Ulysses Guimarães emergiu como a figura central da transição política brasileira entre as décadas de 1970 e 1980 em Brasília. O advogado e deputado federal comandou a oposição civil contra a ditadura militar, consolidando a retomada do Estado de Direito. Ele atuou nos bastidores e nos palanques para garantir o retorno da democracia ao país. Sua atuação culminou na promulgação da Constituição de 1988.
O início de sua trajetória pública ocorreu em São Paulo, logo após o fim do Estado Novo de Getúlio Vargas. Elegeu-se deputado estadual em 1947 pelo Partido Social Democrático (PSD), assumindo uma postura moderada. Quatro anos depois, chegou à Câmara dos Deputados, cargo que ocupou por onze mandatos consecutivos. Nesse período inicial, construiu a reputação de um articulador habilidoso e jurista respeitado.
A crise institucional do início dos anos 1960 provocou uma decisão controversa em sua biografia política. Em março de 1964, o parlamentar apoiou a deposição do presidente João Goulart. Ele acreditava que a intervenção das Forças Armadas seria breve e garantiria a estabilidade institucional para novas eleições. Contudo, a edição dos Atos Institucionais revelou o caráter autoritário do novo regime estabelecido no país.
A liderança de Ulysses Guimarães na oposição democrática
Com a instauração do bipartidarismo pelo Ato Institucional Número Dois (AI-2) em 1965, o cenário político nacional sofreu uma reconfiguração drástica. Os opositores do regime militar agruparam-se no Movimento Democrático Brasileiro (MDB). O político paulista assumiu a presidência nacional da legenda em 1971, transformando o partido em um instrumento legal de resistência. Sob seu comando, o MDB aglutinou diferentes correntes ideológicas contrárias aos generais.
O desgaste econômico e político do governo militar fortaleceu as demandas populares por eleições livres no início da década de 1980. Esse cenário impulsionou a campanha das Diretas Já em 1984, mobilizando milhões de brasileiros nas ruas. Durante os comícios, ele formou uma aliança fundamental com o governador mineiro Tancredo Neves. Ambos articularam o apoio necessário para tentar derrotar o candidato governista Paulo Maluf.
A rejeição da Emenda Dante de Oliveira transferiu a disputa para o Colégio Eleitoral, exigindo pragmatismo da oposição. Tancredo Neves venceu a eleição indireta em janeiro de 1985, selando o fim dos governos militares no Brasil. A morte de Tancredo antes da posse gerou uma crise contornada com a ascensão do vice José Sarney. O líder do recém-criado PMDB garantiu a governabilidade do novo presidente civil.
A formulação da nova ordem constitucional brasileira
A transição política exigia uma nova base jurídica para substituir o arcabouço autoritário herdado do período militar. O Congresso Nacional converteu-se em Assembleia Nacional Constituinte no ano de 1987. A presidência dos trabalhos coube ao veterano parlamentar, que conduziu as negociações entre forças conservadoras e progressistas. O processo durou quase dois anos de debates intensos sobre direitos civis, trabalhistas e garantias individuais.
O ápice de sua carreira ocorreu em 5 de outubro de 1988, data da promulgação do novo texto magno. O documento recebeu o apelido de Constituição Cidadã devido à ampla inclusão de direitos sociais e garantias fundamentais. Em seu discurso histórico, o presidente da constituinte declarou ter ódio e nojo da ditadura. Essa postura firme cravou definitivamente o título informal de Senhor Democracia em sua biografia.
Os desafios da primeira eleição direta e o declínio eleitoral
O restabelecimento do voto popular para o poder executivo federal ocorreu em 1989, após quase três décadas de interrupção. O PMDB lançou seu presidente nacional como candidato ao Palácio do Planalto. No entanto, o eleitorado buscava perfis diferentes do modelo político tradicional representado pelo parlamentar. Ele terminou a disputa em sétimo lugar, recebendo menos de cinco por cento dos votos válidos no pleito vencido por Fernando Collor.
O acidente no litoral fluminense e o legado histórico
A trajetória do veterano líder encontrou um desfecho abrupto na tarde de 12 de outubro de 1992. Um helicóptero que o transportava caiu no mar de Angra dos Reis, no litoral sul do estado do Rio de Janeiro. A aeronave enfrentou condições meteorológicas severas durante o trajeto entre a região de Paraty e a capital paulista. O acidente vitimou também sua esposa, Mora, o ex-ministro Severo Gomes, a esposa de Severo e o piloto.
Equipes de resgate realizaram extensas buscas na região costeira nas semanas seguintes à tragédia aérea. Os restos mortais da maioria dos ocupantes foram recuperados no mar e sepultados por suas famílias. No entanto, o corpo de Ulysses Guimarães jamais foi localizado no oceano pelas equipes de busca brasileiras. Esse fato gerou a curiosa lenda política de que o mar se recusou a devolver o corpo daquele que dedicou a vida a redemocratizar o país.