Um fator importante para a expansão do consumo de arroz no Brasil foi sua inclusão no fornecimento regular de alimentos ao Exército durante a regência de D. João VI, no início do século XIX. Paralelamente, o arroz já circulava havia séculos como um dos alimentos usados nos navios negreiros vindos da África, onde o cereal também fazia parte da dieta de diversas populações. A popularização do arroz como alimento civil, e não apenas militar ou de transporte marítimo, se deu de forma mais ampla ao longo do século XVIII e início do XIX, sobretudo nas áreas urbanas em crescimento.
Foi apenas a partir do final do século XIX que o arroz passou a ganhar espaço significativo na alimentação brasileira, substituindo parcialmente as farinhas de milho e de mandioca em diversas regiões do país. Esse período coincide com o momento em que pesquisadores de gastronomia, como Ricardo Maranhão, coordenador do Centro de Pesquisas em Gastronomia Brasileira da Universidade Anhembi Morumbi, situam a popularização do prato combinado de arroz e feijão. A literatura histórica, porém, não registra com precisão o momento exato em que a mistura intuitiva entre os dois grãos começou a ocorrer nas casas brasileiras, o que configura uma divergência historiográfica reconhecida por especialistas da área.
Arroz e feijão como símbolo da identidade alimentar nacional
A partir do final do século XIX, a dupla arroz e feijão se afirmou como símbolo da alimentação brasileira e passou a ocupar lugar fixo no almoço, principal refeição do país, e frequentemente também no jantar. Essa consolidação atravessou classes sociais e regiões, tornando o prato uma referência de identidade culinária compartilhada por praticamente todo o território nacional. O Brasil é, junto com Cuba, um dos poucos países do mundo com um prato de identidade nacional baseado nessa combinação específica de arroz e feijão; os cubanos têm o moros y cristianos, com feijão-preto e arroz cozidos juntos, enquanto no Brasil os dois grãos costumam ser preparados separadamente.
Em algumas regiões, a combinação ganhou variações locais que se tornaram pratos típicos por direito próprio. No Ceará, o baião de dois — mistura de arroz, feijão-de-corda, queijo coalho e carne-seca — teve registro documentado em 1954 como prato popular do estado. Em Minas Gerais, o feijão tropeiro, receita cujo formato remonta ao período colonial, combina feijão, farinha, pedaços de carne, cebola e alho, unindo justamente os dois elementos do antigo tripé colonial em uma única preparação.
A permanência da farinha de mandioca no Norte e no Nordeste
Apesar da consolidação nacional do arroz com feijão, a farinha de mandioca nunca deixou de ser a base alimentar dominante nas regiões Norte e Nordeste do Brasil, onde ainda compete diretamente com o arroz nas refeições diárias. Câmara Cascudo chamou a mandioca de “Rainha do Brasil” em referência ao papel estrutural que o tubérculo e seus derivados exerceram na alimentação de indígenas, escravizados e populações pobres desde o período colonial até a atualidade. A produção artesanal de farinha continua concentrada nas chamadas casas de farinha, estruturas comunitárias de produção típicas do Norte e do Nordeste, onde a mandioca é processada em métodos que remontam às técnicas indígenas registradas por viajantes europeus já no século XVI.
Farinha, feijão e carne seca no cotidiano regional
No Norte do Brasil, predomina o consumo da farinha d’água, obtida por processo de fermentação da mandioca, enquanto no Nordeste variedades como a farinha de Bragança, no Pará, mantêm técnicas regionais específicas de produção. A farofa, acompanhamento feito com farinha de mandioca torrada, cebola e outros temperos, tornou-se item praticamente obrigatório em pratos como a feijoada e o churrasco em todo o país, funcionando como ponte entre o antigo tripé alimentar colonial e a mesa brasileira contemporânea. Em Salvador, na Bahia, a centralidade da farinha na alimentação popular ficou evidente durante a revolta urbana de 1858, conhecida pela expressão “carne sem osso e farinha sem caroço”, motivada pela alta nos preços de itens básicos da dieta da cidade. O episódio demonstra que, mesmo com a ascensão do arroz como alimento nacional, a farinha de mandioca permaneceu como referência de sobrevivência alimentar em centros urbanos do Nordeste ao longo do século XIX.
Historiadores da alimentação, como Paula Pinto e Silva, autora do livro “Farinha, Feijão e Carne-Seca”, descrevem essa combinação como um verdadeiro tripé culinário brasileiro, no qual a farinha de mandioca ocupa a posição de elemento mais antigo e persistente. Enquanto o arroz e o feijão se tornaram o par mais reconhecido nacionalmente a partir do final do século XIX, a farinha manteve, e ainda mantém, um papel estrutural equivalente ou superior em estados como Pará, Maranhão, Ceará e Bahia. Essa convivência entre dois modelos alimentares regionais — um baseado em arroz e feijão, outro em farinha e feijão — ilustra a diversidade histórica da formação da culinária brasileira, marcada por influências indígenas, portuguesas e africanas que se combinaram de formas distintas conforme a geografia e o clima de cada região do país.
Em 1753, o naturalista sueco Carlos Lineu, um dos fundadores da taxonomia biológica moderna, chegou a defender que o feijão-comum teria se originado na Índia, hipótese que só foi contestada décadas depois, por volta de 1880, pelo botânico alemão Marx C. L. Wittmack, que apontou o Peru e o sul dos Estados Unidos como prováveis centros de origem do grão que, séculos depois, se tornaria, ao lado do arroz e da farinha, um dos pilares da identidade alimentar do Brasil.