A história da Taça Jules Rimet

A seleção brasileira garantiu o direito estabelecido pelo regulamento da Copa de 1970 de guardar o troféu em caráter permanente

HiperHistória
Foto: Google Gemini/HiperHistória

O advogado francês Jules Rimet, presidente da FIFA, idealizou e entregou o primeiro troféu da Copa do Mundo em 1930, no Uruguai. Ele concebeu a competição internacional para unificar as nações e as suas federações esportivas logo após o trauma da Primeira Guerra Mundial. A taça dourada serviu como o símbolo máximo da vitória no torneio inaugural, vencido pela equipe anfitriã uruguaia após duas semanas de partidas.

Jules Rimet assumiu a presidência da Federação Internacional de Futebol Associação (FIFA) em 1921 e permaneceu no cargo por trinta e três anos, estabelecendo um recorde na entidade. A sua gestão enfrentou fortes resistências financeiras e logísticas das federações europeias, mas ele persistiu no projeto de organizar um torneio de seleções desvinculado dos Jogos Olímpicos. A aprovação documental e final do campeonato ocorreu durante o congresso esportivo de 1928, sediado na cidade de Amsterdã.

O regulamento de fundação do novo campeonato demandava a entrega de uma recompensa física e exclusiva para a seleção vencedora de cada edição. Os dirigentes da FIFA estipularam que a equipe capaz de conquistar o título mundial três vezes obteria a posse definitiva do objeto de ouro. Esta regra administrativa fomentou uma rivalidade esportiva intensa entre as seleções do continente europeu e da América do Sul nas décadas subsequentes.

A confecção da Taça Jules Rimet

blank
Jules Rimet – Foto: HiperHistória/Gemini

A entidade máxima do futebol contratou o renomado escultor francês Abel Lafleur para desenhar e fabricar a peça oficial do novo torneio intercontinental. O artista baseou a modelagem da sua obra na figura mitológica de Nice, a deusa grega da vitória, que sustentava um cálice octogonal erguido sobre a cabeça. O troféu recebeu inicialmente o registro formal de “Vitória”, mas o comitê organizador decidiu renomeá-lo para taça Jules Rimet em 1946.

Abel Lafleur utilizou prata de lei banhada a ouro na fundição da estatueta principal, resultando em uma peça de trinta e cinco centímetros de altura e quase quatro quilos. O escultor fixou a imagem metálica em uma base quadrada confeccionada em lápis-lazúli, um mineral semiprecioso de coloração azul intensa. Placas de ouro contornavam as quatro faces da base original, desenhadas especificamente para receber a gravação dos nomes dos países campeões das edições seguintes.

O prêmio inédito cruzou o Oceano Atlântico pela primeira vez a bordo do transatlântico SS Conte Verde, guardado dentro da bagagem pessoal do presidente da FIFA. O Uruguai ergueu a estatueta no campo em 1930, seguido pela seleção da Itália nos dois torneios europeus posteriores. O objeto físico sobreviveu intacto à Segunda Guerra Mundial apenas porque o vice-presidente da FIFA, Ottorino Barassi, retirou a peça do cofre de um banco romano e a escondeu sob a sua cama.

A conquista definitiva e o roubo no Brasil

A seleção brasileira conquistou o tricampeonato mundial em 1970, no gramado do México, garantindo o direito estabelecido pelo regulamento de guardar o troféu em caráter permanente. A Confederação Brasileira de Futebol (CBF) transportou o troféu para a sua sede administrativa no nono andar de um edifício no centro do Rio de Janeiro. A cúpula da instituição exibia a obra autêntica dentro de uma redoma protegida por um vidro à prova de balas, enquanto mantinha uma réplica de latão escondida em um cofre fechado.

O destino da premiação sofreu uma alteração criminal irreversível durante a madrugada de 19 de dezembro de 1983, quando invasores acessaram as instalações da confederação esportiva. Dois assaltantes renderam o único vigia noturno do prédio, amarraram o funcionário em uma sala de apoio isolada e seguiram diretamente para o andar da presidência. Os criminosos utilizaram ferramentas mecânicas para forçar a moldura de madeira estrutural do painel blindado, conseguindo extrair o artefato histórico sem disparar os alarmes.

A destruição do artefato histórico

As investigações conduzidas pela Polícia Civil do Rio de Janeiro apontaram o representante comercial Sérgio Peralta como o mentor intelectual e facilitador do roubo milionário. Peralta conhecia detalhadamente a fragilidade da moldura de madeira, pois frequentava o prédio da CBF como representante de um clube, e recrutou indivíduos especializados em furtos para executar a invasão. Os detetives interrogaram suspeitos nas semanas seguintes e confirmaram o planejamento da quadrilha para a conversão rápida do objeto em dinheiro vivo.

Os criminosos contratados entregaram a relíquia do futebol mundial a Juan Carlos Hernández, um ourives argentino radicado no mercado paralelo do Rio de Janeiro. Os relatórios policiais indicam que Hernández operou equipamentos de fundição para derreter a estátua em barras de ouro não rastreáveis logo no dia seguinte à invasão do prédio. A polícia conseguiu recuperar de forma intacta apenas uma pequena estrutura da base de lápis-lazúli, confirmando materialmente a destruição irreversível da escultura original de Abel Lafleur.

A evolução das premiações

O sistema judiciário brasileiro condenou os mentores do roubo e o ourives responsável pelo derretimento a penas de prisão em 1988, com cumprimento posterior das sentenças. A direção da CBF, lidando com o impacto institucional negativo da perda, encomendou uma réplica rigorosa da estatueta à joalheria alemã Hanau, fabricada com base em medidas e moldes fotográficos precisos. A perda documental e material do prêmio provocou uma reformulação técnica na segurança de museus esportivos em todas as grandes federações.

A trajetória pessoal de Jules Rimet deixou documentada a capacidade de organização de um sistema esportivo com alcance e impacto econômico intercontinental. O desaparecimento do seu troféu encerrou o período amador e romântico das competições internacionais, marcando a transição da FIFA para uma gestão fundamentada no licenciamento de bens imateriais. Os arquivos centrais em Zurique preservam as atas de aprovação da taça, mantendo vivo o registro da obra precursora que validou as seleções campeãs do século vinte.

Seguir:
HiperHistória revive os fatos mais importantes da história, um verdadeiro museu virtual das grandes curiosidades do presente e do passado.
Nenhum comentário