliada de modo bem mais crítico no Brasil.

Correspondências e relatos de época mostram que Dom Pedro I acompanhava notícias vindas do Brasil, ainda que sua energia política estivesse voltada quase inteiramente para a guerra civil portuguesa. Ele seguia à distância a instabilidade do período regencial brasileiro, iniciado após sua abdicação, mas evitava qualquer gesto que pudesse ser interpretado como tentativa de recuperar influência sobre o antigo império. Essa escolha ajudou a consolidar o Brasil como Estado separado de Portugal, encerrando o temor de reunificação das coroas que acompanhava o processo de independência desde 1822.

O apego de Dom Pedro I às duas pátrias ficou registrado também em seu testamento, redigido nos últimos meses de vida, quando a tuberculose já avançava rapidamente. Ele determinou que o corpo fosse sepultado em Portugal, mas reservou uma disposição especial para o próprio coração, símbolo do vínculo afetivo mantido mesmo depois de deixar o Brasil em 1831. Esse gesto seria interpretado, décadas mais tarde, como síntese de uma vida dividida entre duas nações que ele ajudou a moldar politicamente.

A curiosidade histórica está justamente nesse desfecho: o coração de Dom Pedro I nunca deixou Portugal. Por vontade expressa em testamento, o órgão foi doado à cidade do Porto, em agradecimento ao apoio popular recebido durante o cerco de 1832 e 1833, e permanece guardado desde a morte do imperador, em 1834, na Igreja de Nossa Senhora da Lapa. O corpo, ao contrário, só foi trasladado ao Brasil em 1972, no sesquicentenário da independência, e hoje repousa no Monumento à Independência, em São Paulo, junto ao riacho do Ipiranga, onde a separação entre as duas coroas havia começado, em 1822.

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