Faria Lima: o prefeito de SP e o legado

José Vicente de Faria Lima foi militar da Aeronáutica e prefeito de São Paulo de 1965 a 1969, período que deixou marcas urbanas ainda visíveis na cidade

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José Vicente de Faria Lima nasceu em 7 de outubro de 1909 no Rio de Janeiro, então Distrito Federal, e morreu em 4 de setembro de 1969, aos 59 anos, na mesma cidade. Foi engenheiro militar da Força Aérea Brasileira, com a patente de tenente-brigadeiro, e depois se tornou político. Eleito prefeito de São Paulo em março de 1965, governou a capital paulista até abril de 1969. O apelido “Brigadeiro”, que acompanha seu nome na avenida mais conhecida de São Paulo, vem exatamente dessa patente militar, e não de um título honorífico posterior.

Faria Lima entrou na carreira militar em 1928 e chegou à patente de brigadeiro da Aeronáutica. Formou-se na Escola de Engenharia Aeronáutica em Paris, na França, e participou da repressão aos paulistas durante a Revolução Constitucionalista de 1932, conflito armado entre o governo federal de Getúlio Vargas e forças de São Paulo que reivindicavam uma nova Constituição para o país. Antes de ingressar na política, ele já havia atuado como piloto do Correio Aéreo Nacional, serviço militar criado para levar correspondência e conectar regiões isoladas do Brasil por via aérea nas décadas de 1930 e 1940.

Seu primeiro cargo fora da carreira militar foi a presidência da Viação Aérea São Paulo (Vasp), companhia aérea do governo paulista, em 1955. Durante os governos estaduais de Jânio Quadros e Carvalho Pinto, atuou como secretário de Viação e Obras Públicas de São Paulo, e, quando Jânio se tornou presidente da República, nomeou Faria Lima presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico (BNDE), em 1961. Essas passagens por cargos técnicos de administração pública, e não por mandatos eletivos, formaram a base de sua reputação como gestor antes de chegar à prefeitura de São Paulo.

A eleição de 1965 e o contexto da ditadura militar

Faria Lima disputou seu primeiro cargo eletivo em 1962, como candidato a vice-governador na chapa de Jânio Quadros, e foi derrotado nas eleições estaduais daquele ano. Filiado à UDN até 1965, migrou nesse ano para a ARENA, partido criado pelo regime militar para dar sustentação política aos governos pós-1964. Após o golpe militar de 1964, que instaurou o regime autoritário mantido até 1985, Faria Lima foi eleito prefeito de São Paulo em 1965, na última eleição direta para esse cargo até 1985, vencendo com maioria absoluta dos votos políticos paulistas como Auro Soares de Moura Andrade, Laudo Natel e Paulo Egydio Martins. Apesar do vínculo partidário com a ARENA, historiadores apontam que Faria Lima não pertencia ao núcleo de generais da chamada linha dura, corrente militar que defendia o endurecimento máximo da repressão e que, a partir de 1967, concentrava o poder de decisão dentro do regime; essa distância em relação ao núcleo duro do governo ajuda a explicar por que sua ascensão política dependeu mais do prestígio técnico acumulado em cargos administrativos do que de uma articulação estreita com os círculos militares mais influentes da ditadura.

As obras que marcaram a gestão de Faria Lima

Sua administração se destacou pelo número de obras iniciadas, entre as mais importantes, as marginais Tietê e Pinheiros, a avenida Sumaré, a Radial Leste, a 23 de Maio e a Rubem Berta. Durante seu governo, o serviço de bondes foi encerrado na cidade, enquanto teve início a construção do sistema de metrô de São Paulo. Entre as vias abertas estava também a Cruzeiro do Sul, ligando a zona norte ao centro da cidade, além da Radial Oeste, projetada originalmente por Prestes Maia. Mesmo criticado por ter encerrado os bondes, quando deixou a prefeitura no início de 1969, sua administração registrava um índice de aprovação de 97%, segundo relatos da época, número nunca igualado por outro prefeito paulistano.

Por que a avenida Faria Lima recebeu esse nome?

Entre as obras impulsionadas por Faria Lima estava o alargamento da rua Iguatemi, entre o Largo da Batata e a avenida Cidade Jardim, via cujos trabalhos haviam começado décadas antes e que seria batizada de Radial Oeste. Com a morte do então prefeito, decidiu-se que o nome da extensa avenida, de 4,6 quilômetros, seria uma homenagem póstuma a ele, e assim nasceu a Avenida Brigadeiro Faria Lima. No início, os escritórios da cidade se concentravam na região central e depois na Avenida Paulista, até que, na década de 1970, a Faria Lima começou seu processo de verticalização, atraindo a atenção de empresas. Décadas depois, a via se consolidaria como o principal polo financeiro do Brasil, dando origem à expressão popular “farialimer” para designar profissionais do mercado financeiro que atuam na região.

No dia 4 de setembro de 1969, Faria Lima sofreu um enfarte fulminante no Rio de Janeiro, onde participava da disputa política pela sucessão do general Costa e Silva na presidência da República, afastado do cargo por um derrame cerebral no fim de agosto daquele ano. A escolha do sucessor foi decidida internamente por uma junta militar, sem qualquer participação popular, e recaiu sobre o general Emílio Garrastazu Médici, identificado com a linha dura das Forças Armadas; a derrota de Faria Lima nessa articulação reforça, segundo interpretações historiográficas, a avaliação de que ele não dispunha de apoio consistente entre os setores mais radicais do regime que efetivamente controlavam as decisões da ditadura naquele momento. Foi sepultado no Cemitério Campo Grande, na zona sul de São Paulo, e seu velório foi acompanhado por milhares de pessoas, muitas levando uma rosa na mão, símbolo associado ao seu governo junto com a colher de pedreiro, imagem usada para representar sua marca como prefeito construtor.

Uma curiosidade histórica pouco lembrada é que a popularidade de Faria Lima se refletiu também na carreira de sua família: em 1970, seu sobrinho José Roberto Faria Lima foi eleito deputado federal por São Paulo com 154.914 votos, tornando-se o terceiro deputado federal paulista mais votado naquela eleição, resultado que os analistas da época associaram diretamente ao prestígio deixado pelo Brigadeiro Faria Lima após seus quatro anos à frente da prefeitura da maior cidade do país.

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