A história de Cosme de Farias

Nascido em Salvador em 1875, Cosme de Farias atuou como rábula, jornalista, poeta e político, dedicando décadas à defesa jurídica dos pobres e à alfabetização popular

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Cosme de Farias foi um dos personagens mais populares da história social e política de Salvador no século XX. Nascido em 2 de abril de 1875, em São Tomé de Paripe, então área suburbana da capital baiana, teve apenas formação escolar primária, mas construiu uma longa trajetória como rábula, jornalista, poeta e parlamentar. Sua atuação ficou especialmente associada à defesa gratuita de pessoas pobres, ao combate ao analfabetismo e à defesa de direitos e liberdades.

A palavra “rábula” ajuda a entender sua importância. Na tradição jurídica brasileira, o termo designava quem exercia a advocacia sem possuir formação universitária em Direito, dentro das possibilidades legais existentes em determinados períodos. Cosme de Farias desenvolveu essa atividade durante décadas e, segundo pesquisa acadêmica da Universidade Federal da Bahia, interveio em mais de 30 mil processos, sempre na defesa de réus em causas penais e civis.

Sua trajetória ultrapassou os tribunais. Em 1914, foi eleito deputado estadual e, posteriormente, exerceu sucessivos mandatos parlamentares, incluindo passagens pela Câmara Municipal de Salvador. Em 1915, fundou a Liga Baiana Contra o Analfabetismo, iniciativa que manteve escolas, distribuiu material escolar e atuou junto às populações pobres da capital e de outras localidades baianas durante décadas.

Cosme de Farias e a defesa dos pobres

A atuação jurídica foi o eixo mais duradouro da vida pública de Cosme de Farias. Antes da criação da Defensoria Pública da Bahia, em 1966, ele já oferecia assistência jurídica gratuita a pessoas que não tinham recursos para contratar advogados. A pesquisa de Mônica Celestino, defendida na UFBA, identifica a defensoria gratuita como uma de suas principais frentes de atuação e registra que ele nunca atuou como acusador nos processos estudados.

O atendimento acontecia em escritórios simples no centro de Salvador. Em diferentes momentos, Cosme trabalhou em locais como a Rua da Oração e a Rua do Bispo e, nos últimos anos, instalou seu espaço de atendimento no Terreiro de Jesus, nas proximidades da Igreja de São Domingos. O ambiente modesto contrastava com a quantidade de pessoas que procuravam sua ajuda, consolidando sua imagem popular de “Advogado dos Pobres”.

Um dos casos mais conhecidos de sua carreira jurídica envolveu Sérgia Ribeiro da Silva, conhecida como Dadá, companheira do cangaceiro Corisco. Presa depois da morte de Corisco, em 1940, Dadá sofreu ferimento grave na perna e permaneceu sob custódia das autoridades. Cosme de Farias assumiu sua defesa e obteve, em 1942, uma decisão favorável em habeas corpus, episódio que se tornou um dos mais lembrados de sua carreira.

A relação de Cosme com questões sociais também apareceu em sua atuação política. Ele defendeu trabalhadores, envolveu-se em debates sobre o custo de vida e atuou em favor de acusados pobres, inclusive negros e capoeiristas. Sua prática política não pode ser separada da experiência adquirida no foro, pois sua projeção pública nasceu justamente da relação direta com setores populares de Salvador.

A luta contra o analfabetismo na Bahia

Em 1915, Cosme de Farias criou a Liga Baiana Contra o Analfabetismo, uma das iniciativas que mais contribuíram para sua permanência na memória baiana. A organização buscou ampliar o acesso à alfabetização entre pessoas pobres e participou da criação e manutenção de escolas, além da distribuição de materiais didáticos. Registros acadêmicos apontam que a Liga chegou a apoiar instituições educacionais em diferentes pontos de Salvador e do interior.

A alfabetização também fazia parte de sua atuação pública cotidiana. Cosme distribuía cartilhas e participava de eventos cívicos em Salvador, transformando o combate ao analfabetismo em uma bandeira visível nas ruas. A chamada Campanha do ABC ficou associada a esse esforço, e exemplares de cartilhas eram distribuídos à população em ações promovidas pelo próprio Cosme e pela Liga.

O trabalho educacional alcançou diferentes grupos e instituições. Estudos sobre a Liga registram sua participação na criação ou manutenção de escolas como a Escola dos Filhos dos Pobres, em Plataforma, e outras unidades no interior baiano durante as décadas de 1930. A organização também distribuiu milhares de exemplares da Cartilha do ABC, fazendo da alfabetização uma questão de cidadania para Cosme de Farias.

O jornalista, escritor e crítico do poder

A imprensa foi outra dimensão importante de sua vida. Cosme de Farias trabalhou como repórter policial do Jornal de Notícias e colaborou com diversos jornais de Salvador, entre eles o Diário de Notícias, Diário da Bahia, Gazeta do Povo, A Bahia e Diário da Tarde. Essa experiência ajudou a ampliar sua influência muito além dos espaços formais da política e do Judiciário.

Ele também escreveu sobre a situação política da Bahia. Em 1926, publicou Lama & Sangue – Bahia 1926, obra relacionada ao estado de sítio decretado no estado entre 1924 e 1926. O livro registrou críticas à repressão política, à incomunicabilidade de presos, às restrições ao Parlamento e à concentração de poderes no Executivo, tornando-se posteriormente objeto de estudos sobre a história constitucional da Primeira República.

A publicação teve consequências políticas. Segundo pesquisa sobre a imprensa baiana, exemplares de Lama & Sangue foram recolhidos por determinação do governador Góes Calmon em 1926. Quatro anos depois, em 1930, Cosme voltou a enfrentar problemas com o poder político: sua prisão foi determinada durante o novo regime instalado com a chamada Revolução de 1930, em um contexto de repressão a jornalistas oposicionistas em Salvador.

O legado de Cosme de Farias

A longevidade também explica a dimensão excepcional de sua trajetória. Cosme de Farias atravessou a Primeira República, a Revolução de 1930, a Era Vargas, a redemocratização de 1945, o regime militar iniciado em 1964 e os primeiros anos da década de 1970. Mesmo muito idoso, continuou ocupando uma cadeira na Assembleia Legislativa da Bahia até sua morte, em 14 de março de 1972, aos 96 anos.

Sua memória permaneceu associada a Salvador de maneira particularmente forte. O bairro de Cosme de Farias recebeu seu nome, assim como escolas, espaços públicos e outras instituições. Em 2021, quase cinco décadas depois de sua morte, a OAB da Bahia reconheceu oficialmente Cosme de Farias com o título de advogado, uma homenagem simbólica a alguém que exerceu a advocacia como rábula durante grande parte da vida.

A dimensão popular de seu funeral ajuda a medir a repercussão que alcançou ainda em vida. Segundo a OAB-BA, cerca de 100 mil pessoas participaram do cortejo fúnebre, em uma manifestação de reconhecimento ao homem que havia passado décadas atendendo gratuitamente pessoas sem recursos. O número pertence à memória registrada sobre o funeral e deve ser entendido nesse contexto, mas evidencia a enorme popularidade que Cosme de Farias conquistou em Salvador.

Cosme de Farias nasceu em 1875, quando o Brasil ainda vivia sob a monarquia e a escravidão só seria abolida 13 anos depois, mas morreu em 1972, quase um século mais tarde, depois de atravessar mudanças políticas, sociais e institucionais profundas. Entre esses dois momentos, construiu uma trajetória incomum para alguém que teve somente instrução primária: tornou-se parlamentar, jornalista, escritor e rábula, enquanto mantinha como marca de sua atuação a defesa gratuita dos pobres e a alfabetização popular.

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