A origem do acarajé: da Nigéria e Benim para a Bahia

No Brasil, tornou-se um dos maiores símbolos da culinária baiana ao incorporar novos ingredientes e significados culturais

Imagem gerada por IA | HiperHistória

O acarajé surgiu entre os povos iorubás da atual Nigéria e da República do Benim, na África Ocidental, muitos séculos antes da colonização portuguesa do Brasil. Preparado com feijão-fradinho descascado, cebola e azeite de dendê, o bolinho era consumido tanto em cerimônias religiosas quanto no cotidiano. A receita chegou à Bahia entre os séculos XVI e XIX com africanos escravizados, preservando elementos centrais da tradição culinária iorubá.

O nome acarajé deriva da língua iorubá. A palavra resulta da combinação de àkàrà, que significa bolinho de feijão, e jẹ, verbo que significa comer. A expressão pode ser traduzida como “comer bolinho de feijão”, refletindo a origem popular do alimento antes de sua consagração como patrimônio cultural brasileiro.

Na Bahia, o acarajé passou a representar muito mais que uma receita. O bolinho tornou-se um símbolo da presença africana na formação da sociedade brasileira e da resistência cultural das comunidades afrodescendentes. Também consolidou a ligação entre gastronomia, religiosidade e identidade, especialmente em Salvador e no Recôncavo Baiano.

A origem do acarajé na tradição iorubá

Na Nigéria, o alimento conhecido como àkàrà continua sendo amplamente consumido. O preparo utiliza feijão-fradinho sem casca, cebola e, em algumas regiões, pimenta, formando uma massa batida e frita em óleo vegetal ou óleo de palma. O resultado é um bolinho crocante por fora e macio por dentro, geralmente servido no café da manhã ou como refeição rápida.

Entre os iorubás, o àkàrà também possui importância religiosa. Nas tradições que deram origem ao Candomblé no Brasil, o bolinho está associado especialmente à divindade Oyá, conhecida no Brasil como Iansã. O alimento integra oferendas e celebrações religiosas, preservando um significado espiritual que atravessou o Atlântico durante o tráfico de africanos escravizados.

No continente africano, o àkàrà costuma ser servido de maneira simples. É comum acompanhá-lo com mingaus preparados de milho ou sorgo, papas, pães, bebidas locais ou consumi-lo isoladamente. Diferentemente da versão baiana, não existe o costume tradicional de rechear o bolinho com diversos ingredientes.

Como o acarajé se transformou na Bahia

Ao chegar ao Brasil, o acarajé encontrou novos ingredientes disponíveis e adaptou-se aos hábitos alimentares locais. A massa básica permaneceu semelhante à africana, mantendo o feijão-fradinho, a cebola e o azeite de dendê como elementos essenciais. Entretanto, surgiram recheios que não fazem parte da tradição africana, como vatapá, caruru, camarão seco, salada e pimenta.

Essa transformação ocorreu principalmente em Salvador durante os séculos XVIII e XIX. Mulheres negras, muitas delas libertas ou descendentes de africanos escravizados, passaram a vender acarajé nas ruas para garantir renda. As chamadas baianas do acarajé contribuíram para preservar técnicas culinárias africanas enquanto incorporavam ingredientes característicos da cozinha baiana.

O acarajé entre patrimônio cultural e tradição religiosa

A venda do acarajé tornou-se uma das atividades mais conhecidas das baianas vestidas com trajes tradicionais de influência africana. Além da importância econômica, essa prática fortaleceu a preservação de costumes ligados ao Candomblé e à cultura afro-brasileira. Em 2004, o ofício das baianas de acarajé foi registrado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) como Patrimônio Cultural do Brasil, reconhecendo seu valor histórico e social.

O reconhecimento institucional também destacou que o acarajé representa um patrimônio imaterial formado por conhecimentos culinários, práticas religiosas, modos de vestir e formas tradicionais de comércio. O bolinho ultrapassou o campo gastronômico e passou a simbolizar a contribuição africana para a identidade brasileira. Ao mesmo tempo, continuou preservando vínculos com sua matriz iorubá na África Ocidental.

O acarajé mantém sua herança africana

Embora a versão brasileira tenha adquirido características próprias, o acarajé conserva elementos fundamentais herdados da tradição iorubá. O uso do feijão-fradinho, do azeite de dendê, da fritura em óleo quente e sua relação com manifestações religiosas permanecem como traços comuns entre a Nigéria e a Bahia. Uma curiosidade histórica é que, enquanto o acarajé baiano tornou-se famoso pelos recheios abundantes, o àkàrà vendido atualmente nas ruas da Nigéria continua sendo consumido, na maior parte das vezes, sem recheio, preservando um modo de preparo muito próximo daquele que inspirou o nascimento do acarajé brasileiro.

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