Cesare Borgia: de cardeal a duque de Valentinois

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Cesare orgia (Bartolomeo Veneto) - Domínio Público

Cesare Borgia se tornou Duque de Valentinois em 17 de agosto de 1498, quando o rei Luís XII, da França, lhe concedeu o título no mesmo dia em que ele renunciou ao cardinalato perante o consistório em Roma. Sim, Cesare foi cardeal: recebeu o barrete vermelho aos dezoito anos, em 1493, logo após seu pai, Rodrigo Borgia, ser eleito papa com o nome de Alexandre VI. A renúncia ao posto eclesiástico foi inédita na história da Igreja Católica até aquele momento, e abriu caminho para que Cesare se tornasse comandante militar e senhor territorial na Itália central. Sua ascensão dependeu diretamente do apoio político e financeiro do pai, que via no filho o instrumento ideal para expandir o domínio direto do papado sobre os Estados Pontifícios.

A relação entre Cesare e Alexandre VI foi de aliança estreita e conveniência mútua, marcada por nepotismo declarado. O papa nomeou Cesare arcebispo de Valência em 1492, aos dezessete anos, mesmo sem qualquer vocação religiosa evidente no filho, e usou recursos da Igreja para financiar suas campanhas militares posteriores. Em troca, Cesare funcionava como o braço armado da política papal, executando ordens que consolidavam o poder da família Bórgia na Itália fragmentada do fim do século XV.

O caminho até o ducado francês passou por uma tragédia familiar decisiva: o assassinato de Juan Borgia, duque de Gandia e irmão mais novo de Cesare, em junho de 1497, em Roma. Cronistas contemporâneos apontaram suspeitas sobre a participação de Cesare no crime, embora nenhuma prova documental tenha confirmado sua autoria de forma definitiva, e historiadores modernos tratam essa acusação como hipótese plausível, não como fato comprovado. Com a morte de Juan, que até então era o herdeiro militar da família, o caminho para uma carreira secular se abriu para Cesare.

Como Cesare Borgia deixou o cardinalato e recebeu o ducado francês

Em 17 de agosto de 1498, Cesare pediu formalmente ao colégio de cardeais e ao próprio pai permissão para renunciar ao cardinalato, alegando que sua vocação nunca fora religiosa. Alexandre VI concedeu a renúncia “pelo bem de sua alma”, segundo o registro dos cronistas do período, e no mesmo dia o embaixador francês comunicou a decisão do rei Luís XII de conceder a Cesare o título de Duque de Valentinois, região no sudeste da França. Esse gesto fazia parte de um acordo diplomático maior: Alexandre VI havia autorizado a anulação do primeiro casamento de Luís XII com Joana de França, permitindo que o rei se casasse com Ana da Bretanha, e Cesare viajou à França em outubro de 1498 justamente para entregar a bula de anulação.

Em troca do favor papal, Luís XII ofereceu a Cesare tropas francesas e apoio militar direto, além do título ducal que lhe deu o apelido pelo qual ficou conhecido, “Valentino”. Em maio de 1499, Cesare consolidou a aliança com a coroa francesa ao se casar com Carlota d’Albret, irmã do rei João III de Navarra, união que reforçou sua posição na nobreza europeia. A partir desse casamento, Cesare passou a contar com recursos militares suficientes para iniciar a campanha que lhe renderia o controle direto de território italiano.

Com o apoio de tropas francesas, suíças e italianas, Cesare iniciou em 1499 a conquista da região da Romanha, no norte da Itália, sob pretexto de que os senhores locais haviam deixado de pagar tributos à Santa Sé. Cidades como Imola, Forlì, Pesaro, Rimini e Faenza caíram sob seu controle entre 1499 e 1501, processo no qual Cesare enfrentou resistência notável de Caterina Sforza, senhora de Forlì, capturada após um cerco prolongado. Em 1501, o papa Alexandre VI formalizou essas conquistas, concedendo a Cesare o título de Duque da Romanha, ampliando ainda mais seu domínio territorial direto.

O acúmulo de poder territorial e militar na Itália central

Cesare consolidou seu poder não apenas pela força militar, mas também por meio de alianças calculadas e da eliminação sistemática de rivais internos. O episódio mais conhecido dessa estratégia ocorreu em 31 de dezembro de 1502, na cidade de Senigallia, quando Cesare atraiu vários condottieri que haviam conspirado contra ele meses antes, entre eles Vitellozzo Vitelli e Paolo Orsini, e ordenou sua execução imediata. O historiador florentino Niccolò Machiavelli, que testemunhou parte desses eventos como diplomata da República de Florença, descreveu o episódio em sua obra “O Príncipe”, publicada postumamente em 1532, como exemplo de habilidade política calculada.

A administração da Romagna e o modelo de governo de Cesare Borgia

Diferentemente de muitos senhores italianos da época, Cesare investiu na organização administrativa dos territórios conquistados na Romanha. Ele nomeou Remirro de Orco como governador da região com a missão de impor ordem e segurança, tarefa que Remirro cumpriu com métodos extremamente violentos. Em dezembro de 1502, para desviar o descontentamento popular sobre esses métodos, Cesare ordenou a execução pública de Remirro em Cesena, atribuindo a ele toda a responsabilidade pela repressão anterior. Machiavelli citou esse episódio como exemplo de como um governante podia transferir a culpa por medidas impopulares a um subordinado, mantendo sua própria reputação intacta perante a população.

O modelo de governo instaurado por Cesare na Romagna incluía também a criação de tribunais civis e a padronização de impostos, medidas que, segundo historiadores como Sarah Bradford, biógrafa do Bórgia, buscavam construir uma base administrativa sólida para um futuro Estado unificado sob seu comando direto. Essa ambição, no entanto, dependia inteiramente da proteção contínua do papado, condição que se revelaria a maior fragilidade de todo o projeto político de Cesare.

Por que o poder de Cesare Borgia desabou após a morte do papa Alexandre VI?

Em 18 de agosto de 1503, o papa Alexandre VI morreu em Roma, oficialmente de febre, embora rumores da época sugerissem envenenamento, hipótese que a historiografia atual considera improvável e não comprovada. Cesare também adoeceu gravemente na mesma ocasião, o que o impediu de agir rapidamente durante o conclave seguinte e de proteger seus interesses políticos no momento decisivo da sucessão papal. Sem o apoio direto do pai, Cesare perdeu progressivamente o controle sobre boa parte dos territórios conquistados na Romanha.

A eleição do papa Júlio II, em outubro de 1503, antigo rival da família Bórgia, selou o declínio definitivo de Cesare. Júlio II ordenou sua prisão e, depois de negociações, permitiu que fosse enviado à Espanha, onde ficou preso no castelo de La Mota, em Medina del Campo, entre 1504 e 1506. Cesare escapou da prisão em outubro de 1506 e refugiou-se na corte do rei João III de Navarra, seu cunhado, onde retomou a carreira militar a serviço da coroa navarra.

Em 12 de março de 1507, durante o cerco ao castelo de Viana, na Navarra, ele avançou sozinho, sem reforços, para perseguir um pequeno grupo de soldados inimigos em retirada e acabou emboscado por uma tropa maior escondida atrás de uma colina. Seu corpo foi encontrado nu e coberto de mais de vinte ferimentos, pois os soldados adversários haviam retirado suas roupas e armadura como espólio de guerra antes de reconhecer quem realmente haviam matado. Cesare foi sepultado inicialmente diante do altar-mor da igreja de Santa María, em Viana, mas um bispo local mandou destruir esse túmulo décadas depois, por considerar indigno homenagear um homem de reputação tão violenta, e seus ossos passaram séculos enterrados sob a rua em frente ao templo. Somente em 2007, no quinhentenário de sua morte, os restos mortais de Cesare Borgia foram recolocados em solo consagrado dentro da própria igreja de Viana.

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