A associação dos elfos com a luz solar e com a ancestralidade familiar também aparece em fontes escandinavas antigas, que os relacionam a espíritos protetores ligados a túmulos e monumentos funerários de líderes locais. Essa característica aproxima os álfar de outras entidades da cosmologia nórdica, como os dísir e os fylgjur, espíritos guardiões ligados a famílias específicas. A ausência de um mito de origem único e claramente registrado para os elfos, diferente do que ocorre com divindades como Odin ou Thor, reforça a interpretação de historiadores da religião nórdica de que a crença nos álfar tinha caráter mais popular e cotidiano do que doutrinário, algo próximo de uma crença animista amplamente difundida entre as tribos germânicas antes da cristianização da Escandinávia, processo concluído entre os séculos X e XII.
Diferenças entre a mitologia élfica nórdica e germânica
Na Edda em Prosa, Snorri Sturluson estabelece a distinção mais detalhada sobre a natureza dos elfos, dividindo-os em duas categorias no capítulo 17 do livro Gylfaginning: os ljósálfar, ou “elfos da luz”, e os dökkálfar, ou “elfos das trevas”. Segundo o texto, os ljósálfar habitavam Álfheim, um dos nove mundos da cosmologia nórdica associado ao deus Freyr, divindade da fertilidade e da prosperidade agrícola, e eram descritos como mais belos que o sol. Os dökkálfar, por sua vez, viviam sob a terra e possuíam aparência mais sombria, sendo por vezes identificados por Snorri com os anões (dvergar) da mitologia nórdica, embora estudiosos modernos considerem incerto se essa equivalência refletia uma crença popular generalizada na Escandinávia medieval ou uma sistematização própria do autor.
Os elfos no folclore germânico continental e anglo-saxão
Fora da Escandinávia, entre os povos germânicos continentais e anglo-saxões, o conceito de elfo seguiu um caminho diferente, associado cada vez mais a doenças, pesadelos e infortúnios inexplicáveis. Em alemão, o termo Alb passou a designar um ser que oprimia pessoas durante o sono, origem da palavra Albtraum, que significa literalmente “sonho de elfo” e é usada até hoje para “pesadelo” em alemão moderno. Na Inglaterra medieval e no início da Idade Moderna, o termo elf-shot, documentado desde o século XVI na Escócia e no norte da Inglaterra, atribuía dores agudas repentinas a supostos ataques de elfos, enquanto pontas de flecha neolíticas encontradas no solo eram popularmente interpretadas como armas élficas. Esse contraste entre o elfo nórdico, próximo dos deuses da fertilidade, e o elfo anglo-saxão ou germânico continental, perigoso e imprevisível, ilustra como a cristianização progressiva da Europa entre os séculos VIII e XII reinterpretou negativamente crenças pré-cristãs, associando os antigos espíritos da natureza a forças demoníacas.
Essa divergência entre as duas tradições — a nórdica, que preservou elementos de divindade e beleza, e a germânica/anglo-saxônica, que acentuou o caráter ameaçador — permaneceu registrada em fontes escandinavas e britânicas até o fim da Idade Média. Somente a partir do Renascimento e, com mais força, do movimento romântico europeu dos séculos XVIII e XIX, os elfos passaram a se fundir com a tradição das fadas britânicas, adquirindo a imagem diminuta e delicada que Shakespeare já explorava em suas peças no fim do século XVI. Foi justamente contra essa imagem miniaturizada, herdada do folclore renascentista e romântico, que J. R. R. Tolkien reagiu ao desenvolver seus próprios elfos no século XX, buscando resgatar a dignidade e a estatura que os álfar possuíam nas fontes nórdicas originais.
Os elfos no cinema e na animação
A obra de Tolkien, especialmente “O Hobbit“, publicado em 1937, e “O Senhor dos Anéis”, lançado entre 1954 e 1955, popularizou globalmente a imagem de elfos altos, sábios e quase imortais, combinando elementos da mitologia nórdica, de fontes anglo-saxônicas e de lendas célticas como o Tuatha Dé Danann irlandês. Essa reformulação literária tornou-se a base visual e narrativa para praticamente toda a fantasia produzida posteriormente, incluindo o jogo de mesa Dungeons & Dragons, lançado em 1974, e adaptações audiovisuais das décadas seguintes. A primeira adaptação animada de “O Senhor dos Anéis” para o cinema foi dirigida pelo animador americano Ralph Bakshi em 1978, precedendo em mais de duas décadas a trilogia live-action dirigida pelo cineasta neozelandês Peter Jackson entre 2001 e 2003, responsável por consolidar visualmente, para o público global, a imagem contemporânea dos elfos tolkienianos.
Paralelamente à tradição literária de Tolkien, uma vertente independente de elfos se consolidou no cinema e na animação natalina dos Estados Unidos, derivada da associação entre Papai Noel e a palavra “elfo” feita pelo escritor americano Clement Clarke Moore em seu poema “A Visit from St. Nicholas”, publicado anonimamente em 23 de dezembro de 1823 no jornal Troy Sentinel, em Nova York. A revista americana Godey’s Lady’s Book consolidou visualmente essa associação em 1873, ao estampar em sua capa natalina ilustrações de elfos ajudando Papai Noel a preparar brinquedos, imagem posteriormente reforçada por peças teatrais infantis do fim do século XIX. Essa tradição chegou à animação em produções como o especial de stop-motion “Rudolph, the Red-Nosed Reindeer”, exibido pela produtora Rankin/Bass em 1964, que apresentou o elfo Hermey como um dos protagonistas, e alcançou o cinema de live-action em “Elf: Um Duende em Nova York”, comédia de 2003 dirigida por Jon Favreau e estrelada por Will Ferrell.
Uma curiosidade histórica ainda hoje verificável sobre os elfos vem da Islândia, país que preservou de forma mais direta a tradição nórdica original: pesquisas de opinião conduzidas por universidades islandesas ao longo das últimas décadas mostram que uma parcela relevante da população local declara acreditar, ou pelo menos não descartar completamente, a existência do chamado huldufólk, ou “povo oculto”, termo islandês diretamente relacionado aos antigos álfar da mitologia nórdica. Essa crença chegou a influenciar decisões reais de engenharia civil na Islândia, com projetos de estradas ocasionalmente redesenhados para evitar rochas às quais a tradição popular atribui a presença de elfos. O episódio demonstra como a mitologia dos elfos, nascida há mais de mil anos na Escandinávia pré-cristã, continua presente tanto na cultura popular global quanto no cotidiano de comunidades que preservam suas raízes nórdicas originais.