Oscar Niemeyer foi o arquiteto responsável pelos principais edifícios públicos de Brasília, capital inaugurada em 1960, e um dos nomes centrais da arquitetura moderna mundial no século XX. Nascido Oscar Ribeiro de Almeida de Niemeyer Soares Filho, no bairro de Laranjeiras, no Rio de Janeiro, em 15 de dezembro de 1907, ele projetou mais de 500 obras espalhadas pela América, Europa e África ao longo de oito décadas de carreira. Sua marca reconhecível — o concreto armado moldado em curvas livres, sem os ângulos retos da arquitetura racionalista clássica — tornou-se sinônimo da própria identidade arquitetônica do Brasil moderno.
Niemeyer entrou na Escola Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro em 1929 e se formou em arquitetura em 1934, ainda casado, desde 1928, com Annita Baldo. Em 1932, começou a trabalhar como estagiário no escritório do arquiteto e urbanista Lúcio Costa, parceria profissional que se estenderia por décadas e resultaria em algumas das obras mais importantes da arquitetura moderna brasileira. Foi com Lúcio Costa que Niemeyer participou, entre 1936 e 1943, do projeto do edifício-sede do Ministério da Educação e Saúde, no Rio de Janeiro, obra que contou com consultoria do arquiteto suíço-francês Le Corbusier e é considerada um dos marcos fundadores do modernismo arquitetônico no país.
O talento de Niemeyer para o desenho de curvas ganhou expressão própria a partir de 1940, quando Juscelino Kubitschek, então prefeito de Belo Horizonte, o convidou para projetar o conjunto arquitetônico da Lagoa da Pampulha, inaugurado em 1943. O complexo reunia a Igreja de São Francisco de Assis, o Cassino, a Casa do Baile e o Iate Tênis Clube, e marcou o rompimento de Niemeyer com as linhas retas da tradição racionalista europeia. Reconhecido pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) como Patrimônio Mundial em 2016, o conjunto da Pampulha selou também a parceria entre Niemeyer e Kubitschek, que se tornaria decisiva quinze anos depois.
Como Oscar Niemeyer desenhou os edifícios de Brasília?
Em 1956, já eleito presidente da República, Juscelino Kubitschek encarregou Niemeyer de projetar os principais prédios públicos da nova capital do Brasil, a ser erguida no Planalto Central, dentro do estado de Goiás. O plano urbanístico geral, conhecido como Plano Piloto, foi elaborado por Lúcio Costa, vencedor do concurso público realizado em 1957, enquanto Niemeyer assumiu a arquitetura dos edifícios monumentais e, a partir de 1958, o cargo de arquiteto-chefe da Novacap, empresa estatal responsável pela construção da cidade. Essa divisão de tarefas — urbanismo com Costa, arquitetura com Niemeyer — explica por que os dois nomes aparecem sempre associados à fundação de Brasília, inaugurada em 21 de abril de 1960.
Entre os edifícios brasilienses assinados por Niemeyer estão o Palácio da Alvorada, residência oficial da Presidência da República, o Palácio do Planalto, sede do Poder Executivo, o Congresso Nacional, com suas duas cúpulas simétricas, a Catedral de Brasília, de estrutura em forma de coroa invertida, o Palácio do Itamaraty e o edifício do Supremo Tribunal Federal. Esses projetos consolidaram o repertório visual que ficaria conhecido internacionalmente como “estilo Niemeyer”: estruturas em concreto armado, grandes vãos livres sustentados por pilotis, superfícies curvas e um contraste deliberado entre solidez estrutural e leveza visual. O conjunto de Brasília foi reconhecido pela Unesco como Patrimônio Cultural da Humanidade em 1987, título raro para uma cidade planejada no século XX.
A frase que resume a arquitetura de curvas de Niemeyer
Niemeyer explicou por escrito, em texto que se tornou uma das citações mais repetidas sobre sua obra, o que o levava a rejeitar a linha reta em favor da curva: ele afirmou que não era o ângulo reto que o atraía, nem a linha reta e rígida criada pelo homem, mas a curva livre e sensual encontrada nas montanhas, nos rios e nas nuvens. Essa formulação não era apenas retórica: refletia uma escolha estrutural viabilizada pelas propriedades do concreto armado, material que permite formas curvas contínuas sem comprometer a resistência da construção. Historiadores da arquitetura, como Yves Bruand, autor de estudos de referência sobre a arquitetura moderna brasileira, situam essa opção estética de Niemeyer dentro de um esforço mais amplo de criar uma linguagem arquitetônica brasileira distinta do racionalismo europeu, ainda que derivada dele.
Os projetos internacionais depois do golpe de 1964
Niemeyer filiou-se ao Partido Comunista Brasileiro (PCB) em 1945, no fim da Segunda Guerra Mundial, e manteve essa posição política declarada por toda a vida, mesmo quando isso lhe custou encomendas e viagens. Em 1947, sua proximidade com a arquitetura moderna internacional o levou a integrar a comissão de arquitetos responsável pelo projeto da sede da Organização das Nações Unidas em Nova York, grupo que reuniu profissionais de vários países sob coordenação que incluiu Le Corbusier. Esse período consolidou o reconhecimento de Niemeyer fora do Brasil, décadas antes da construção de Brasília.
O golpe militar de 1964 interrompeu abruptamente a trajetória do arquiteto no país: por sua filiação comunista, Niemeyer teve o escritório invadido, viu encomendas públicas cessarem e deixou a cátedra que ocupava na Universidade de Brasília em 1965. Exilado principalmente em Paris, onde abriu escritório próprio nos Champs-Élysées em 1972, ele passou a atender clientes na Europa e na África: projetou a sede do Partido Comunista Francês, em Paris, na década de 1960; a sede da editora Mondadori, na Itália, em 1968; a Universidade de Constantine, na Argélia, também em 1968; e o edifício do jornal L’Humanité, em Saint-Denis, na França, concluído em 1987. Esses projetos ampliaram a assinatura curva de Niemeyer para um público internacional que já o via como um dos grandes nomes vivos da arquitetura moderna.
Com a redemocratização brasileira, Niemeyer retornou ao Brasil em 1985 e retomou uma produção intensa: assinou o Memorial Juscelino Kubitschek, em Brasília, em 1980, ainda antes do retorno definitivo, o Sambódromo do Rio de Janeiro, em 1984, e, já nos anos 1990, o Museu de Arte Contemporânea de Niterói, inaugurado em 1996, com sua forma de disco suspenso sobre a Baía de Guanabara. Em 1988, recebeu o Prêmio Pritzker, considerado a mais alta distinção da arquitetura mundial, reconhecimento que reafirmou, décadas depois de Brasília, a relevância internacional de sua obra.
Os últimos projetos de Niemeyer
Niemeyer trabalhou até os últimos anos de vida, projetando obras como o Museu Oscar Niemeyer, em Curitiba, inaugurado em 2002 e conhecido popularmente como “Museu do Olho” por sua estrutura em formato de olho suspenso, e a Cidade Administrativa de Minas Gerais, entregue em 2010. Morreu no Rio de Janeiro, em 5 de dezembro de 2012, dez dias antes de completar 105 anos, deixando um legado que atravessa a arquitetura religiosa, política, cultural e residencial em pelo menos quatro continentes.
Uma curiosidade pouco lembrada é que Niemeyer tinha um vínculo familiar prévio com um dos edifícios que projetaria décadas depois em Brasília: seu avô materno, o jurista Antônio Augusto Ribeiro de Almeida, foi ministro do Supremo Tribunal Federal entre 1896 e 1913, muito antes de o próprio Oscar Niemeyer desenhar, já na nova capital, o edifício-sede daquela mesma corte.