Onde foram sepultados Luís XVI e Maria Antonieta?

Executados na Revolução Francesa, Luís XVI e Maria Antonieta tiveram os corpos jogados em vala comum antes de serem reabilitados por Luís XVIII em 1815

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Luís XVI e Maria Antonieta foram sepultados, logo após a execução, em uma vala comum no cemitério da Madeleine, em Paris, coberta com cal virgem para acelerar a decomposição dos corpos. Não houve caixão identificado nem qualquer marca de sepultura: a intenção revolucionária era apagar o caráter sagrado da realeza francesa, e não apenas eliminar fisicamente o casal real. Apenas 22 anos depois, em 1815, seus restos foram localizados e transferidos, com honras de Estado, para a Basílica de Saint-Denis, a necrópole tradicional dos reis da França. O destino do filho mais novo do casal, o delfim Luís Carlos, seguiu um caminho ainda mais obscuro, resolvido somente em 2000 por meio de exame de DNA.

Luís XVI foi condenado à morte pela Convenção Nacional após ser considerado culpado de traição, acusação agravada pela fracassada fuga da família real para Varennes em 1791. Ele foi guilhotinado em 21 de janeiro de 1793, na Praça da Revolução, atual Praça da Concórdia, em Paris, no auge do processo revolucionário que aboliu a monarquia francesa em 1792. Maria Antonieta, arquiduquesa austríaca da Casa de Habsburgo-Lorena e rainha consorte da França desde 1774, foi julgada pelo Tribunal Revolucionário e executada no mesmo local em 16 de outubro de 1793, após um julgamento de apenas dois dias.

Ambos foram enterrados separadamente no pequeno cemitério paroquial da Madeleine, situado perto do local das execuções e desativado em 1794. Sem qualquer identificação visível, as sepulturas do rei e da rainha só puderam ser localizadas décadas depois graças à memória de um único morador da região. Esse detalhe explica por que grande parte do público da época considerava os corpos reais praticamente desaparecidos, mesmo sem terem sido escondidos por um plano deliberado de ocultação.

A exumação dos corpos e o traslado para a Basílica de Saint-Denis em 1815

Com a queda de Napoleão Bonaparte e a Restauração da monarquia em 1814, o irmão de Luís XVI, o conde de Provença, assumiu o trono como Luís XVIII e determinou a localização dos restos mortais do casal real. O advogado Pierre-Louis Olivier Desclozeaux, que morava na rue d’Anjou desde a época dos sepultamentos, guardava a lembrança exata do local da vala comum e conduziu pessoalmente as escavações de janeiro de 1815. Os restos de Maria Antonieta foram encontrados em 18 de janeiro, com o crânio ainda reconhecível; os de Luís XVI, no dia seguinte.

Em 21 de janeiro de 1815, data que marcava o vigésimo segundo aniversário da execução do rei, uma procissão solene levou os dois corpos até a Basílica de Saint-Denis, ao norte de Paris, onde a maioria dos monarcas franceses é sepultada desde o século VI. Luís XVIII também mandou erguer, no antigo terreno do cemitério da Madeleine, a Capela Expiatória, projetada pelo arquiteto Pierre-François-Léonard Fontaine e concluída em 1826, para marcar de forma permanente o local do primeiro sepultamento. Como quase todos os outros túmulos reais de Saint-Denis haviam sido violados e esvaziados por ordem da Convenção Nacional em 1793, historiadores apontam que os jazigos de Luís XVI, Maria Antonieta e do próprio Luís XVIII, morto em 1824, estão entre os poucos da basílica que realmente guardam os corpos originais.

O mistério do delfim Luís XVII e o coração escondido por décadas

O filho mais novo do casal, Luís Carlos, nascido em Versalhes em 1785, foi reconhecido pelos monarquistas como Luís XVII após a morte do pai, embora jamais tenha exercido qualquer poder real. Mantido isolado na Torre do Templo, em Paris, ele morreu em 8 de junho de 1795, aos dez anos, oficialmente de tuberculose agravada por desnutrição e maus-tratos durante o cativeiro. Seu corpo foi enterrado sem identificação, dois dias depois, em uma vala comum do cemitério de Sainte-Marguerite, no atual 11º distrito de Paris, marcado apenas por um “D” de delfim pintado no caixão.

A autópsia foi conduzida pelo cirurgião Philippe-Jean Pelletan, que retirou secretamente o coração da criança e o conservou em álcool, tentando, sem sucesso inicial, entregá-lo aos futuros reis Luís XVIII e Carlos X.

A falta de identificação formal do corpo alimentou rumores de que o delfim teria sido trocado por outra criança e mantido vivo fora da França. Ao longo do século XIX, cerca de quarenta pessoas chegaram a se apresentar como o verdadeiro Luís XVII, sendo o relojoeiro prussiano Karl Wilhelm Naundorff o mais conhecido deles, a ponto de escrever cartas à duquesa de Angoulême, única filha de Luís XVI e Maria Antonieta a sobreviver até a idade adulta.

Como o exame de DNA confirmou a autenticidade do coração do delfim em 2000?

O historiador francês Philippe Delorme organizou, em 2000, uma investigação genética sobre o coração preservado, então guardado em uma urna de cristal na Basílica de Saint-Denis desde 1975. Os geneticistas Jean-Jacques Cassiman, da Universidade Católica de Lovaina, na Bélgica, e Ernst Brinkmann, da Universidade de Münster, na Alemanha, compararam o DNA mitocondrial do órgão, transmitido apenas pela linha materna, com o de parentes vivos da família materna de Maria Antonieta, os Habsburgo. O resultado confirmou a compatibilidade genética, provando que o coração pertencia a um descendente materno de Maria Antonieta e refutando definitivamente as alegações de Naundorff e dos demais pretendentes. Com base nesse resultado, o Ministério da Cultura da França autorizou, em 8 de junho de 2004, o sepultamento simbólico do coração na cripta de Saint-Denis, encerrando dois séculos de dúvidas sobre o destino do delfim.

Quem reabilitou a memória de Luís XVI e Maria Antonieta na França?

O próprio traslado de 1815, promovido por Luís XVIII, teve um propósito político declarado: legitimar a monarquia restaurada, apresentando o casal executado como mártires de uma ordem legítima derrubada pela violência revolucionária. Segundo a historiografia francesa, floresceu nesse período o chamado culto da “rainha mártir”, voltado a expiar simbolicamente o regicídio e a reconstruir a imagem pública de Maria Antonieta, até então associada pela propaganda revolucionária a excessos e traição. Monumentos como a Capela Expiatória e as estátuas orantes do casal em Saint-Denis, concluídas no fim da década de 1830, fixaram essa narrativa oficial de reabilitação.

No século XX, biógrafas como a historiadora britânica Antonia Fraser, autora da obra de referência “Marie Antoinette: The Journey“, de 2001, e a historiadora francesa Évelyne Lever contribuíram para revisar a imagem simplificada da rainha, situando-a de forma mais equilibrada dentro do contexto político e social da corte de Versalhes. Cerimônias oficiais realizadas em 1993, por ocasião do bicentenário das execuções, reuniram descendentes da família real francesa na Capela Expiatória, reforçando publicamente essa memória histórica reabilitada, dois séculos depois dos fatos que abalaram a monarquia da França.

Uma curiosidade pouco conhecida é o trajeto percorrido pelo coração do delfim depois que Pelletan o resgatou: guardado inicialmente numa taça de cristal em sua própria casa, o órgão foi roubado por um aluno do cirurgião, recuperado décadas depois e enviado à família real espanhola, ramo dos Bourbon-Espanha, antes de retornar definitivamente à França em 1975 e ser depositado na Basílica de Saint-Denis, onde permanece exposto até hoje ao lado dos túmulos de Luís XVI e Maria Antonieta.

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