O suicídio de Getúlio Vargas, em 24 de agosto de 1954, adiou por dez anos o golpe militar que só se consumaria em abril de 1964, segundo interpretação sustentada por historiadores como Lira Neto, Antonio Barbosa e Jorge Ferreira. A base dessa leitura é concreta: boa parte dos oficiais que assinaram os manifestos militares de 1954, exigindo a saída de Vargas, ocupou, dez anos depois, postos de comando no golpe que derrubou o presidente João Goulart. O general Humberto de Alencar Castelo Branco, signatário do Manifesto dos Generais em agosto de 1954, tornou-se o primeiro presidente do regime militar instaurado em 1964. Essa continuidade de nomes é o principal argumento histórico para explicar por que a conspiração precisou de uma década para se reorganizar após a morte de Vargas.
A crise que antecedeu o suicídio já continha, meses antes, o núcleo militar que reapareceria em 1964. Em fevereiro de 1954, um documento conhecido como Manifesto dos Coronéis foi assinado por 81 oficiais superiores do Exército ligados à Escola Superior de Guerra e ao grupo político-militar chamado Cruzada Democrática, entre eles o tenente-coronel Golbery do Couto e Silva. O texto exigia o afastamento do ministro do Trabalho, João Goulart, sob o temor, defendido pelo historiador John W. F. Dulles, de que o governo Vargas caminhasse para uma aliança com a Argentina peronista nos moldes de uma república sindicalista. Goulart foi exonerado do Ministério do Trabalho em 22 de fevereiro de 1954, recuo que fortaleceu politicamente a ala militar contrária a Vargas.
A pressão militar se intensificou após o atentado da rua Tonelero, em 5 de agosto de 1954, que matou o major-aviador Rubens Vaz e implicou a guarda do presidente. Em 22 de agosto, dezenove generais assinaram o Manifesto dos Generais, exigindo a renúncia de Vargas, documento que se somou à pressão já feita pela Aeronáutica e pela Marinha. Vargas resistiu até a madrugada de 24 de agosto, quando se matou com um tiro no peito em seu quarto no Palácio do Catete, no Rio de Janeiro, então capital federal. A comoção popular provocada pela morte paralisou, de forma imediata, a articulação golpista que estava praticamente pronta para agir naquele mesmo mês.
O Manifesto dos Coronéis e a origem da conspiração militar contra Vargas
O Manifesto dos Coronéis reunia oficiais ligados à Cruzada Democrática, grupo vencedor das eleições do Clube Militar em 1952 e 1954, sob a liderança dos generais Alcides Etchegoyen, Nélson de Melo e, depois, Canrobert Pereira da Costa e Juarez Távora. Entre os signatários do memorial de fevereiro de 1954 estavam nomes como Amaury Kruel, Antônio Carlos da Silva Muricy, Ademar de Queirós, Jurandir Bizarria Mamede e Sizeno Sarmento, além de Golbery do Couto e Silva.
Esses oficiais tinham como referência política civil a União Democrática Nacional (UDN) e contavam com o apoio de generais mais graduados, como Juarez Távora e Osvaldo Cordeiro de Farias, e do brigadeiro Eduardo Gomes, então o principal nome militar da Força Aérea Brasileira. O episódio provocou a exoneração do general Ciro do Espírito Santo Cardoso do Ministério da Guerra, substituído pelo general Euclides Zenóbio da Costa, o que mostra o alcance imediato da pressão da oficialidade sobre o governo.
Vinculada à Escola Superior de Guerra (ESG), instituição criada em 1949 para formar quadros militares e civis em doutrina de segurança nacional, essa rede de oficiais desenvolveu ao longo da década de 1950 uma visão de que o nacionalismo trabalhista de Vargas representava risco à ordem institucional. Golbery do Couto e Silva, um dos redatores do Manifesto dos Coronéis, tornou-se posteriormente o chefe do Serviço Nacional de Informações (SNI) durante a ditadura militar, o órgão de inteligência criado em 1964 para monitorar opositores do regime. Essa trajetória exemplifica como a mesma geração de oficiais formada nos quadros da ESG manteve influência política contínua entre a crise de 1954 e o golpe de 1964.
Os generais que pressionaram Vargas e comandaram o golpe de 1964
Castelo Branco assinou o Manifesto dos Generais em agosto de 1954, defendendo que o vice-presidente João Café Filho assumisse o governo em caso de renúncia de Vargas, posição mais moderada que a de setores da UDN e de Carlos Lacerda, que pediam a deposição imediata. Dez anos depois, o mesmo general chefiou a conspiração civil-militar que depôs João Goulart em 31 de março e 1º de abril de 1964, tornando-se o primeiro presidente do regime militar, cargo que ocupou até 1967. Ao seu lado, no núcleo que ficou conhecido como grupo dos “modernizadores” do golpe de 1964, estavam Golbery do Couto e Silva, Antônio Carlos Muricy e Osvaldo Cordeiro de Farias, nomes já presentes na articulação militar contra Vargas em 1954. O general Amaury Kruel, signatário do Manifesto dos Coronéis, comandou em 1964 o II Exército, com sede em São Paulo, e sua adesão ao movimento golpista foi decisiva para o rápido colapso da resistência legalista.
Por que a morte de Vargas interrompeu a conspiração golpista por uma década?
Segundo o historiador Antonio Barbosa, professor da Universidade de Brasília, o impacto emocional do suicídio transformou a percepção pública de Vargas, que passou a ser visto como vítima por parte da população que antes lhe fazia oposição. Esse efeito enfraqueceu a legitimidade política dos setores civis e militares que já se preparavam para depor o presidente, obrigando-os a recuar temporariamente de um golpe que, segundo essa leitura, estava próximo de ocorrer ainda em 1954. É importante notar que essa é uma interpretação historiográfica, não um consenso fechado: o historiador Ricardo Cavaliere, por exemplo, trata a tese de que o suicídio adiou o golpe em exatos dez anos como uma hipótese plausível, e não como fato comprovado documentalmente. De qualquer forma, entre 1954 e 1964 os mesmos grupos golpistas permaneceram ativos, articulando-se de novo contra Jânio Quadros e Goulart até finalmente tomarem o poder.
Como a mesma rede golpista se reorganizou até o golpe de 1964
Após a morte de Vargas, a oposição golpista perdeu força imediata, mas manteve sua estrutura organizativa dentro da Escola Superior de Guerra e, mais tarde, do complexo formado pelo Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (IPES) e pelo Instituto Brasileiro de Ação Democrática (IBAD), criados no fim da década de 1950 e no início dos anos 1960 com financiamento de setores empresariais para combater o nacionalismo e o trabalhismo. O pretexto de uma suposta ameaça de “república sindicalista”, já usado contra Vargas em 1954, foi novamente mobilizado em 1964 contra Goulart, reforçando a continuidade ideológica entre as duas conspirações.
A crise final se acelerou quando Goulart, como Vargas antes dele, tentou ampliar direitos trabalhistas e sociais por meio das chamadas reformas de base, o que reacendeu a mesma aliança entre UDN, empresariado conservador e oficiais formados na ESG.
Em 31 de março de 1964, tropas de Olympio Mourão Filho partiram de Minas Gerais rumo ao Rio de Janeiro, dando início ao movimento que depôs Goulart em menos de 48 horas. Castelo Branco e Costa e Silva, que durante anos haviam mantido contatos conspirativos dentro do antigo Ministério da Guerra, assumiram a liderança política e militar do novo governo, formalizando a ruptura institucional que os manifestos de 1954 já haviam anunciado. A ditadura resultante duraria até 1985, mais de duas décadas depois da crise que, segundo os historiadores citados, quase havia derrubado Vargas uma década antes por meios idênticos.
Uma curiosidade pouco lembrada é que Castelo Branco, apesar de assinar o Manifesto dos Generais contra Vargas em 1954, defendeu a posse constitucional de Juscelino Kubitschek em 1955, ao lado do general Henrique Teixeira Lott, contra uma nova tentativa de golpe da UDN e de Carlos Lacerda. Esse episódio, o movimento de 11 de novembro de 1955, mostra que o mesmo general que depôs Goulart em 1964 atuou, poucos anos antes, como defensor da legalidade institucional, evidenciando o caráter oscilante das alianças militares que ligaram a morte de Vargas ao golpe de 1964.
