Clériston Andrade (1925–1982) foi um político baiano que ocupou posições importantes na administração pública durante a ditadura militar. Prefeito de Salvador entre 1970 e 1975, presidiu o Banco do Estado da Bahia (Baneb) entre 1979 e 1982 e chegou a ser escolhido pelo PDS para disputar o governo estadual. Sua carreira, construída principalmente por meio de nomeações e articulações políticas, foi interrompida pela queda de um helicóptero em 1º de outubro de 1982, quando fazia campanha no interior da Bahia.
Ligado à Igreja Batista, Clériston começou sua trajetória pública antes de chegar ao Palácio Thomé de Souza. Segundo pesquisa acadêmica da Universidade Federal da Bahia, ele iniciou a vida pública em 1949, como oficial da Secretaria da Agricultura no governo Otávio Mangabeira, e posteriormente tornou-se procurador do Município de Salvador, cargo que exerceu entre 1957 e 1967. Foi nessa etapa que se aproximou politicamente de Antônio Carlos Magalhães, relação que marcaria sua carreira.
Sua ascensão ocorreu dentro do sistema político formado durante o regime militar, quando prefeitos de capitais e governadores não eram escolhidos por eleições diretas. Em abril de 1970, depois que Antônio Carlos Magalhães deixou a Prefeitura de Salvador para assumir o governo da Bahia, Clériston Andrade passou a comandar a capital. Em 1971, já com ACM no governo estadual, sua permanência foi confirmada, e ele permaneceu prefeito até março de 1975.
Clériston Andrade na Prefeitura de Salvador
A administração de Clériston Andrade esteve associada ao processo de expansão urbana de Salvador durante os anos 1970. Sua gestão deu continuidade a projetos iniciados na administração de Antônio Carlos Magalhães e ficou marcada por grandes intervenções viárias e urbanísticas. Entre as obras associadas ao período estão as avenidas Luís Viana Filho, conhecida como Paralela, e Anita Garibaldi.
A abertura e expansão de grandes vias estavam relacionadas à transformação da estrutura urbana de Salvador. A cidade crescia para além de seus núcleos tradicionais, e a construção de novas ligações viárias ajudava a conectar áreas que começavam a ganhar importância residencial e econômica. A gestão municipal de Clériston ocorreu, portanto, em um período de forte intervenção estatal na organização espacial da capital baiana.
Outro marco de sua administração foi a inauguração do Parque da Cidade Joventino Silva, em 1975. A área havia sido doada à Prefeitura por Joventino Pereira da Silva e o parque fora criado oficialmente pelo Decreto Municipal nº 4.522, de 30 de outubro de 1973. A inauguração ocorreu no último ano da gestão de Clériston, tornando-se posteriormente uma das principais áreas verdes de Salvador.
A sucessão de Antônio Carlos Magalhães
Em 1974, Clériston Andrade ganhou dimensão estadual quando Antônio Carlos Magalhães passou a defendê-lo como seu candidato à sucessão no governo da Bahia. Naquele momento, porém, a escolha do governador ainda não era feita pelo voto direto da população. O processo passava pela estrutura política da Arena e pela decisão do governo federal, dentro do sistema vigente durante a ditadura.
ACM chegou a colocar Clériston entre os nomes de sua preferência, mas a articulação não prosperou. Grupos adversários dentro da própria Arena baiana se uniram em torno de Roberto Santos, então ex-reitor da Universidade Federal da Bahia, e o presidente Ernesto Geisel acabou indicando Santos para o governo estadual. A derrota representou um revés para Antônio Carlos Magalhães e impediu Clériston de chegar ao Palácio de Ondina naquele momento.
Do setor elétrico ao Baneb
Depois de deixar a Prefeitura de Salvador, Clériston passou por uma fase de menor exposição política. Sua trajetória, entretanto, continuou vinculada à administração pública. Na segunda metade da década de 1970, ocupou funções no setor elétrico e posteriormente voltou ao primeiro plano da política baiana durante o segundo governo de Antônio Carlos Magalhães.
Em 1979, Clériston assumiu a presidência do Banco do Estado da Bahia, o Baneb. Documentos do Congresso Nacional registram uma forte expansão da instituição durante o período em que esteve à frente do banco: entre março de 1979 e dezembro de 1981, o patrimônio líquido passou de Cr$ 743 milhões para Cr$ 7,3 bilhões, enquanto o número de agências aumentou de 88 para 231. Esses números foram apresentados no Congresso como evidência do crescimento da instituição sob sua administração.
A presidência do Baneb também ampliou sua presença política no interior da Bahia. Em 1982, já como candidato ao governo estadual, Clériston participava de inaugurações de agências e eventos ligados à expansão do banco. Registros da Câmara dos Deputados daquele ano mostram, por exemplo, sua participação na inauguração de uma agência em Pedro Alexandre, apresentada como instrumento de ampliação do crédito para pequenos e médios agricultores.
A candidatura ao governo da Bahia em 1982
Ao deixar o Baneb, Clériston Andrade foi escolhido pelo PDS para disputar o governo da Bahia nas eleições de 1982. A candidatura tinha peso especial porque representava a tentativa de Antônio Carlos Magalhães de manter sua influência sobre o governo estadual. A eleição daquele ano também marcou uma mudança importante no sistema político brasileiro, com a retomada das eleições diretas para governador após anos de escolha indireta.
A campanha, porém, terminou de maneira abrupta. Em 1º de outubro de 1982, Clériston viajava de helicóptero entre municípios do sudoeste baiano quando a aeronave caiu durante uma viagem de campanha. O candidato a vice-governador, Rogério Rego, deputados, assessores e outras pessoas também morreram no acidente. Ao todo, Clériston e outros 12 ocupantes perderam a vida.
A morte ocorreu pouco mais de um mês antes da votação, marcada para 15 de novembro. O acidente alterou completamente a disputa eleitoral: o PDS precisou substituir Clériston e Rogério Rego por João Durval Carneiro e Edvaldo Flores. João Durval acabou vencendo a eleição e tomou posse como governador da Bahia em 15 de março de 1983.
A trajetória de Clériston Andrade ficou associada, portanto, a um período específico da política baiana: o regime militar, a força da Arena e posteriormente do PDS, a ascensão de Antônio Carlos Magalhães e a modernização administrativa e urbana de Salvador. Sua carreira também evidencia como, naquele sistema político, uma liderança poderia avançar por meio de nomeações e articulações internas antes de chegar a uma disputa eleitoral direta. A memória de seu nome permaneceu em espaços públicos da Bahia, como o Memorial Clériston Andrade, criado em Salvador em 1983, e o Hospital Geral Clériston Andrade, inaugurado em Feira de Santana em 1984.
Um detalhe pouco lembrado de sua trajetória é que Clériston Andrade esteve entre os primeiros grandes nomes da política baiana ligados ao crescimento da presença batista no espaço público estadual. Pesquisa da UFBA registra que os batistas baianos viam sua chegada à Prefeitura de Salvador como uma conquista simbólica, por ele ter alcançado o principal cargo executivo municipal da capital.
