Pedro (30-67) – 1º Papa

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Pedro foi o apóstolo que os Evangelhos e o livro de Atos dos Apóstolos apresentam como líder dos doze discípulos de Jesus. A tradição das Igrejas Católica e Ortodoxa também o reconhece como o primeiro bispo de Roma.

Nascido com o nome de Simão, Pedro era filho de João ou Jonas, segundo o Evangelho de Mateus. Ele nasceu em Betsaida, um povoado de pescadores às margens do lago da Galileia, também conhecido como lago de Tiberíades ou de Genesaré.

Mais tarde, mudou-se para Cafarnaum, onde trabalhava como pescador com seu irmão André. Segundo o Evangelho de Marcos, foi nessa cidade que Jesus curou sua sogra, em um episódio narrado no início do ministério público de Cristo.

A vocação de Simão é mencionada nos quatro Evangelhos canônicos, embora cada relato apresente detalhes diferentes. De acordo com Mateus e Marcos, Jesus o chamou enquanto ele lançava as redes no lago da Galileia e prometeu transformá-lo em “pescador de homens”.

Já o Evangelho de João situa o primeiro encontro entre os dois nas proximidades do rio Jordão, por intermédio de André. Foi nessa ocasião que Jesus teria dado a Simão o nome Cefas, palavra aramaica que significa “pedra”. Em grego, o termo foi traduzido como Petros, origem do nome Pedro.

A mudança de nome, registrada em Mateus 16:18, tornou-se uma das principais bases bíblicas da autoridade atribuída ao apóstolo pela tradição cristã.

Pedro nos Evangelhos

Nos Evangelhos, Pedro aparece como o mais falante e impulsivo dos doze apóstolos. Em diversas ocasiões, ele responde em nome do grupo e assume uma posição de destaque entre os discípulos.

Pedro também fazia parte, ao lado de Tiago e João, do círculo mais próximo de Jesus. Os três testemunharam acontecimentos importantes, como a ressurreição da filha de Jairo e a Transfiguração, episódio em que Jesus teria revelado sua natureza divina no alto de uma montanha.

Apesar de sua proximidade com Jesus, Pedro também protagonizou um dos episódios mais conhecidos do Novo Testamento. Segundo os quatro Evangelhos, ele negou conhecer Jesus três vezes durante o julgamento que antecedeu a crucificação.

Os próprios textos bíblicos relatam o episódio sem suavizar a atitude do apóstolo. A narrativa contrasta sua fraqueza naquele momento com a liderança que ele assumiria após a morte de Jesus.

Liderança em Jerusalém

Após a morte de Jesus, o livro de Atos dos Apóstolos apresenta Pedro como uma das principais figuras da comunidade cristã nascente em Jerusalém.

Ele presidiu a escolha de Matias para ocupar o lugar deixado por Judas Iscariotes entre os doze apóstolos. Também fez um discurso público no dia de Pentecostes, acontecimento tradicionalmente considerado o início da pregação apostólica organizada.

Atos dos Apóstolos ainda atribui a Pedro a decisão de receber o centurião romano Cornélio entre os seguidores de Jesus. Essa aceitação ocorreu sem a exigência prévia da circuncisão.

Para muitos historiadores do cristianismo primitivo, o episódio representou um passo importante na abertura do movimento cristão aos não judeus, chamados de gentios.

O conflito com Paulo

A expansão do cristianismo entre os gentios provocou tensões dentro da comunidade. A questão foi debatida no chamado Concílio de Jerusalém, reunião realizada por volta do ano 49 e narrada em Atos 15.

O encontro também é mencionado na Carta aos Gálatas, escrita pelo apóstolo Paulo. Nessa carta, Paulo relata um conflito público com Pedro em Antioquia, cidade localizada na atual região sul da Turquia.

Segundo Paulo, Pedro teria deixado de conviver com cristãos não judeus por causa da pressão de líderes vindos de Jerusalém. O episódio aparece em Gálatas 2:11-14.

Esse é um dos poucos relatos de conflito direto entre apóstolos preservados no Novo Testamento. Historiadores do cristianismo antigo, como o alemão Martin Hengel, consideram o episódio uma evidência de que a liderança de Pedro coexistia com disputas e divergências dentro da igreja primitiva.

Pedro em Roma

Depois do período em Jerusalém e Antioquia, as informações bíblicas sobre os deslocamentos de Pedro tornam-se mais escassas.

A Primeira Carta de Pedro, tradicionalmente atribuída ao apóstolo e geralmente datada por volta do ano 64, afirma que o texto foi escrito a partir da “Babilônia”. Autores cristãos antigos, como Eusébio de Cesareia, interpretaram esse nome como uma referência simbólica a Roma.

Especialistas ainda discutem se a carta foi escrita pelo próprio Pedro ou por um discípulo em seu nome. Na Antiguidade, era relativamente comum que textos fossem atribuídos a figuras importantes para preservar seus ensinamentos e sua autoridade.

Mesmo assim, a referência à “Babilônia” reforça a antiga tradição de que Pedro esteve em Roma e passou ali os últimos anos de sua vida.

O primeiro bispo de Roma

Autores cristãos antigos, como Inácio de Antioquia, Ireneu de Lyon e Clemente Romano, associaram Pedro à fundação da comunidade cristã de Roma.

Com base nessa tradição, a Igreja Católica e a Igreja Ortodoxa reconhecem Pedro como o primeiro bispo de Roma. A Igreja Católica também o considera o primeiro papa.

Entretanto, o título e a estrutura institucional do papado, tal como existem atualmente, foram consolidados somente ao longo dos séculos seguintes. Não há documentação contemporânea que descreva formalmente Pedro como “bispo de Roma” nos mesmos termos utilizados posteriormente.

Por isso, para os historiadores, essa atribuição está na fronteira entre a tradição religiosa e a reconstrução histórica. Trata-se de uma crença antiga e influente, mas não de um fato registrado por uma testemunha ocular da época.

A morte de Pedro

A tradição cristã atribui a morte de Pedro à perseguição promovida pelo imperador Nero contra os cristãos. Essa perseguição teria ocorrido após o grande incêndio de Roma, em julho do ano 64.

Eusébio de Cesareia, autor da História Eclesiástica, relaciona o martírio de Pedro a esse contexto. As datas sugeridas pelos estudiosos variam entre os anos 64 e 68.

A tradição litúrgica mais difundida, registrada no antigo documento conhecido como Catálogo Liberiano, situa a morte do apóstolo em 29 de junho do ano 67.

São Pedro (30-67 d.C.) - 1º Papa
São Pedro entronizado com os santos – Retrato de Giovanni Battista Cima da Conegliano

A crucificação invertida

O relato de que Pedro foi crucificado de cabeça para baixo por não se considerar digno de morrer da mesma maneira que Jesus não aparece nos quatro Evangelhos nem no livro de Atos dos Apóstolos.

Essa versão é encontrada no texto apócrifo conhecido como Atos de Pedro, provavelmente composto por volta do ano 200. Portanto, a obra foi escrita mais de um século depois dos acontecimentos que descreve.

Por essa razão, o episódio deve ser tratado como uma tradição posterior, e não como um registro histórico contemporâneo. Ainda assim, a narrativa foi amplamente incorporada à tradição cristã e repetida por autores como Orígenes, citado por Eusébio de Cesareia.

O túmulo no Vaticano

Segundo o testemunho do presbítero romano Gaio, escrito por volta do ano 200, Pedro foi sepultado na colina do Vaticano, próximo ao circo onde Nero promovia execuções públicas.

Entre 1940 e 1949, escavações arqueológicas realizadas sob a Basílica de São Pedro, com autorização do papa Pio XII, revelaram um conjunto de túmulos romanos. Entre eles havia um sepulcro do século I situado em posição de destaque.

A descoberta é considerada compatível com a tradição sobre o local de sepultamento de Pedro. No entanto, não existe uma prova documental definitiva que permita identificar os restos encontrados como pertencentes ao apóstolo com absoluta segurança.

A lenda do “Quo Vadis”

Uma tradição associada aos últimos dias de Pedro é a lenda conhecida como “Quo Vadis”, registrada em textos apócrifos do século II.

Segundo o relato, Pedro teria tentado fugir de Roma durante a perseguição de Nero. Na Via Ápia, ele teria encontrado uma visão de Jesus caminhando em direção à cidade.

Pedro então perguntou: “Quo vadis, Domine?” — “Para onde vais, Senhor?”, em latim. Jesus teria respondido que estava indo a Roma para ser crucificado novamente no lugar de Pedro.

Comovido, o apóstolo teria desistido da fuga e retornado à cidade para enfrentar o martírio. Embora o episódio não tenha base nos textos bíblicos, ele deu nome a uma pequena igreja ainda existente na Via Ápia, em Roma.

A história também inspirou obras literárias e cinematográficas sobre os últimos dias do apóstolo Pedro.

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