Getúlio Vargas morreu por suicídio na manhã de 24 de agosto de 1954, aos 71 anos, com um único tiro de revólver no peito, disparado em seu quarto no terceiro andar do Palácio do Catete, sede do governo federal no Rio de Janeiro, então capital do país. O disparo ocorreu pouco depois das 8h30 e foi ouvido por toda a residência presidencial. Vargas usava um revólver Colt calibre 32, com cabo de madrepérola, mantido perto de sua cama. A bala atingiu o coração, causando morte quase instantânea, segundo os relatos dos familiares que primeiro chegaram ao quarto.
O gesto encerrou o segundo governo de Vargas, iniciado em 1951 após eleição direta, e ocorreu no auge da chamada crise de agosto de 1954. Dezenove dias antes, em 5 de agosto, um atentado na rua Tonelero, no bairro carioca de Copacabana, tentou matar o jornalista e deputado Carlos Lacerda, principal opositor do presidente, mas matou o major da Aeronáutica Rubens Vaz, que o escoltava. As investigações apontaram participação de integrantes da guarda pessoal de Vargas, o que atribuiu ao Palácio do Catete a responsabilidade política pelo crime. A partir daí, setores das Forças Armadas, sobretudo a Aeronáutica, passaram a exigir publicamente a renúncia do presidente.
Na noite anterior à morte, Vargas reuniu ministros no Catete para decidir os rumos da crise. Por volta das duas horas da madrugada de 24 de agosto, ouviu dos ministros militares que oficiais das três Forças Armadas haviam se unido a um manifesto de brigadeiros pedindo sua saída do cargo. Horas antes, o jornal Última Hora, favorável ao governo, publicara uma frase atribuída a Vargas: “só morto sairei do Catete”. Às seis da manhã, dois oficiais da Aeronáutica foram ao palácio convocar Benjamim Vargas, irmão do presidente, para depor sobre o atentado da Tonelero.
A decisão tomada na madrugada de 24 de agosto no Palácio do Catete
Diante do cerco militar, Vargas registrou em sua agenda pessoal, na página referente a 23 de agosto, uma nota que resumia sua posição: determinava aos ministros militares que mantivessem a ordem pública e afirmava que, se isso não ocorresse, os revoltosos encontrariam ali o seu cadáver. A nota oficial divulgada pela presidência naquela madrugada informava que Vargas aceitaria entrar em licença apenas se a ordem constitucional fosse preservada. Caso contrário, o texto afirmava que o presidente persistiria na defesa de suas prerrogativas, com sacrifício da própria vida, se necessário. Esses registros mostram que a possibilidade da morte já fazia parte do discurso de Vargas antes do desfecho final.
Ainda de madrugada, aliados próximos, como o senador Tancredo Neves e o ministro da Fazenda, Oswaldo Aranha, dirigiram-se ao Catete para acompanhar os desdobramentos da crise. A tensão entre a ala militar contrária a Vargas e os poucos ministros que ainda o apoiavam tornava cada vez mais estreita a saída negociada. Por volta das seis horas, ficou definido em reunião ministerial que Vargas se afastaria do cargo por três meses, entregando o governo ao vice-presidente João Café Filho. Getúlio, porém, retirou-se para seus aposentos particulares antes que essa solução fosse formalmente anunciada ao público.
Os minutos finais e a descoberta do corpo por Lutero e Alzira Vargas
Na manhã de 24 de agosto, ainda de pijama, Vargas saiu do quarto, foi até o gabinete de trabalho contíguo e voltou com um envelope, que deixou sobre o criado-mudo ao lado da cama. Pouco depois das 8h30, um tiro seco ecoou pelo terceiro andar do palácio. O filho Lutero Vargas correu primeiro para o quarto, seguido pela irmã Alzira Vargas do Amaral Peixoto e pela mãe, Darcy Sarmanho Vargas. Encontraram o presidente caído sobre a cama, com metade do corpo para fora dela e o revólver próximo à mão direita.
O buraco de bala, na altura do coração, manchava de sangue o pijama listrado que Vargas usava. Médicos presentes no palácio confirmaram a morte pouco depois, sem que houvesse tempo para qualquer socorro eficaz. O horário do disparo, entre 8h30 e 8h40, foi registrado por diferentes testemunhas nos andares inferiores do Catete. A cena chocou os funcionários do palácio, que ainda esperavam um desfecho negociado da crise, não um suicídio.
O conteúdo e a autoria da carta-testamento deixada por Vargas
O envelope encontrado ao lado da cama continha a carta-testamento de Vargas, um texto datilografado na véspera por um auxiliar próximo, a partir de anotações e falas do próprio presidente sobre a crise política. Horas depois da morte, o ministro Oswaldo Aranha leu o documento pelo telefone para a Rádio Nacional, tornando-o conhecido de todo o país ainda na manhã de 24 de agosto. Na carta, Vargas atribuía sua decisão a uma campanha de grupos nacionais e internacionais contrários à legislação trabalhista e ao projeto de desenvolvimento econômico de seu governo. O trecho final tornou-se um dos mais citados da história política brasileira: Vargas afirmava dar serenamente “o primeiro passo no caminho da eternidade” para entrar na história.
As reações imediatas do país à morte de Vargas
A notícia da morte se espalhou rapidamente pelo rádio, provocando reações imediatas em várias capitais. Escolas dispensaram os alunos, o comércio fechou as portas e fábricas interromperam a produção em sinal de comoção. Milhares de pessoas se dirigiram ao Palácio do Catete para acompanhar o velório, montado no Salão Ministerial do próprio palácio. Em poucas horas, uma multidão estimada em cerca de um milhão de pessoas tentou ver o corpo do presidente, segundo relatos da imprensa da época.
A comoção popular rapidamente se transformou em revolta contra os opositores de Vargas. Manifestantes atacaram e incendiaram veículos e a sede do jornal Tribuna da Imprensa, dirigido por Carlos Lacerda, além de depredar as instalações do jornal O Globo. Prédios ligados à oposição e à embaixada dos Estados Unidos também foram alvo de apedrejamentos, refletindo suspeitas, nunca comprovadas oficialmente, sobre uma possível influência externa na crise. Diante da força da reação popular, líderes da UDN e os setores militares que pressionavam pela renúncia recuaram de imediato, e o movimento golpista perdeu força política.
No dia seguinte, 25 de agosto, o corpo de Vargas foi levado em cortejo até o Aeroporto Santos Dumont, acompanhado por uma multidão que percorreu a orla da praia do Flamengo. Um avião da empresa Cruzeiro do Sul transportou o caixão até São Borja, no Rio Grande do Sul, cidade natal do presidente, onde ele havia nascido em 1882. Em São Borja, cerca de 40 mil pessoas acompanharam o cortejo fúnebre até o cemitério municipal, cantando o hino nacional durante o trajeto. Vargas foi sepultado ao lado dos pais, Manuel do Nascimento Vargas e Cândida Dornelles Vargas, encerrando dezenove anos de proeminência na política nacional, entre os dois períodos em que governou o Brasil.
Uma curiosidade histórica pouco lembrada é que o pijama que Vargas vestia no momento da morte e o próprio revólver Colt calibre 32 usado no suicídio são preservados até hoje no Museu da República, instalado no antigo Palácio do Catete, no Rio de Janeiro. Os dois objetos ficam expostos junto a outros itens pessoais do presidente, permitindo ao público visitar o mesmo espaço onde, em 24 de agosto de 1954, terminou a vida de Getúlio Vargas, um dos políticos mais influentes da história do Brasil.
