As cartas da rainha Vitória: o que elas revelam?

A rainha Vitória escreveu milhares de cartas e páginas de diário ao longo do reinado. Depois de sua morte, parte desse material foi editada ou destruída pela própria família real

HiperHistória
Franz Xaver Winterhalter: Rainha Vitória em vestes de coroação - Domínio Público

As cartas da rainha Vitória revelam uma mulher bem diferente da imagem austera associada ao seu nome: apaixonada pelo marido, o príncipe Albert, enlutada de forma obsessiva após a morte dele, em 1861, e ligada por décadas a dois homens de origem humilde, o escocês John Brown e o indiano Abdul Karim, cujas correspondências a família real tentou apagar da história. Vitória escreveu, em média, cerca de 2.500 palavras por dia ao longo da vida adulta, somando cartas pessoais, correspondência oficial e um diário mantido por quase setenta anos. Esse volume de registros escritos transformou a rainha em uma das figuras históricas mais documentadas do século XIX, mas também na mais editada, já que boa parte do que ela escreveu foi reescrita ou destruída depois de sua morte, em 1901.

É preciso diferenciar dois tipos de fontes ao falar da produção escrita de Vitória: as cartas, trocadas com familiares, ministros e conselheiros, e os diários pessoais, iniciados em 1832, quando ela tinha treze anos, e mantidos quase diariamente até poucos dias antes de morrer. Os diários somaram 122 volumes originais, segundo o levantamento do Royal Archives, o arquivo oficial da família real britânica em Windsor, onde a maior parte desse material está preservada. Historiadores como Yvonne Ward, autora de estudos sobre a edição póstuma dos escritos de Vitória, apontam que a distinção entre o que a rainha realmente escreveu e o que sobreviveu ao processo editorial posterior é essencial para qualquer leitura confiável dessas fontes.

Vitória reinou de 1837 a 1901, período de 63 anos e sete meses que ficou conhecido como era vitoriana e que, até ser superado pelo reinado de Elizabeth II em 2015, foi o mais longo da história britânica. Ao longo desse período de expansão industrial e colonial do Império Britânico, a rainha manteve uma produção escrita tão extensa que grande parte da vida cotidiana da corte britânica do século XIX pode ser reconstruída a partir de seus próprios registros, hoje espalhados entre o Royal Archives, a Bodleian Library da Universidade de Oxford e coleções particulares na Alemanha e na Índia.

O que os diários e cartas revelam sobre a vida íntima da rainha Vitória

Nos primeiros anos de diário, a partir de 1832, Vitória registrava a rotina, os estudos e, após o casamento com o príncipe Albert da Saxe-Coburgo-Gota em 1840, a vida conjugal com uma franqueza pouco esperada de uma monarca da época; numa entrada de fevereiro de 1840, ela descreveu com entusiasmo cenas domésticas do casamento, como assistir Albert se barbear. Trechos desses diários foram publicados ainda em vida da rainha no livro “Leaves from the Journal of Our Life in the Highlands”, de 1868, que vendeu cerca de vinte mil exemplares na primeira edição e reforçou sua imagem pública de mãe devotada à vida no campo escocês.

A morte do príncipe Albert, em 14 de dezembro de 1861, vítima de febre tifoide, transformou tanto o conteúdo quanto o tom dos escritos de Vitória: suas cartas e diários passaram a registrar um luto que se estenderia pelas quatro décadas seguintes, período em que ela evitou aparições públicas, vestiu preto até o fim da vida e chegou a ser chamada, em correspondências da própria família, de “Viúva de Windsor“. Segundo registros do Royal Archives, a rainha mandou preparar diariamente as roupas e os utensílios de barbear de Albert por anos após a morte dele, hábito documentado tanto em cartas de familiares quanto em relatos de criados da casa real.

Foi nesse contexto de luto prolongado que Vitória aproximou-se de John Brown, criado escocês que se tornara seu assistente pessoal em Balmoral, na Escócia, e cuja proximidade com a rainha gerou tanta especulação na corte que alguns cortesãos chegaram a apelidá-la, em tom crítico, de “Sra. Brown”. Grande parte das referências a Brown nos diários de Vitória foi eliminada ou reescrita pela princesa Beatrice, filha caçula da rainha, responsável por transcrever e editar o material após a morte da mãe, o que impede hoje reconstruir com precisão documental a natureza exata dessa relação.

As cartas entre Vitória e a filha Vicky revelam opiniões políticas e familiares

A correspondência mais extensa e mais estudada de Vitória foi mantida com sua filha mais velha, a princesa Victoria, apelidada de “Vicky”, que se casou em 1858 com o príncipe Frederico da Prússia e passou a viver em Berlim como princesa herdeira prussiana. Mãe e filha trocaram cartas em média duas vezes por semana ao longo de 43 anos, num total estimado em até oito mil cartas, nas quais Vitória comentava desde política externa até criação dos netos, revelando opiniões pessoais que jamais apareceriam em documentos oficiais, como sua reprovação à expansão colonial britânica e seu desconforto ao usar o diamante Koh-i-Noor em ocasiões públicas.

A publicação póstuma das cartas e o papel dos editores históricos

Depois da morte de Vitória, cartas trocadas com Vicky foram organizadas em volumes como “Dearest Child” (1858-1861), “Dearest Mama” (1861-1864), “Your Dear Letter” (1865-1871) e “Beloved Mama” (1878-1885), seleções de uma correspondência que, no total, ocupa sessenta volumes em arquivos britânicos e alemães. Em paralelo, a correspondência oficial e política da rainha foi organizada por Arthur Christopher Benson e pelo Visconde Esher em “The Letters of Queen Victoria”, publicada em 1907 em três volumes sobre o período de 1837 a 1861, ainda hoje uma das principais fontes primárias sobre o início do reinado.

Em 2012, no Jubileu de Diamante de Elizabeth II, os 122 volumes dos diários de Vitória foram digitalizados pelo Royal Archives com a Bodleian Libraries de Oxford e disponibilizados on-line; o acesso, inicialmente gratuito e mundial, ficou restrito a usuários no Reino Unido a partir de 2013. Essa digitalização permitiu que pesquisadores comparassem, pela primeira vez em escala ampla, os poucos originais sobreviventes com as versões copiadas por Beatrice, expondo com mais clareza a extensão das alterações feitas pela princesa no material da mãe.

O escândalo revelado pelas cartas entre Vitória e Abdul Karim

A partir de 1887, ano do Jubileu de Ouro de Vitória como rainha havia cinquenta anos no trono, a soberana passou a manter correspondência regular com Abdul Karim, atendente indiano contratado inicialmente para servir à mesa e depois promovido a secretário pessoal para assuntos ligados à Índia, título de “munshi”, palavra de origem persa que significa professor ou escrivão. A proximidade entre os dois, que incluía aulas diárias de língua urdu dadas por Karim à rainha, gerou tamanho desconforto entre os cortesãos que a imprensa da época cunhou o termo “munshimania” para descrever o ressentimento da corte britânica em relação ao favoritismo demonstrado por Vitória.

Após a morte de Vitória, em 22 de janeiro de 1901, seu filho e sucessor, o rei Eduardo VII, ordenou que a casa de Karim fosse revistada e que todas as cartas trocadas entre ele e a falecida rainha fossem confiscadas e queimadas, enquanto a princesa Beatrice eliminava do diário materno praticamente todas as referências ao indiano. Apesar dessa destruição sistemática, algumas cartas de Vitória sobreviveram em posse da família de Karim na Índia, junto com um diário pessoal escrito pelo próprio munshi, documentos que permaneceram desconhecidos do público até serem localizados pela historiadora Shrabani Basu, que os usou como base para reconstruir essa relação em pesquisa publicada em 2010.

Uma curiosidade histórica pouco conhecida sobre as cartas da rainha Vitória é que o diário de Abdul Karim, justamente por ter escapado da destruição ordenada por Eduardo VII, tornou-se hoje uma das poucas fontes que registram o ponto de vista do lado indiano dessa correspondência quase inteiramente perdida; nele, Karim descreveu com detalhes as lições de urdu, os presentes recebidos da rainha e até conselhos pessoais que ela lhe deu sobre a vida de casado, um contraponto raro aos relatos da corte britânica, que sempre descreveram Karim de forma desfavorável após sua expulsão do país em 1901.

Seguir:
HiperHistória revive os fatos mais importantes da história, um verdadeiro museu virtual das grandes curiosidades do presente e do passado.
Nenhum comentário