Juscelino Kubitschek foi assassinado pela ditadura, aponta relatório

Documento recomenda a retificação da certidão de óbito de Juscelino Kubistchek e de seu motorista, Geraldo Ribeiro

Foto: Domínio público/Acervo Arquivo Nacional | Edição: HiperHistória/Gemini

Um novo relatório da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP), divulgado neste mês, traz uma reviravolta histórica ao concluir que o ex-presidente Juscelino Kubitschek foi assassinado pela ditadura militar.

O documento, com mais de 5 mil páginas, contesta a versão oficial que perdurou por quase meio século e recomenda a retificação da certidão de óbito de JK e de seu motorista, Geraldo Ribeiro.

Abaixo, detalhamos os fatos e as conclusões desse relatório sobre como ocorreu a morte do “Presidente Bossa Nova”.

Versão da ditadura sobre a morte de Juscelino Kubitschek

Por décadas, a versão oficial sustentada pelo regime militar — e até então ratificada por órgãos como a Comissão Nacional da Verdade em 2014 — era de que JK havia morrido em um acidente automobilístico comum.

A versão da ditadura (agora refutada): No dia 22 de agosto de 1976, JK e Geraldo Ribeiro viajavam em um Chevrolet Opala pela Via Dutra (BR-116), sentido Rio-São Paulo. Segundo os militares, o carro teria sido atingido lateralmente por um ônibus da Viação Cometa durante uma ultrapassagem. O impacto teria feito o motorista perder o controle, atravessar o canteiro central e colidir frontalmente com uma carreta Scania que vinha no sentido oposto.

O que o novo relatório revela?

A historiadora Maria Cecília Adão, relatora do caso na CEMDP, baseou-se em novas perícias técnicas e investigações aprofundadas conduzidas pelo Ministério Público Federal (MPF) entre 2013 e 2019. As principais conclusões são:

  1. Inexistência da colisão com o ônibus: Perícias modernas demonstraram que não há indícios materiais de que o Opala tenha sido tocado pelo ônibus antes de sair da pista.
  2. Ação externa deliberada: O relatório aponta que houve uma “ação externa” provocada por agentes do regime para tirar o veículo da pista. Embora o método exato ainda gere debates (como a hipótese de um tiro no motorista ou sabotagem mecânica), o documento é categórico ao afirmar que a morte foi um ato político.
  3. Contexto de perseguição: JK era vigiado de perto pela Operação Condor. Na época, ele articulava com João Goulart e Carlos Lacerda a “Frente Ampla” para restaurar a democracia, o que o tornava um alvo prioritário dos setores mais radicais da repressão.

Repercussões históricas

A conclusão do relatório não apenas limpa a memória de JK, mas também a de seu motorista, Geraldo Ribeiro. Por anos, o Estado tentou culpabilizá-lo pelo acidente ou insinuar imprudência. O novo parecer pede que ambos sejam reconhecidos oficialmente como vítimas do Estado brasileiro.

A mudança na narrativa oficial coloca a morte de Juscelino no mesmo rol de outros “acidentes” e “suicídios” forjados pela ditadura para eliminar oponentes políticos de alto escalão, consolidando a tese de que o regime não aceitaria o retorno de JK ao poder por meios democráticos.

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